Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

O ano litúrgico segundo o Missal de 1962

Ao longo de um ano, a Igreja percorre toda a vida de Cristo — da espera do Advento à vinda do Espírito Santo em Pentecostes — e, entrelaçada com ela, a memória de Nossa Senhora e dos santos. Cada tempo tem seus textos, suas cores e seus costumes; conhecê-los é a melhor chave para entender por que a Missa de cada domingo é diferente.

Profundidade
Cinco paramentos litúrgicos bordados, vistos por trás em manequins numa vitrine de museu: casulas preta, vermelhas e dourada e, ao centro, uma capa pluvial dourada, sobre alvas rendadas.
Paramentos de cores litúrgicas diversas (preto, vermelho, dourado) expostos no Museu da Cultura Monástica (Museum für Klosterkultur) de Weingarten, na Alemanha. Andreas Praefcke · Domínio público

Um ano que conta a história da salvação

Essencial

O ano da Igreja não começa em 1º de janeiro. Começa no primeiro domingo do Advento, o domingo que cai em 30 de novembro ou é o mais próximo dessa data — sempre entre 27 de novembro e 3 de dezembro. A partir daí, semana após semana, a liturgia percorre a vida de Cristo: a espera anunciada pelos profetas, o nascimento em Belém, a manifestação aos magos, o jejum no deserto, a Paixão, a Ressurreição, a Ascensão e a vinda do Espírito Santo. Não se trata de encenação nem de simples lembrança: para a fé da Igreja, cada mistério celebrado volta a ser fonte de graça para quem dele participa. O Concílio Vaticano II resumiu essa pedagogia ao dizer que a Igreja “distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano” (Sacrosanctum Concilium, 102).

O Próprio do Tempo do Missal de 1962 começa com o Intróito do 1º domingo do Advento:

Ad te levávi ánimam meam: Deus meus, in te confído, non erubéscam.

A ti elevei a minha alma: meu Deus, em ti confio, não serei confundido.

Ao lado desse percurso, que os livros chamam de ciclo do tempo ou Temporal (Proprium de Tempore), corre um segundo calendário: o dos santos, ou Santoral (Proprium Sanctorum). Nossa Senhora, os Apóstolos, os mártires, os doutores e as virgens são celebrados em datas fixas, em geral no dia da morte — o dies natalis, “dia do nascimento” para o céu. Boa parte do Temporal depende da data da Páscoa, que muda de ano para ano; o Santoral segue o calendário civil. Os dois se cruzam o tempo todo, e um conjunto de normas, as rubricas, decide qual celebração prevalece quando coincidem. Por isso a mesma data pode ter, em anos diferentes, Missas diferentes: se 8 de dezembro cair num domingo do Advento, celebra-se a Imaculada Conceição, e do domingo faz-se apenas comemoração.

Dois polos: o Natal e a Páscoa

O Natal tem data fixa, 25 de dezembro; a Páscoa é móvel. Ela cai no domingo seguinte à primeira lua cheia eclesiástica a partir de 21 de março, calculada por regras e tabelas tradicionais, e por isso varia entre 22 de março e 25 de abril. Do Natal dependem o Advento, que o prepara, e o tempo que o prolonga até 13 de janeiro. Da Páscoa dependem a Septuagésima (nove semanas antes), a Quaresma, a Semana Santa, a Ascensão (no quadragésimo dia, sempre numa quinta-feira) e Pentecostes (no quinquagésimo dia, contando a própria Páscoa como o primeiro). Entre um bloco e outro, e depois de Pentecostes, ficam os domingos “depois da Epifania” e “depois de Pentecostes”, de cor verde, em que a Igreja medita a pregação e os milagres do Senhor, até o tema dos últimos domingos do ano: o fim do mundo e a volta de Cristo.

Uma observação para quem lê no Brasil. O calendário litúrgico nasceu no hemisfério norte, e alguns de seus textos supõem as estações de lá: o Natal no inverno, quando os dias voltam a crescer; a Páscoa na primavera; as Têmporas ligadas à sementeira e à colheita da Europa. Entre nós, o Natal cai no verão e a Páscoa no outono. Isso não esvazia o simbolismo — a luz de Cristo que vence as trevas não depende do clima —, mas lembra que o ano litúrgico é, antes de tudo, um calendário de mistérios, e não de estações da natureza.

As estações do ano litúrgico

Essencial

Os livros de 1962 dividem o ano em tempos delimitados com precisão pelo Código de Rubricas de 1960 (nn. 71–77). Neste site, para facilitar, agrupamos esses tempos em oito estações, cada uma com sua cor e seu clima espiritual: três em torno do Natal (Advento, Tempo do Natal, Tempo depois da Epifania), quatro em torno da Páscoa (Septuagésima, Quaresma, Tempo da Paixão, Tempo Pascal) e o longo Tempo depois de Pentecostes. O quadro dá os limites exatos; em seguida, cada tempo é apresentado com seu nome latino, sua cor e uma explicação que você pode abrir. O tempo em que estamos aparece marcado com “hoje”.

Os tempos do calendário de 1962
TempoComeçaTerminaCor
Advento1º domingo do Advento (entre 27/11 e 3/12)24 de dezembroroxo
Tempo do Natal25 de dezembro13 de janeirobranco
Depois da Epifania14 de janeirosábado antes da Septuagésimaverde
Septuagésimadomingo da Septuagésima (nove semanas antes da Páscoa)terça-feira antes das Cinzasroxo
QuaresmaQuarta-feira de Cinzassábado antes do 1º domingo da Paixãoroxo
Tempo da Paixão1º domingo da Paixão (duas semanas antes da Páscoa)Sábado Santo, até a Vigíliaroxo
Tempo PascalVigília Pascalsábado dentro da oitava de Pentecostesbranco (vermelho da vigília de Pentecostes à sua oitava)
Depois de Pentecostesdomingo da Santíssima Trindadesábado antes do Adventoverde

Duas observações ajudam a ler o quadro. A cor indicada é a dos domingos e das férias (os dias de semana) de cada tempo; as festas de santos e de mistérios têm cor própria (ver as cores litúrgicas). E as fronteiras são litúrgicas, e não civis: no Ofício divino, o domingo e as grandes festas começam na véspera, com as primeiras Vésperas, e por isso os tempos “entram” na tarde do dia anterior. Para quem vai só à Missa, basta saber o domingo; para quem reza o Breviário, essas horas contam.

  1. Advento

    Tempus Adventus · roxo

    Quatro semanas de espera e preparação para o Natal: a Igreja revive a esperança dos profetas e volta os olhos para a segunda vinda de Cristo. Paramentos roxos, sem Glória, com um respiro de alegria no domingo Gaudete.

    Ler mais sobre este tempo

    O Advento começa nas primeiras Vésperas do domingo mais próximo de 30 de novembro e vai até a tarde de 24 de dezembro (n. 71). Tem duplo sentido: prepara a memória do nascimento de Cristo em Belém e recorda que ele voltará na glória. Por isso o 1º domingo lê o Evangelho dos sinais do fim (Lc 21,25-33), e os seguintes fazem ouvir João Batista, o precursor. Os quatro domingos são de I classe e prevalecem sobre qualquer festa, com uma única exceção: a Imaculada Conceição, em 8 de dezembro. Os dias de semana repetem a Missa do domingo, salvo as Têmporas, que têm Missa própria; a partir de 17 de dezembro a liturgia se intensifica, as férias passam à II classe e, nas Vésperas, cantam-se as grandes antífonas “Ó”.

    Intróito do 4º domingo do Advento e da quarta-feira das Têmporas:

    Roráte, cæli, désuper, et nubes pluant iustum: aperiátur terra, et gérminet Salvatórem.

    Gotejai, ó céus, lá do alto, e as nuvens chovam o Justo; abra-se a terra e faça germinar o Salvador.

