Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

De onde veio esta Missa? Das origens ao Missal de 1570

A Missa Tridentina não foi inventada em Trento: nasceu da Última Ceia, tomou forma em Roma ao longo de quinze séculos — o núcleo do Cânon já existia por volta de 390 e estava praticamente fixado por volta de 600 — e foi codificada, não criada, no Missal que São Pio V promulgou em 1570 a pedido do Concílio de Trento.

Profundidade
Pintura do Concílio de Trento em sessão no interior de uma igreja: os padres conciliares sentados em anfiteatro, cardeais de vermelho à esquerda, uma figura de pé ao fundo sob um dossel e os secretários à mesa no centro; na parte inferior, cartela com os nomes dos participantes.
O Concílio de Trento em sessão (1545–1563), pintura conservada no Museo del Palazzo del Buonconsiglio, em Trento. Laurom (fotografia); pintura sem autoria indicada no arquivo · CC BY-SA 3.0

Em resumo

Essencial

Quem assiste pela primeira vez à Missa tradicional costuma perguntar quem a inventou. A resposta honesta é: ninguém em particular. O Missal de 1570 é como uma catedral construída por muitas gerações: o alicerce é a Ceia do Senhor; as paredes mestras foram erguidas pela Igreja de Roma entre os séculos II e VII; capelas e ornamentos foram acrescentados na Idade Média, muitos deles ao norte dos Alpes; e em 1570 a Igreja mediu e registrou o edifício inteiro, para que fosse conservado com fidelidade. “Tridentina” indica uma edição e uma data, não o nascimento do rito — ver Por que “Tridentina”.

Os apóstolos “partem o pão” como o Senhor mandou; por volta de 155, São Justino descreve em Roma uma celebração dominical cuja estrutura ainda se reconhece. No século IV, Roma passa do grego ao latim e reza uma grande oração eucarística, o Cânon, que Santo Ambrósio cita por volta de 390 e São Gregório Magno retoca por volta de 600. Os livros romanos atravessam os Alpes no tempo de Carlos Magno, recebem acréscimos francos e voltam a Roma; a Cúria papal os simplifica e os franciscanos os levam a toda a Europa. A imprensa começa a difundi-los em 1474. Diante da Reforma, Trento reafirma a doutrina do Sacrifício, e São Pio V publica o Missal em 1570.

  1. c. 30

    A Última Ceia

    “Fazei isto em memória de mim.”

  2. c. 54

    1 Coríntios 11

    O relato escrito mais antigo da instituição da Eucaristia.

  3. fim do séc. I (?)

    Didaqué

    Orações de ação de graças e o “sacrifício puro” do domingo; data discutida.

  4. c. 155

    São Justino

    Descreve a Missa dominical em Roma.

  5. séc. III (?)

    “Tradição Apostólica”

    Ordem eclesiástica atribuída a Hipólito; autor e data debatidos.

  6. c. 360–382

    Do grego ao latim

    O Cânon passa a ser rezado em latim em Roma.

  7. c. 390

    Santo Ambrósio, De Sacramentis

    Primeira citação do núcleo do Cânon Romano.

  8. 590–604

    São Gregório Magno

    Pai-Nosso depois do Cânon, Kyrie, diésque nostros.

  9. c. 700

    Ordo Romanus I

    A mais antiga descrição da Missa papal.

  10. c. 750

    Gelasiano Antigo

    Sacramentário romano copiado na Gália, com o Cânon completo.

  11. 784–791

    O Hadrianum

    Adriano I envia a Carlos Magno o sacramentário papal.

  12. 1014

    O Credo em Roma

    Bento VIII o adota a pedido de Henrique II.

  13. c. 1200

    A elevação

    Em Paris, a Hóstia passa a ser mostrada ao povo após a consagração.

  14. 1243

    Haymo de Faversham

    Ordinário franciscano baseado no uso da Cúria.

  15. 1474

    Missal impresso

    Primeira edição conhecida do Missale Romanum, em Milão.

  16. 1523–1552

    Lutero e Cranmer

    Ritos reformados, sem ofertório nem Cânon romanos.

  17. 1545–1563

    Concílio de Trento

    Sessão XXII (1562): o Sacrifício da Missa.

  18. 1568

    Breviário Romano

    Bula Quod a nobis.

  19. 1570

    Missal de São Pio V

    Bula Quo primum, 14 de julho.

A Última Ceia e a Igreja apostólica

Essencial
Pintura da Última Ceia: Cristo, ao centro, eleva a hóstia com a mão direita diante do cálice; os doze apóstolos, de auréola, rodeiam a mesa de toalha branca; em primeiro plano, uma jarra e uma bacia de metal.
A Última Ceia, em que o Senhor instituiu o sacramento do seu Corpo e Sangue. Juan de Juanes, terceiro quartel do século XVI · Domínio público

Tudo começa na noite anterior à Paixão. Mateus, Marcos e Lucas contam a Ceia, mas o relato escrito mais antigo está na Primeira Carta aos Coríntios, que São Paulo escreveu de Éfeso por volta de 54 ou 55. Paulo usa o vocabulário da tradição: ele “recebeu” e “transmitiu” (accepi, tradidi). Não inventa um rito; repassa o que já se fazia nas igrejas. Essa consciência de guardar o que foi recebido atravessa toda esta história e explica por que a liturgia romana mudou devagar, quase sempre por acréscimo.

“Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que era entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: ‘Tomai e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim’.”
1 Coríntios 11,23–24 (Vulgata; tradução nossa)

Os Atos resumem a vida da comunidade de Jerusalém: “Perseveravam na doutrina dos Apóstolos, na comunhão da fração do pão e nas orações” (At 2,42, tradução nossa). “Fração do pão” é um dos nomes mais antigos da Eucaristia: em Emaús reconhecem o Senhor “ao partir o pão” (Lc 24,35), e em Trôade a comunidade se reúne “no primeiro dia da semana” para parti-lo (At 20,7). No início a Eucaristia estava ligada a uma refeição; Paulo já distingue a Ceia do Senhor de um jantar comum (1 Cor 11,20–34), e entre o fim do século I e o século II a celebração se separa da refeição.

Em 1873, Filoteu Briênios encontrou em Constantinopla, num códice de 1056, um manual cristão perdido: a Didaqué, publicada em 1883. A data é discutida — a maioria a situa no fim do século I, alguns antes, outros até meados do II, e muitos a veem composta em camadas. Os capítulos 9 e 10 trazem ações de graças sobre o cálice e o pão; se descrevem a Eucaristia ou uma refeição que a acompanhava é debatido. O capítulo 14 manda, no dia do Senhor, partir o pão e dar graças depois de confessar as faltas, “para que o vosso sacrifício seja puro”.

“Como este pão partido estava disperso sobre os montes e, reunido, se tornou um só, assim seja reunida a tua Igreja desde os confins da terra no teu Reino.”
Didaqué 9,4 (tradução nossa do grego)

São Justino e o domingo dos primeiros cristãos

Essencial

São Justino, filósofo nascido na Samaria, converteu-se, ensinou em Roma e ali foi martirizado por volta de 165. Por volta de 150–155 dirigiu ao imperador Antonino Pio a Primeira Apologia, defesa dos cristãos escrita para leitores pagãos. Nos capítulos 65 a 67 descreve a Eucaristia que se segue ao Batismo, explica que o alimento consagrado não é pão comum, mas a carne e o sangue de Jesus encarnado, e conta o que se faz todo domingo.