    Quem chega a uma Missa do Advento nota primeiro o roxo e a falta do Glória, guardado para a noite de Natal. O Aleluia, ao contrário, continua nos domingos, porque o Advento é espera alegre, e não luto; nas férias, quando se repete a Missa do domingo, diz-se só o Gradual. O Prefácio dos domingos é o da Santíssima Trindade; nas férias, o comum. No 3º domingo, Gaudete — “Alegrai-vos”, primeira palavra do Intróito —, os paramentos podem ser rosa. Em vários países é costume, onde as rubricas e a licença do bispo o permitem, celebrar nas férias, antes do amanhecer e à luz de velas, a Missa de Nossa Senhora do Advento, chamada Rorate pelas primeiras palavras do Intróito. A vigília do Natal, em 24 de dezembro, é de I classe e ainda roxa: só à noite a Igreja muda de cor.

  2. Tempo do Natal

    Tempus natalicium · branco

    De 25 de dezembro a 13 de janeiro, a Igreja celebra o Verbo feito carne e sua manifestação ao mundo: a Natividade e sua oitava, o Santíssimo Nome de Jesus, a Epifania, a Sagrada Família e o Batismo do Senhor. A cor é o branco.

    Ler mais sobre este tempo

    O Código de 1960 chama este tempo de natalício e divide-o em dois: o Tempo do Natal, de 25 de dezembro a 5 de janeiro, e o Tempo da Epifania, de 6 a 13 de janeiro (n. 72). No dia de Natal, cada sacerdote pode celebrar três Missas, com textos próprios: a da noite, a da aurora e a do dia. O Missal ainda indica para elas as antigas estações romanas — Santa Maria Maior junto ao presépio, Santa Anastácia e de novo Santa Maria Maior —, e os comentadores medievais viram nas três Missas o tríplice nascimento do Filho: eterno, do Pai; temporal, de Maria; espiritual, nas almas dos fiéis. No Brasil, a Missa da noite é chamada de Missa do Galo.

    Intróito da Missa da noite de Natal:

    Dóminus dixit ad me: Fílius meus es tu, ego hódie génui te.

    O Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.

    Na oitava do Natal, de II classe, sucedem-se Santo Estêvão, o primeiro mártir, São João Evangelista e os Santos Inocentes, como uma corte em torno do presépio; o 1º de janeiro, oitavo dia, é de I classe. O Santíssimo Nome de Jesus celebra-se no domingo entre 2 e 5 de janeiro, ou, não havendo domingo, em 2 de janeiro. A Epifania, em 6 de janeiro, festa de I classe, celebra a manifestação de Cristo aos magos; o domingo seguinte é a festa da Sagrada Família, e 13 de janeiro, a Comemoração do Batismo do Senhor, que fecha este tempo.

    Quem participa de uma Missa cantada de Natal repara num gesto raro: quando o coro canta Et incarnatus est no Credo, o celebrante e os ministros, que nesse momento costumam apenas inclinar a cabeça, ajoelham-se com todos; isso só acontece nas três Missas do Natal e na Anunciação (n. 518). E a festa não termina em 25 de dezembro: o branco e os cantos natalinos prolongam-se por quase três semanas. No Ofício, a antífona mariana Alma Redemptoris Mater continua até 2 de fevereiro, festa da Purificação, quarenta dias depois do Natal.

  3. Tempo depois da Epifania

    Tempus per annum (post Epiphaniam) · verde

    De 14 de janeiro à Septuagésima, um breve tempo verde em que os domingos mostram Cristo manifestando sua glória pelos milagres e pela pregação. Dura de uma a seis semanas, conforme a data da Páscoa.

    Ler mais sobre este tempo

    O Missal fala simplesmente dos domingos depois da Epifania; o Código de Rubricas inclui esses dias no tempo per annum, “durante o ano”, que começa em 14 de janeiro (n. 77). Os domingos prolongam a Epifania: as bodas de Caná (2º domingo, Jo 2,1-11), a cura do leproso e do servo do centurião (3º), a tempestade acalmada (4º), as parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento (5º e 6º). Como a Septuagésima pode começar já em 18 de janeiro ou só em 21 de fevereiro, o número de domingos varia de um a seis; os formulários que sobram são usados no fim do ano, depois do 23º domingo depois de Pentecostes.

    Intróito do 3º ao 6º domingo depois da Epifania:

    Adoráte Deum, omnes Angeli eius: audívit, et lætáta est Sion: et exsultavérunt fíliæ Iudæ.

    Adorai a Deus, todos os seus anjos; Sião ouviu e alegrou-se, e exultaram as filhas de Judá.

    Para quem chega, é um tempo tranquilo: paramentos verdes nos domingos e nos dias de semana, Glória e Credo aos domingos, Prefácio da Santíssima Trindade. Os dias de semana são de IV classe e quase sempre dão lugar a festas de santos. Em 2 de fevereiro, a festa da Purificação de Nossa Senhora, a Candelária, traz a bênção das velas e a procissão, feitas em branco desde 1960: os fiéis levam velas acesas em honra de Cristo, “luz para iluminar as nações”, como canta Simeão. Quando a Páscoa é cedo, a Purificação já cai na Septuagésima.

  4. Septuagésima

    Tempus Septuagesimae · roxo

    Três domingos de preparação para a Quaresma — Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima —, com paramentos roxos, sem Glória e sem Aleluia. Um vestíbulo da penitência, conservado no Missal de 1962.

    Ler mais sobre este tempo

    Este tempo vai das primeiras Vésperas do domingo da Septuagésima até a terça-feira antes das Cinzas (n. 73). A Igreja ainda não jejua, mas já se veste de roxo, cala o Glória nas Missas do tempo e despede-se do Aleluia, que só voltará na Vigília Pascal. Os três domingos, de II classe, têm cada um sua estação romana — São Lourenço, São Paulo e São Pedro — e formam um pequeno itinerário: o trabalho na vinha, a semente da Palavra, a caridade e o anúncio da Paixão. Nos dias de semana repete-se a Missa do domingo, só com o Gradual, ou celebram-se as festas dos santos.

    Para quem vem pela primeira vez, a surpresa é ver o roxo antes da Quarta-feira de Cinzas e ouvir, depois do Gradual, o Trato em lugar do Aleluia: versículos de salmo cantados sem refrão, de melodia longa e grave — no domingo da Septuagésima, o De profundis (sobre esses cantos, veja O latim e o canto). O calendário promulgado em 1969 não conservou este tempo; a explicação completa está mais acima.

  5. Quaresma

    Tempus Quadragesimae · roxo

    Da Quarta-feira de Cinzas ao sábado antes do 1º domingo da Paixão: o caminho de jejum, oração e esmola, com Missa própria para cada dia. Paramentos roxos, e rosa no domingo Laetare.

    Ler mais sobre este tempo

    A Quaresma imita os quarenta dias de Cristo no deserto, cujo Evangelho se lê no 1º domingo (Mt 4,1-11). O jejum quaresmal estende-se até o Sábado Santo; o tempo litúrgico chamado Quaresma vai até o sábado antes do 1º domingo da Paixão, quando começa o Tempo da Paixão (n. 74). Os domingos são de I classe; as férias são de III classe, mas prevalecem sobre as festas de III classe, que ficam reduzidas a comemoração (n. 25). Cada dia tem Missa própria e uma estação romana indicada no Missal, herança das procissões penitenciais de Roma, em que o papa, o clero e o povo se reuniam numa igreja e seguiam para outra, onde se celebrava a Missa. As Têmporas da Quaresma caem na semana que se segue ao 1º domingo.

    Intróito do 4º domingo da Quaresma, chamado Laetare:

    Lætáre, Ierúsalem: et convéntum fácite, omnes qui dilígitis eam: gaudéte cum lætítia, qui in tristítia fuístis.

    Alegra-te, Jerusalém; reuni-vos, todos vós que a amais; exultai de alegria, vós que estivestes na tristeza.

    Na Missa, nota-se o roxo, a ausência do Glória e do Aleluia, o Trato depois do Gradual (nos domingos e em vários dias de semana) e, nos dias de semana, a oração sobre o povo antes da despedida, introduzida pelo convite Humiliáte cápita vestra Deo. A Missa termina, como no resto do ano, com Ite, missa est. O casamento pode ser celebrado, mas a bênção solene das núpcias fica suspensa até a Páscoa, salvo licença do bispo. No 4º domingo, Laetare, permitem-se paramentos rosa: é a metade do caminho, e a liturgia deixa entrever a alegria pascal.

  6. Tempo da Paixão

    Tempus Passionis · roxo

    As duas últimas semanas antes da Páscoa: o 1º domingo da Paixão e a Semana Santa, que começa no Domingo de Ramos. Cruzes e imagens cobertas, Prefácio da Cruz e, no fim, o Tríduo Sacro, coração do ano.

    Ler mais sobre este tempo

    O Tempo da Paixão começa nas primeiras Vésperas do 1º domingo da Paixão e termina com o início da Missa da Vigília Pascal (n. 74). A Igreja concentra-se no sofrimento de Cristo: cobrem-se com véus as cruzes e as imagens, omitem-se nas Missas do tempo o salmo Iudica me e o Gloria Patri do Intróito e do Lavabo, e o Prefácio é o da Santa Cruz. A segunda semana é a Semana Santa: Domingo de Ramos, três férias de I classe (na terça e na quarta lê-se a Paixão) e o Tríduo Sacro — Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado Santo —, celebrado na forma restaurada por Pio XII em 1955.

    Intróito do 1º domingo da Paixão; o salmo omitido ao pé do altar torna-se o canto de entrada:

    Iúdica me, Deus, et discérne causam meam de gente non sancta: ab hómine iníquo et dolóso éripe me: quia tu es Deus meus, et fortitúdo mea.

    Julga-me, ó Deus, e defende a minha causa contra a gente não santa; livra-me do homem iníquo e enganador, porque tu és o meu Deus e a minha força.

    Para quem participa pela primeira vez, a Semana Santa é o momento mais intenso do ano, e também o de cerimônias mais longas. Convém informar-se dos horários com antecedência: a Missa da Ceia do Senhor é à tarde ou à noite da quinta-feira; a ação litúrgica da Sexta-feira Santa, à tarde, por volta das 15h; a Vigília Pascal, à noite. Na sexta-feira não há Missa, e o altar fica desnudo. A descrição de cada dia está mais acima; as atitudes do corpo nessas cerimônias estão em Gestos, posturas e sinais.

  7. Tempo Pascal

    Tempus paschale · branco

    Os cinquenta dias de alegria entre a Páscoa e Pentecostes, mais a oitava de Pentecostes: a Ressurreição, a Ascensão e a vinda do Espírito Santo. Branco, Aleluia multiplicado e, da vigília de Pentecostes ao sábado seguinte, o vermelho.

    Ler mais sobre este tempo

    O Tempo Pascal começa com a Missa da Vigília e termina na hora Nona do sábado dentro da oitava de Pentecostes (n. 76). A Páscoa e os dias que a seguem formam uma oitava de I classe; o domingo seguinte, in albis, recorda as vestes brancas dos recém-batizados. No quadragésimo dia, numa quinta-feira, celebra-se a Ascensão: depois do Evangelho, apaga-se o círio pascal, aceso desde a Vigília. Dez dias mais tarde, Pentecostes coroa o mistério pascal com a vinda do Espírito Santo; sua vigília e sua oitava, ambas de I classe, usam o vermelho, e na oitava caem as Têmporas de Pentecostes.

    Antífona da aspersão nos domingos do Tempo Pascal, em lugar do Asperges me:

    Vidi aquam egrediéntem de templo, a látere dextro, allelúia: et omnes, ad quos pervénit aqua ista, salvi facti sunt, et dicent: allelúia, allelúia.

    Vi a água que saía do templo, do lado direito, aleluia; e todos aqueles a quem chegou esta água foram salvos e dirão: aleluia, aleluia.

    Na Missa, o Aleluia volta com força: acrescenta-se aos cantos do Próprio e, passada a oitava da Páscoa, ocupa o lugar do Gradual, com dois versículos; durante a oitava, soma-se até ao Ite, missa est. Nos domingos, a aspersão antes da Missa principal faz-se com o Vidi aquam, e o Ofício termina com a Regina caeli. As Rogações caem neste tempo, em 25 de abril e nos três dias antes da Ascensão, com procissões e Missa em roxo; veja Têmporas e Rogações.

  8. Tempo depois de Pentecostes

    Tempus per annum (post Pentecosten) · verde

    O tempo mais longo do ano, da Santíssima Trindade ao Advento: de 23 a 28 domingos verdes em que a Igreja medita a vida cristã e termina contemplando o fim dos tempos e a volta de Cristo.

    Ler mais sobre este tempo

    Começa com a festa da Santíssima Trindade, no 1º domingo depois de Pentecostes, seguida por Corpus Christi, na quinta-feira seguinte, e pelo Sagrado Coração, na sexta-feira depois do 2º domingo depois de Pentecostes, todas de I classe. O verde aparece a partir da segunda-feira depois da Trindade (n. 127). Os domingos, de II classe, seguem uma ordem antiga de Epístolas, sobretudo de São Paulo, e de Evangelhos com parábolas e milagres; o número varia de 23 a 28, e os formulários que faltam vêm dos domingos depois da Epifania que ficaram sem uso. O último domingo, qualquer que seja o seu número, lê sempre o discurso de Cristo sobre o fim dos tempos (Mt 24,15-35).

    Intróito dos últimos domingos depois de Pentecostes:

    Dicit Dóminus: Ego cógito cogitatiónes pacis, et non afflictiónis: invocábitis me, et ego exáudiam vos: et redúcam captivitátem vestram de cunctis locis.

    Diz o Senhor: Eu tenho pensamentos de paz, e não de aflição; vós me invocareis, e eu vos atenderei; e reconduzirei os vossos cativos de todos os lugares.

    Neste longo tempo inserem-se grandes festas: São Pedro e São Paulo (29 de junho), o Preciosíssimo Sangue (1º de julho), a Assunção (15 de agosto), São Miguel (29 de setembro), Cristo Rei (último domingo de outubro), Todos os Santos (1º de novembro) e os Fiéis Defuntos (2 de novembro); em setembro, as Têmporas. Para o recém-chegado, é o tempo “comum” da Missa tradicional: verde, Glória e Credo aos domingos, Prefácio da Santíssima Trindade. Mas os últimos domingos, que falam do juízo e da volta de Cristo, já preparam o Advento, e o ano recomeça.

As cores litúrgicas

Essencial

Ao entrar na igreja, o primeiro sinal do tempo litúrgico é a cor: a da casula do sacerdote, da estola, do véu do cálice e, onde se conserva o costume, do frontal que reveste a parte da frente do altar. A cor não é decoração escolhida ao gosto de cada um; as rubricas a determinam para cada dia. O Código de Rubricas impresso no Missal de 1962 diz que a Igreja Romana costuma usar cinco cores — branco, vermelho, verde, roxo e preto — e admite o rosa em dois domingos do ano. São, portanto, seis cores, cada uma com um sentido que os comentadores da liturgia exploraram desde a Idade Média.