Afresco paleocristão de um banquete: convivas reclinados em torno de uma mesa em semicírculo, em tons de laranja e branco, com pratos sobre a mesa.
O afresco chamado Fractio panis, nas catacumbas de Priscila, em Roma (séculos II–III; data e leitura eucarística discutidas). Autor desconhecido (afresco paleocristão); fotografia de André Held / akg-images · Domínio público
“No dia chamado do Sol, todos os que vivem nas cidades ou nos campos se reúnem num mesmo lugar, e leem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo permite. Quando o leitor termina, o presidente faz um discurso em que exorta a imitar estas belas coisas. Depois nos levantamos todos juntos e elevamos preces; terminada a oração, trazem-se pão, vinho e água, e o presidente eleva igualmente preces e ações de graças, quanto pode, e o povo aclama dizendo o Amém.”
São Justino, Primeira Apologia 67 (tradução nossa do grego)

Quem conhece a Missa tradicional reconhece o desenho: leituras, sermão, oração comum, pão e vinho misturado com água, a grande ação de graças de quem preside, o Amém do povo; depois, a comunhão, levada pelos diáconos também aos ausentes. Justino menciona ainda o ósculo da paz e a coleta para os necessitados. Mas o presidente reza “quanto pode”: ainda não há texto fixo, e sim uma oração formulada dentro de padrões conhecidos. O domingo é o dia em que Deus começou a criação e em que Cristo ressuscitou.

O domingo segundo Justino e a Missa de 1570
Justino (c. 155)Missa de 1570
Memórias dos apóstolos e profetasEpístola e Evangelho
Discurso do presidenteSermão
Preces de todosO Oremus isolado antes do ofertório, que muitos estudiosos veem como vestígio dessas preces
Pão, vinho e águaOfertório, com a mistura de água no vinho
Ação de graças e AmémPrefácio, Cânon e seu Amém final

A “Tradição Apostólica” atribuída a Hipólito

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No século XX tornou-se célebre a Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, datada por volta de 215: uma ordem eclesiástica sobre ordenações, Batismo e Eucaristia, com uma oração eucarística modelo que começa Gratias tibi referimus, Deus, per dilectum puerum tuum Iesum Christum. O original grego perdeu-se; o texto sobrevive numa tradução latina do século IV, conservada num manuscrito do século V (o palimpsesto de Verona), e em versões orientais. A atribuição é uma reconstrução moderna: Eduard Schwartz (1910) e Richard H. Connolly (1916) identificaram a chamada “Ordem eclesiástica egípcia” com um título gravado numa estátua achada em Roma em 1551; Gregory Dix e Bernard Botte consolidaram a hipótese. Essa anáfora inspirou livremente a Oração Eucarística II do Missal de Paulo VI.

Hoje quase tudo isso é discutido. A estátua representava, ao que parece, uma figura feminina, restaurada no século XVI como bispo; os manuscritos do texto não trazem título nem autor, e os fragmentos gregos o intitulam “Regulamentos apostólicos” (Diataxeis), não “Tradição”; Marcel Metzger chamou-o de “documento fantasma”. Paul Bradshaw, Maxwell Johnson e Edward Phillips (2002) veem nele materiais de várias regiões e épocas, talvez de meados do século II a meados do IV, e não a prática de uma só comunidade; Alistair Stewart-Sykes defende uma origem romana em camadas, entre o fim do século II e meados do III, no ambiente de uma escola de Roma. O prudente é usá-lo como testemunho da oração antiga, não como prova da forma exata da Missa romana em 215.

Do grego ao latim em Roma

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A primeira Igreja de Roma falava grego: em grego escreveram São Clemente (c. 96), Justino e Hipólito, e gregas são as inscrições cristãs mais antigas das catacumbas. O latim cristão nasceu antes na África, com Tertuliano, por volta de 200. Diz-se com frequência que o papa Vítor I (c. 189–199), africano, introduziu o latim na liturgia, mas a afirmação é frágil: apoia-se numa notícia de São Jerônimo sobre escritos latinos de Vítor, e não em testemunho sobre o culto.

Os indícios seguros são do século IV. Por volta de 360, Mário Vitorino, escrevendo em latim em Roma, ainda cita em grego, segundo Klauser, uma expressão da liturgia da oblação. Entre 374 e 382, aproximadamente, um autor romano anônimo do tempo do papa Dâmaso, chamado Ambrosiastro, objeta que Melquisedec seja dito “sumo sacerdote” na oblação — e summus sacerdos tuus Melchisedech são palavras do Cânon latino. Entre essas datas, a oração eucarística romana passou a ser rezada em latim.