“[…] secundum usum Romanæ Ecclesiæ, quæ quinque coloribus uti consuevit: albo, rubro, viridi, violaceo et nigro.” — “[…] segundo o uso da Igreja Romana, que costuma usar cinco cores: branco, vermelho, verde, roxo e preto.”
Rubricas gerais do Código de Rubricas de 1960, n. 117, no Missal de 1962 (tradução nossa)

A lista nem sempre foi a mesma. Nos primeiros séculos não há sinal de um sistema de cores; ele se forma aos poucos na Idade Média. Antes de ser eleito papa, em 1198, o cardeal Lotário de Segni, futuro Inocêncio III, descreve no tratado De sacro altaris mysterio quatro cores principais — branco, vermelho, preto e verde — e menciona o roxo como de uso ocasional. Entre os séculos XII e XVI o azul e o amarelo ainda eram comuns em várias regiões; desde São Pio V (Missal de 1570), o rito romano tem cinco cores, e as variantes locais foram desaparecendo. A lista abaixo resume o sentido tradicional de cada cor e os dias em que se usa; os paramentos e o altar são explicados em outra página.

  • BrancoPureza, alegria, glória e inocência: a luz de Cristo ressuscitado e a santidade de Nossa Senhora e dos santos que não foram mártires.Tempo do Natal e Tempo Pascal (da Vigília Pascal até a Missa da vigília de Pentecostes, exclusive); festas do Senhor, salvo as da Paixão; festas de Nossa Senhora (inclusive a bênção das velas em 2 de fevereiro), dos Anjos, de Todos os Santos e dos santos não mártires; São João Evangelista (27 de dezembro), a Cátedra de São Pedro, a Conversão de São Paulo e a Natividade de São João Batista; Missas do Crisma e da Ceia do Senhor na Quinta-feira Santa; Missa Pro sponsis.
  • VermelhoO fogo do Espírito Santo e o sangue derramado: o amor que vai até o martírio.Da Missa da vigília de Pentecostes ao sábado seguinte; festas da Paixão e de seus instrumentos (Santa Cruz, Preciosíssimo Sangue); Apóstolos e Evangelistas (exceto São João, em 27 de dezembro), mártires e sagradas relíquias; bênção e procissão dos ramos; Missas votivas do Espírito Santo e da Paixão.
  • VerdeA esperança e a vida que cresce: a Igreja que amadurece no tempo, à espera da colheita final.Domingos e férias de 14 de janeiro até a Septuagésima e da segunda-feira depois da Santíssima Trindade até o Advento, salvo as Têmporas de setembro e as vigílias de II e III classe.
  • RoxoPenitência, súplica e preparação: a espera humilde do Advento e o caminho de conversão da Quaresma.Advento, até a vigília do Natal inclusive; Septuagésima, Quaresma e Paixão, com as exceções da Semana Santa; Têmporas de setembro; vigílias de II e III classe fora do Tempo Pascal; Rogações; bênção das cinzas; Comunhão da Sexta-feira Santa; Missas votivas penitenciais, como as pela paz e pelos enfermos.
  • RosaA alegria contida no meio da penitência: o anúncio de que a festa está próxima.Facultativo, só no 3º domingo do Advento (Gaudete) e no 4º da Quaresma (Laetare), e apenas na Missa e no Ofício do domingo.
  • PretoO luto cristão, sóbrio e cheio de esperança: a oração pelos mortos e a memória da morte do Senhor.Sexta-feira Santa, até a Comunhão; Missas e Ofícios de defuntos, inclusive Finados e exéquias, salvo as Missas de Finados celebradas durante a exposição das Quarenta Horas, que usam o roxo.

A Septuagésima: o pré-Quaresma que o calendário de 1970 já não tem

Aprofundar

Nove semanas antes da Páscoa, quando a Quaresma ainda não começou, a Missa tradicional já muda de cor. O domingo da Septuagésima, seguido pelos da Sexagésima e da Quinquagésima, abre um tempo de transição de dezessete dias, que termina na terça-feira antes das Cinzas. Os paramentos passam a roxo, cala-se o Glória nas Missas do tempo e o Aleluia desaparece até a Vigília Pascal: depois do Gradual, canta-se o Trato, uma série de versículos de salmo sem refrão, de tom grave. Ainda não há jejum nem Missa própria para cada dia; nos dias de semana repete-se a Missa do domingo, só com o Gradual. É um vestíbulo: a Igreja começa a voltar o rosto para a Paixão antes de entrar no deserto quaresmal.

Antífona do Intróito do domingo da Septuagésima (estação em São Lourenço Fora dos Muros):

Circumdedérunt me gémitus mortis, dolóres inférni circumdedérunt me: et in tribulatióne mea invocávi Dóminum, et exaudívit de templo sancto suo vocem meam.

Cercaram-me os gemidos da morte, as dores do inferno me cercaram; e, na minha tribulação, invoquei o Senhor, e ele ouviu do seu santo templo a minha voz.

As três Missas formam um pequeno itinerário. Na Septuagésima, os trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16) e a corrida no estádio (1Cor 9,24–10,5) chamam ao esforço; na Sexagésima, a parábola do semeador (Lc 8,4-15) e os trabalhos do Apóstolo (2Cor 11,19–12,9) falam da Palavra que pede perseverança; na Quinquagésima, o hino à caridade (1Cor 13) e o anúncio da Paixão, com a cura do cego de Jericó (Lc 18,31-43), mostram para onde se caminha. Para cada domingo o Missal indica a estação, isto é, a igreja de Roma em que o papa celebrava: São Lourenço, São Paulo e São Pedro, três basílicas de mártires fora das antigas muralhas.

Origem dos nomes e despedida do Aleluia

Os nomes contam para trás a partir da Quaresma, em latim Quadragesima, “quadragésimo [dia]”. Os números são aproximados: o domingo da Septuagésima não está a setenta dias da Páscoa, nem o da Sexagésima a sessenta, e a Quinquagésima, a sete semanas, só chega a cinquenta se se contar a própria Páscoa. Os estudiosos discutem se os nomes formam apenas uma série por analogia ou se guardam a memória de comunidades que começavam o jejum mais cedo. Esses domingos aparecem em Roma por volta do século VI; o nome Septuagesima já está no Sacramentário Gelasiano, e a tradição associa a organização desse tempo à época de São Gregório Magno (590–604). A data exata e o motivo da criação continuam em discussão.

Na véspera da Septuagésima, o Breviário acrescenta dois aleluias ao Benedicamus Domino e ao Deo gratias das Vésperas do sábado; depois, a palavra cala-se na Missa e no Ofício até a Vigília Pascal, quando o celebrante, terminada a Epístola, entoa o Aleluia três vezes, elevando a voz a cada vez. Algumas igrejas medievais deram a essa despedida ritos próprios, como o “sepultamento” do Aleluia, alheios ao rito romano. O canto do céu é suspenso por um tempo, para que a Igreja aprenda a desejá-lo.

O que mudou em 1969

O calendário promulgado por Paulo VI com o motu proprio Mysterii paschalis (14 de fevereiro de 1969), seguido pelo Missal de 1970, não conservou a Septuagésima: esses domingos passaram ao Tempo Comum, que vai até a terça-feira antes das Cinzas, e o roxo só aparece com a Quaresma. O mesmo calendário trocou as quatro classes por solenidades, festas e memórias, não conservou o Tempo da Paixão como tempo à parte, suprimiu a oitava de Pentecostes (o Tempo Pascal termina no próprio domingo de Pentecostes) e conservou, das antigas oitavas, as do Natal e da Páscoa. Por isso, quem conhece as duas formas do rito romano encontra, no mesmo domingo de fevereiro, cores e textos diferentes. No Missal de 1962, a Septuagésima continua a ser uma das marcas mais visíveis do calendário. As demais diferenças entre os dois Missais estão em Através dos séculos.

Quaresma, Tempo da Paixão e Semana Santa

Aprofundar

A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas, dia de I classe. Antes da Missa abençoam-se as cinzas, com paramentos roxos, e o sacerdote as impõe na cabeça de cada fiel com as palavras dirigidas a Adão no Gênesis. Daí até o Sábado Santo correm quarenta dias de jejum, sem contar os domingos. Ao contrário do resto do ano, cada dia tem Missa própria, com a indicação da igreja romana da estação — a primeira é Santa Sabina, no Aventino. Muitas dessas Missas cotidianas estavam ligadas, na Igreja antiga, à preparação dos catecúmenos para o batismo e à reconciliação dos penitentes.

Na imposição das cinzas, o sacerdote diz a cada um:

S.

Meménto, homo, quia pulvis es, et in púlverem revertéris.

Lembra-te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar.

Nas Missas da Quaresma não se diz o Glória nem o Aleluia; nos domingos e em vários dias de semana canta-se o Trato, e nos outros só o Gradual. O Prefácio é o da Quaresma. Nos dias de semana, depois da pós-comunhão, vem a oração sobre o povo: o diácono — ou, na Missa rezada, o próprio sacerdote — convida Humiliáte cápita vestra Deo, “Inclinai a cabeça diante de Deus”. No 4º domingo, Laetare, o Intróito começa com “Alegra-te, Jerusalém”, e os paramentos podem ser rosa. Desde o Código de 1960 (n. 507) a Missa termina com Ite, missa est também na Quaresma; antes, dizia-se Benedicamus Domino sempre que se omitia o Glória.

O Tempo da Paixão e os véus

Duas semanas antes da Páscoa começa o Tempo da Paixão; o Missal de 1962 chama os dois últimos domingos de 1º e 2º domingo da Paixão, e o segundo é o Domingo de Ramos. Depois da Missa do sábado anterior, cobrem-se com véus as cruzes e as imagens da igreja: as cruzes até a adoração da Cruz na Sexta-feira Santa; as imagens, até o Glória da Vigília Pascal. Uma explicação tradicional liga o costume ao Evangelho do 1º domingo da Paixão, que termina com Jesus a esconder-se (Jo 8,59). Nas Missas do tempo omitem-se o salmo Iudica me ao pé do altar e o Gloria Patri no Intróito e no Lavabo; o Prefácio é o da Santa Cruz. O salmo que se cala ao pé do altar torna-se, curiosamente, o Intróito do 1º domingo da Paixão.

Interior gótico com abóbada pintada de estrelas e altar barroco dourado: o sacerdote, de costas e com casula, está diante do altar com o círio pascal aceso; à direita, cantores de alva seguram livros de canto.
A liturgia da Semana Santa, celebrada segundo o Missal de 1962 na forma restaurada em 1955. Draceane · CC BY-SA 4.0

A Semana Santa na forma de 1955

A Semana Santa do Missal de 1962 é a que Pio XII restaurou. Depois de uma Vigília Pascal noturna experimental, autorizada em 1951, a Sagrada Congregação dos Ritos publicou o decreto Maxima Redemptionis nostrae mysteria (16 de novembro de 1955), em vigor desde o Domingo de Ramos de 1956. O princípio foi devolver cada rito à sua hora: com os séculos, a Missa da Ceia, o ofício da Sexta-feira Santa e a própria Vigília tinham passado para a manhã, e o Exsultet cantava “esta noite” em pleno dia. A reforma também simplificou cerimônias, reduziu as leituras da Vigília e introduziu a renovação das promessas do batismo.

Domingo de RamosDominica II Passionis seu in Palmis
Bênção dos ramos e procissão em vermelho (n. 126), de manhã, na hora da Missa principal; depois, a Missa em roxo, com a Paixão segundo São Mateus. A bênção dos ramos não pode ser feita sem a procissão e a Missa que a seguem (Diretrizes da Sagrada Congregação dos Ritos, 1957).
Segunda, terça e quarta-feira Santas
Férias de I classe; na terça lê-se a Paixão segundo São Marcos, na quarta, segundo São Lucas.
Quinta-feira SantaFeria V in Cena Domini
De manhã, na catedral, a Missa do Crisma. A Missa da Ceia do Senhor é vespertina, em horário conveniente, nem antes das 16h nem depois das 21h (Diretrizes de 1957), em branco: ao Glória tocam os sinos e o órgão, que depois se calam até a Vigília. Após a homilia, onde convier, o lava-pés (Mandatum); no fim, procissão ao altar da reposição, onde a adoração se prolonga ao menos até a meia-noite, e desnudamento dos altares.
Sexta-feira SantaFeria VI in Passione et Morte Domini
Não há Missa. A ação litúrgica é à tarde, por volta das 15h (por razão pastoral, desde o meio-dia até as 21h), diante do altar desnudo: leituras e Paixão segundo São João, orações solenes, adoração da Cruz e Comunhão. Preto até a Comunhão, que se faz em roxo. Desde 1955 os fiéis podem comungar; antes, só o sacerdote comungava.
Vigília PascalVigilia paschalis
À noite, de modo que a Missa comece por volta da meia-noite (ou antes, com licença do bispo, mas nunca antes do pôr do sol): fogo novo, círio pascal, Lumen Christi, Exsultet, quatro leituras (antes eram doze), ladainha, bênção da água batismal, renovação das promessas do batismo e Missa em branco, com o Glória ao som dos sinos. As Laudes encerram a celebração.

Na Sexta-feira Santa, o celebrante descobre a Cruz em três tempos, cantando cada vez num tom mais alto:

S.

Ecce lignum Crucis, in quo salus mundi pepéndit.

Eis o lenho da Cruz, no qual esteve suspensa a salvação do mundo.

C.

Veníte, adorémus.

Vinde, adoremos.

Têmporas e Rogações

Aprofundar

Quatro vezes por ano, a quarta-feira, a sexta-feira e o sábado de uma mesma semana são as Têmporas (Quatuor Tempora, “os quatro tempos”): dias de oração e penitência que santificam as estações, agradecem os frutos da terra e preparam as ordenações, que por tradição se conferiam no sábado das Têmporas. Quem vai à Missa nesses dias encontra liturgias muito antigas e um pouco mais longas, com leituras a mais do Antigo Testamento e um gesto característico: o convite a ajoelhar-se em silêncio antes de certas orações.

As Têmporas no Missal de 1962
TêmporasDiasCorClasse
Do Adventoquarta, sexta e sábado depois do 3º domingo do AdventoroxoII
Da Quaresmaquarta, sexta e sábado depois do 1º domingo da QuaresmaroxoII
De Pentecostesquarta, sexta e sábado da oitava de PentecostesvermelhoI (dias da oitava)
De setembroquarta, sexta e sábado depois do 3º domingo de setembroroxoII

Antes de certas orações das Têmporas. Na Missa solene, o diácono faz o convite; nas outras Missas, o celebrante.

S.

Orémus.

Oremos.

D.

Flectámus génua.

Dobremos os joelhos.

Todos se ajoelham e rezam um momento em silêncio.

D.

Leváte.

Levantai-vos.

Pelo Código de 1960 (n. 440), as duas palavras de ordem, Flectámus génua e Leváte, são ditas pelo diácono na Missa solene e pelo celebrante nas demais; antes das reformas de Pio XII e de João XXIII, o Leváte cabia ao subdiácono. Na quarta-feira lê-se uma leitura a mais, em geral do Antigo Testamento, antes da Epístola, seguida do Flectamus genua e de uma oração própria (n. 467). No sábado, depois do Kyrie, alternam-se orações, quatro leituras do Antigo Testamento e seus cantos; uma quinta leitura, do livro de Daniel, narra os três jovens na fornalha e desemboca no cântico Benedictus es, e só então vem a Epístola. Era nesse quadro que se conferiam as ordens, distribuídas ao longo das leituras; por isso, quando há ordenações, diz-se a Missa do sábado mesmo que ocorra uma festa de I ou II classe (n. 300; o mesmo vale para o sábado Sitientes, véspera do 1º domingo da Paixão). Fora da Missa conventual e da Missa de ordenação, o Código de 1960 permite uma forma mais breve, com a primeira leitura e a Epístola (n. 468).

Uma instituição romana

As Têmporas nasceram em Roma, onde os ritos ligados ao ano agrícola eram antigos; é provável que a Igreja tenha dado sentido cristão a esses ritmos com seus próprios jejuns. São Leão Magno (440–461) pregou sobre eles e os considerava de instituição apostólica; o Liber Pontificalis atribui uma lei a respeito ao papa Calisto (217–222), atribuição de valor duvidoso. Gelásio (492–496) já fala dos quatro tempos e permite ordenar presbíteros e diáconos nos sábados das Têmporas; Gregório VII (1073–1085) fixou as datas para toda a Igreja. O Código de 1960 deslocou as de setembro, antes ligadas à Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), para depois do 3º domingo do mês.

O jejum desses dias já não é obrigatório na disciplina geral da Igreja: desde a constituição Paenitemini de Paulo VI (1966) e o Código de Direito Canônico de 1983 (cân. 1251), só a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa são dias de jejum obrigatório. O calendário de 1969 confiou às Conferências Episcopais a organização das Têmporas e das Rogações (Normas universais sobre o ano litúrgico, nn. 45–47). No Missal de 1962, umas e outras conservam suas Missas próprias.

As Rogações

As Rogações (de rogare, “pedir”) são dias de súplica pública: clero e povo saem em procissão cantando a Ladainha de Todos os Santos, para pedir a bênção de Deus sobre os campos e a proteção contra as calamidades, e celebram depois a Missa das Rogações, em roxo, que começa Exaudívit de templo sancto suo vocem meam. A Ladainha Maior, em 25 de abril, é romana e de origem antiga: costuma-se vê-la como a cristianização das Robigalia, procissões pagãs pelos campos, e São Gregório Magno (†604) ordenou o costume já existente; não tem relação com a festa de São Marcos, fixada no mesmo dia mais tarde. As Ladainhas Menores, na segunda, terça e quarta-feira antes da Ascensão, nasceram na Gália: São Mamerto, bispo de Vienne, instituiu-as por volta de 470; o Concílio de Orléans (511) estendeu-as, e Roma adotou-as sob Leão III (795–816).

O Código de 1960 (nn. 80–90) regula as duas: se 25 de abril cair no domingo ou na segunda-feira de Páscoa, a Ladainha Maior passa para a terça-feira seguinte; os bispos podem deslocar as Menores para outros três dias seguidos, conforme a região; e os versículos da ladainha, antes repetidos duas vezes, já não se duplicam. Onde não se pode fazer procissão, o bispo determina outras súplicas públicas, seguidas da mesma Missa.

Vigílias, oitavas e classes dos dias em 1962

Aprofundar

Em 1960, São João XXIII aprovou, com o motu proprio Rubricarum instructum (25 de julho), um novo Código de Rubricas, em vigor desde 1º de janeiro de 1961 e incorporado ao Missal de 1962. Ele substituiu a antiga graduação das festas por um sistema simples: todo dia litúrgico é de I, II, III ou IV classe (n. 8). A classe decide quase tudo: qual celebração prevalece quando duas coincidem, se a Missa terá Glória e Credo, quantas orações se acrescentam, se se permitem Missas votivas ou de defuntos. Nos dias de I classe a Missa do dia quase sempre se impõe; nos de IV classe, o sacerdote tem ampla liberdade.

As quatro classes de dias litúrgicos (exemplos)
ClasseExemplos
INatal e seu oitavo dia (1º/1), Páscoa e Pentecostes, as duas últimas com todos os dias da oitava; Epifania, Ascensão, Santíssima Trindade, Corpus Christi, Sagrado Coração, Preciosíssimo Sangue, Cristo Rei; Imaculada Conceição, Assunção, São José (19/3), Anunciação, Natividade de São João Batista, São Pedro e São Paulo, Dedicação de São Miguel, Todos os Santos; domingos do Advento, da Quaresma e da Paixão e domingo in albis; Quarta-feira de Cinzas e Semana Santa; Fiéis Defuntos
IIDemais festas do Senhor (Santíssimo Nome, Sagrada Família, Batismo do Senhor, Transfiguração, Exaltação da Santa Cruz); os outros domingos; a maioria das festas de Apóstolos, a Purificação, a Natividade de Nossa Senhora; dias dentro da oitava do Natal; férias de 17 a 23 de dezembro; Têmporas do Advento, da Quaresma e de setembro; vigílias de II classe
IIIA maior parte das festas de santos; férias da Quaresma e da Paixão, que prevalecem sobre as festas de III classe; férias do Advento até 16 de dezembro; vigília de São Lourenço
IVFérias depois da Epifania e depois de Pentecostes; Santa Maria no sábado

Vigílias e oitavas

A vigília é o dia que prepara uma grande festa. O Código conservou poucas (nn. 28–34): de I classe, as do Natal — que toma o lugar do 4º domingo do Advento quando coincide com ele — e de Pentecostes; de II classe, as da Ascensão, da Assunção, da Natividade de São João Batista e de São Pedro e São Paulo; de III classe, só a de São Lourenço. As de II e III classe omitem-se quando caem num domingo ou numa festa de I classe. A Vigília Pascal é um caso à parte: não é propriamente um dia litúrgico, mas uma vigília noturna celebrada a seu modo.

A oitava prolonga uma grande festa por oito dias. Até 1955 havia muitas; o decreto Cum nostra hac aetate, da Sagrada Congregação dos Ritos (23 de março de 1955, em vigor desde 1º de janeiro de 1956), conservou só três, e o Código confirmou-as (nn. 63–70). As oitavas da Páscoa e de Pentecostes são de I classe, e todos os seus dias excluem qualquer outra festa. A do Natal é de II classe e tem arranjo próprio: nela se celebram Santo Estêvão (26), São João Evangelista (27) e os Santos Inocentes (28), fazem-se comemorações de São Tomás Becket (29) e de São Silvestre (31), e o oitavo dia, 1º de janeiro, é de I classe.

Comemorações: quando uma celebração cede sem desaparecer

Quando duas celebrações coincidem, a de grau inferior pode ser transferida, omitida ou comemorada. A comemoração consiste em acrescentar, depois da coleta, da secreta e da pós-comunhão do dia, as orações correspondentes da celebração que cedeu. São privilegiadas as comemorações do domingo, de um dia de I classe, dos dias da oitava do Natal, das Têmporas de setembro, das férias do Advento, da Quaresma e da Paixão, e da Ladainha Maior; as outras são ordinárias (n. 109). O número é limitado (nn. 111 e 434–435): nos dias de I classe, no máximo uma, e privilegiada; nos de II classe, uma; nos de III e IV classe, duas. As orações da Missa, contando a do dia, nunca passam de três.

O Próprio do Tempo e o dos Santos, o Comum, as Missas votivas e de Réquiem

Aprofundar

Quem abre um missal de altar — ou um missal bilíngue dos fiéis — encontra o ano organizado em partes. O Ordinário, as partes fixas da Missa, fica no meio do livro, entre o Sábado Santo e o Domingo de Páscoa (ver o Ordinário latim–português). Antes e depois dele corre o Próprio do Tempo; seguem-se o Próprio dos Santos, que acompanha o calendário civil a partir do fim de novembro, o Comum dos Santos, as Missas votivas, as de defuntos e um apêndice de Missas próprias de certos lugares. Conhecer essa ordem ajuda a seguir a Missa: o Próprio do dia — Intróito, coleta, Epístola, Gradual, Evangelho, Ofertório, secreta, Comunhão, pós-comunhão — muda sempre, e é preciso saber onde procurá-lo. O lugar de cada parte na celebração está em O rito, parte a parte.

Missal Romano de 1904 aberto no Cânon da Missa: à esquerda, a gravura da Crucificação com Nossa Senhora e São João; à direita, o título Canon Missae, o início do Te igitur com a inicial ilustrada e as rubricas impressas em vermelho.
Um missal de altar aberto. O Próprio de cada dia se distribui pelas várias partes do livro. Juliédson Artur Malaquias Reis · CC BY-SA 4.0
Comum dos SantosCommune Sanctorum
Formulários por categoria de santos — Apóstolos, Evangelistas, mártires (um só, pontífice ou não, ou vários), confessores pontífices, doutores, confessores não pontífices, abades, virgens e santas mulheres não virgens —, além da dedicação de igreja e das festas de Nossa Senhora. Cada Missa é conhecida pelo início do Intróito: Statuit (confessor bispo), In virtute tua (um mártir), In medio Ecclesiae (doutores), Os iusti (confessor não bispo), Loquebar (virgem e mártir), Terribilis est locus iste (dedicação), Salve, sancta Parens (Nossa Senhora).
Missas votivasMissae votivae
Celebradas fora da ordem do dia, por devoção ou necessidade: da Santíssima Trindade, do Espírito Santo, de Nossa Senhora, pela paz, pelos enfermos, pelos esposos (Pro sponsis), entre outras. O Missal propõe também um ciclo semanal: segunda, a Trindade; terça, os Anjos; quarta, São José, São Pedro e São Paulo ou os Apóstolos; quinta, o Espírito Santo, o Santíssimo Sacramento ou Cristo Sumo e Eterno Sacerdote; sexta, a Santa Cruz, a Paixão ou o Sagrado Coração; sábado, Nossa Senhora. São indicações de preferência, não obrigação, e valem só nos dias em que uma Missa votiva é permitida.
Missas de defuntosMissae defunctorum
As Missas de Réquiem, assim chamadas pela primeira palavra do Intróito: Requiem aeternam dona eis, Domine, “Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno”.

As Missas votivas

O Código de 1960 classifica cada Missa votiva numa de quatro classes (nn. 306–389), que dizem em que dias ela pode ser celebrada. As de I classe — como a Missa da dedicação no ato de consagrar uma igreja — admitem-se em todos os dias, exceto os oito primeiros da tabela de precedência (n. 328). As de II classe, permitidas nos dias de II, III e IV classe, incluem a Missa das Rogações, as das Quarenta Horas, a Missa por uma causa grave e pública e a Missa Pro sponsis, do casamento. As de III classe são três devoções mensais, onde houver exercícios de piedade próprios: o Sagrado Coração na primeira sexta-feira, Cristo Sumo e Eterno Sacerdote na primeira quinta-feira ou no primeiro sábado, o Imaculado Coração de Maria no primeiro sábado. A de IV classe é qualquer votiva permitida, por justa causa, nos dias de IV classe: sem Credo, e sem Glória, salvo as dos Anjos e a de Nossa Senhora no sábado.

As Missas de Réquiem

A Missa de Réquiem usa o preto e tem fisionomia própria: omitem-se o salmo Iudica me, o Glória, o Credo e o Aleluia; depois do Trato pode cantar-se a sequência Dies irae; no Agnus Dei diz-se dona eis requiem; não há bênção, e a despedida é Requiéscant in pace. Pode seguir-se a absolvição junto ao féretro ou ao catafalco. Há quatro classes: de I, as do dia de Finados e a Missa exequial; de II, as do dia do falecimento, a celebrada ao receber a notícia da morte e a do sepultamento definitivo; de III, as do 3º, do 7º e do 30º dia, do aniversário, das igrejas de cemitério e da oitava de Finados; de IV, a Missa cotidiana. O Dies irae só é obrigatório nas de I classe (n. 399).

Em 2 de novembro, todo sacerdote pode celebrar três Missas, privilégio que Bento XV estendeu à Igreja inteira em 1915, com a constituição Incruentum altaris sacrificium (n. 403); se o dia 2 cair num domingo, os Fiéis Defuntos passam para a segunda-feira (n. 96). Cada uma das três Missas tem formulário próprio no Missal; o sacerdote que celebra uma só usa a primeira, e nas igrejas com coro a Missa conventual é a primeira (nn. 295 e 404). O sentido dessas Missas é desenvolvido em Teologia do rito.

Para a formação: precedência, ocorrência, concorrência e o ordo

Formação

Esta parte destina-se a quem estuda as rubricas: seminaristas, cerimoniários, mestres de coro. Tudo remete às rubricas gerais do Código de 1960 impressas no início do Missal de 1962 (nn. 1–137) e às rubricas gerais do Missal (nn. 269 ss.). O primeiro ponto a fixar é que o Código revogou os antigos critérios: “sublatis quibuslibet aliis titulis vel normis” — “abolidos quaisquer outros títulos ou normas” —, a precedência rege-se unicamente pela tabela do n. 91 (tradução nossa).

A tabela de precedência

Tabela dos dias litúrgicos por ordem de precedência (n. 91), resumida
NºDia litúrgicoClasse
1Natal, domingo da Ressurreição, domingo de PentecostesI
2Tríduo SacroI
3Epifania, Ascensão, Trindade, Corpus Christi, Sagrado Coração, Cristo ReiI
4Imaculada Conceição, AssunçãoI
5Vigília e oitavo dia do NatalI
6Domingos do Advento, da Quaresma e da Paixão; domingo in albisI
7Cinzas; segunda, terça e quarta da Semana SantaI
8Fiéis Defuntos (cede ao domingo)I
9–10Vigília de Pentecostes; dias das oitavas da Páscoa e de PentecostesI
11–13Demais festas de I classe: universais, próprias, indultadasI
14–16Festas do Senhor de II classe; domingos de II classe; outras festas universais de II classeII
17–18Dias na oitava do Natal; férias de 17 a 23/12; Têmporas do Advento, da Quaresma e de setembroII
19–21Festas próprias e indultadas de II classe; vigílias de II classeII
22Férias da Quaresma e da PaixãoIII
23–24Festas de III classe, primeiro as particulares, depois as universaisIII
25–26Férias do Advento até 16/12; vigília de São LourençoIII
27–28Santa Maria no sábado; férias de IV classeIV

Ocorrência: translação, comemoração, omissão

Ocorrência é a coincidência de dois ofícios no mesmo dia (n. 92): acidental, quando um dia móvel e um fixo coincidem só em certos anos; perpétua, quando coincidem todos os anos. Na acidental, só as festas de I classe se transferem, para o primeiro dia seguinte que não seja de I nem de II classe (nn. 95–96); as outras são comemoradas ou omitidas naquele ano. Há duas sedes fixas: a Anunciação, quando precisa ir para depois da Páscoa, passa à segunda-feira depois do domingo in albis — em 2027, 25 de março é Quinta-feira Santa, e ela será celebrada em 5 de abril —; os Fiéis Defuntos, quando caem em domingo, passam à segunda-feira. Na perpétua, as festas de I e II classe, e as particulares de III classe fora do Advento e da Quaresma, são repostas noutro dia, que vale como sede própria (nn. 100–102).

O domingo impedido não se antecipa nem se retoma (n. 14); a festa do Senhor que ocupa um domingo de II classe toma-lhe o lugar sem comemoração dele (n. 16). A exceção são os domingos depois da Epifania impedidos pela Septuagésima: retomam-se entre o 23º e o último domingo depois de Pentecostes, com os cantos do 23º e as orações e leituras próprias (nn. 18 e 298). Em 2027, com a Páscoa em 28 de março, haverá só dois domingos depois da Epifania e 27 depois de Pentecostes: o 24º usará o formulário do 4º depois da Epifania, o 25º o do 5º, o 26º o do 6º, e o 27º o do 24º depois de Pentecostes, que fecha sempre o ano.

Concorrência: as Vésperas

Concorrência é o encontro das Vésperas de um dia com as primeiras Vésperas do seguinte (n. 103). Desde 1960 só têm primeiras Vésperas os domingos e as festas de I classe, além das festas do Senhor de II classe que ocupam um domingo de II classe (nn. 13 e 37). Prevalecem as Vésperas do dia de classe superior; se os dois são da mesma classe, dizem-se as segundas Vésperas do dia corrente com comemoração do seguinte (nn. 104–105). Lembre-se ainda que as comemorações ordinárias se fazem só nas Laudes, na Missa conventual e nas Missas rezadas (n. 108): numa Missa cantada não conventual admite-se apenas uma comemoração privilegiada (nn. 111 e 434).

Calendários particulares

Tudo o que precede supõe o calendário universal. O Código prevê ainda calendários particulares — da diocese, da cidade, de cada igreja, de cada ordem religiosa —, que acrescentam festas próprias (nn. 38–57). O padroeiro principal da nação, da diocese e do lugar, o aniversário da dedicação da catedral e da própria igreja e o titular da igreja são de I classe; o padroeiro secundário é de II classe (nn. 42–45). Por isso o ordo de uma diocese ou de uma comunidade pode diferir do calendário geral: a mesma data traz, aqui, a festa do padroeiro, ali o aniversário da dedicação da igreja. Quem estuda deve sempre perguntar: qual calendário rege esta igreja?

Como ler um ordo

O ordo, ou diretório litúrgico, é o livreto anual que aplica essas regras ao calendário de uma diocese ou instituto. Para cada dia indica a celebração e sua classe, a cor, a Missa, se há Glória e Credo, as comemorações, o Prefácio, o que se permite (Missas votivas ou de defuntos) e as indicações do Ofício. Escreve-se em latim abreviado, com convenções estáveis, embora cada editor tenha seu estilo: Dom., Fer. e Sabb. (domingo, féria, sábado); I cl. a IV cl.; alb., rub., vir., viol., ros., nigr. para as cores; Gl. e Cr.; com. para comemoração; Praef. seguido do nome do Prefácio. O exemplo abaixo foi montado pelas regras do Código para um dia real e não reproduz nenhum ordo publicado.

O Missal de 1962 e o calendário anterior a 1955

Quem estuda missais, breviários ou ordos antigos encontra outro sistema. O Missal da edição típica de 1920, que incorporou a reforma de São Pio X (constituição Divino afflatu, 1911), recebeu festas novas — Cristo Rei (1925), o Imaculado Coração de Maria (1944), a Realeza de Maria (1954), São José Operário (1955) — e foi transformado em etapas: a Semana Santa restaurada (1955), o decreto Cum nostra hac aetate (1955) e o Código de Rubricas (1960). As principais diferenças:

Antes das reformas de 1955–1960 e no Missal de 1962
PontoAntes das reformasNo Missal de 1962
Graduação dos diasduplex de I e de II classe, duplex maior, duplex, semiduplex, simplesI, II, III e IV classe, e comemorações
Oitavasnumerosas (Epifania, Ascensão, Corpus Christi, Sagrado Coração, Imaculada, Assunção, Todos os Santos, entre outras)só Natal, Páscoa e Pentecostes
Vigíliasmuitas, como a da Epifania e as de vários Apóstolossete, além da Vigília Pascal
Semana Santaofícios pela manhã; doze profecias; Missa dos Pré-santificados, com comunhão só do sacerdoteforma de 1955
Oraçõesas comemorações e outras orações podiam somar-se em número maiorno máximo três (n. 435)
1º de janeiroCircuncisão do Senhor e oitava do NatalOitava do Natal
13 de janeirooitava da EpifaniaComemoração do Batismo do Senhor
2 de fevereirobênção e procissão das velas em roxoem branco (n. 120)
Santos Inocentesroxo, sem Glória (vermelho em domingo)vermelho, festa de II classe
Têmporas de setembrodepois da Exaltação da Santa Cruzdepois do 3º domingo de setembro
Festas suprimidas em 1960Cátedra de Pedro em Roma (18/1), Invenção da Santa Cruz (3/5), São João diante da Porta Latina (6/5), Aparição de São Miguel (8/5), São Pedro acorrentado (1/8)não figuram no calendário geral (algumas subsistem em calendários particulares)
Fim da MissaBenedicamus Domino sempre que se omitia o GlóriaIte, missa est, salvo antes de procissão e nas Missas de defuntos (n. 507)
Casulas dobradasusadas pelos ministros nos tempos penitenciaisabolidas (n. 137)

Os acréscimos de 2020

O Missal de 1962 não ficou imóvel. Em 22 de fevereiro de 2020, a Congregação para a Doutrina da Fé, que desde 2019 exercia as competências da extinta Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, emitiu dois decretos aprovados por Francisco, em vigor desde 19 de março de 2020. O decreto Cum sanctissima permite celebrar, por justa causa, nos dias de III classe, a Missa de um santo canonizado depois de 26 de julho de 1960 — São Pio de Pietrelcina, por exemplo —, na data de sua memória no calendário universal e, quando faltar formulário próprio, com textos do Comum; faz-se sempre comemoração ordinária da festa ou vigília omitida, e um anexo lista 70 festas de III classe que não podem ser impedidas nem omitidas por força do decreto. Permite ainda, nos dias de III e IV classe, comemorar à escolha do celebrante um santo ou mistério constante do Próprio de certos lugares ou do novo Suplemento aprovado pela Santa Sé.

O decreto Quo magis aprovou sete Prefácios facultativos: dos Anjos, de São João Batista, dos Mártires e das Núpcias, tomados do Missal de Paulo VI; e de Todos os Santos e Padroeiros, do Santíssimo Sacramento e da Dedicação de igreja, já usados em dioceses da França e da Bélgica. Destinam-se a festas de santos, Missas votivas e ocasiões particulares, sem mudar o Temporal. Esses decretos são anteriores a Traditionis custodes (2021), que reorganizou, nos arts. 1–3 e 7, o uso do Missal de 1962 e a competência da Santa Sé sobre ele, hoje do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos; quem deseja aplicá-los consulte a autoridade competente. A história está em Através dos séculos, e os documentos, na Biblioteca.

Fontes

  1. Missale Romanum, editio typica 1962, com o Código de Rubricas (digitalização)
  2. João XXIII, motu proprio Rubricarum instructum (25 de julho de 1960), texto latino
  3. Sagrada Congregação dos Ritos, decreto Cum nostra hac aetate (23 de março de 1955), tradução inglesa
  4. Codex Rubricarum (1960), texto latino oficial: Acta Apostolicae Sedis 52 (1960), pp. 593–740
  5. Sagrada Congregação dos Ritos, decreto Maxima Redemptionis nostrae mysteria (16 de novembro de 1955) e Diretrizes de 1957, tradução inglesa
  6. Secretaria de Estado, nota sobre a oração pelos judeus na Sexta-feira Santa (4 de fevereiro de 2008)
  7. Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium (1963), n. 102
  8. Paulo VI, constituição apostólica Paenitemini (17 de fevereiro de 1966)
  9. Código de Direito Canônico (1983), cân. 1251
  10. Normas universais sobre o ano litúrgico e o calendário (1969), nn. 45–47
  11. Congregação para a Doutrina da Fé, decreto Cum sanctissima (22 de fevereiro de 2020)
  12. Congregação para a Doutrina da Fé, decreto Quo magis (22 de fevereiro de 2020)
  13. Congregação para a Doutrina da Fé, nota explicativa sobre o decreto Quo magis (2020)
  14. Joseph Braun, “Liturgical Colours” — Catholic Encyclopedia (1908)
  15. “Ember Days” — Catholic Encyclopedia (1909)
  16. Francis Mershman, “Rogation Days” — Catholic Encyclopedia (1912)
  17. Francis Mershman, “Septuagesima” — Catholic Encyclopedia (1912)