O papel de São Dâmaso (366–384) é debatido: Theodor Klauser atribuiu-lhe a iniciativa; outros veem nele quem concluiu um processo já em curso. Há acordo em que a passagem se completou na segunda metade do século IV. O latim adotado não era a fala da rua, mas um idioma sacral, solene e conciso, como mostrou Christine Mohrmann. Restos do grego chegaram a 1962: o Kyrie eleison e o Hágios o Theós da Sexta-feira Santa. Ver O latim e o canto.

O Cânon Romano

Essencial

O Cânon é a grande oração eucarística do Rito Romano, do Te igitur à doxologia final, com as palavras da consagração. O nome vem do grego kanón, “regra”: é a oração fixa, que não muda com o dia. No Oriente, o equivalente se chama anáfora. Na Missa tradicional o sacerdote o reza em silêncio. É uma das orações eucarísticas mais antigas em uso contínuo: desde São Gregório Magno, por volta de 600, seu texto praticamente não mudou. Texto completo no Ordinário latim–português; sentido em Teologia do rito.

O testemunho mais antigo está nas catequeses de Santo Ambrósio aos recém-batizados de Milão (De Sacramentis, por volta de 390): várias de suas frases já lembram o Cânon que hoje conhecemos. Nos dois séculos seguintes a oração foi lapidada, até tomar, no tempo de São Gregório Magno, a forma que praticamente conservou. Os detalhes estão na seção seguinte.

O Cânon antes de Gregório: Ambrósio e os Padres

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No De Sacramentis, Ambrósio afirma: In omnibus cupio sequi ecclesiam Romanam (“Desejo seguir em tudo a Igreja de Roma”) — frase dita a propósito de outro rito, o lava-pés (III,5); mas a semelhança de sua oração eucarística com o Cânon romano confirma a proximidade. Ele reproduz o pedido de que a oblação seja aceita, o relato da instituição (“Na véspera de sua Paixão…”), a memória da Paixão, Ressurreição e Ascensão, e a súplica com Abel, Abraão e Melquisedec. A autoria ambrosiana, discutida por séculos, é hoje aceita pela maioria.

Uma passagem do Cânon em Santo Ambrósio (c. 390) e no Missal de 1962
De Sacramentis IV (tradução nossa)Missale Romanum (1962)
“Faze para nós esta oblação aprovada, espiritual, aceitável, porque é figura do Corpo e do Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo.”Quam oblatiónem tu, Deus, in ómnibus, quǽsumus, bene✠díctam, adscríp✠tam, ra✠tam, rationábilem, acceptabilémque fácere dignéris: ut nobis Cor✠pus et San✠guis fiat dilectíssimi Fílii tui, Dómini nostri Iesu Christi.

As diferenças também ensinam: em Ambrósio a oferta “é figura” do Corpo e do Sangue; no Cânon pede-se que “se torne” para nós o Corpo e o Sangue. Seguiram-se dois séculos de lapidação. Inocêncio I (416) trata dos nomes recitados durante a ação sagrada; Vigílio (538) fala de prex canonica; o Liber Pontificalis atribui a Leão Magno as palavras sanctum sacrificium, immaculatam hostiam. Por volta de 750 o Gelasiano Antigo traz o Cânon completo. Desde então o texto recebeu só retoques mínimos; a única adição de peso, em tempos modernos, foi o nome de São José, em 1962 (ver Através dos séculos).

Os sacramentários

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Antes do missal, cada ministro tinha seu livro. O sacramentário trazia o que dizia o celebrante: coletas, secretas, pós-comunhões, prefácios e Cânon; as leituras, os cantos e as cerimônias estavam em outros volumes. Os formulários circularam primeiro em cadernos avulsos, os libelli missarum, depois reunidos em livros para o ano inteiro. Muitas coletas do Missal de 1962 aparecem pela primeira vez nesses livros.

Página de um sacramentário carolíngio: um serafim dourado de seis asas ao centro de uma moldura com folhagens turquesa e douradas, ladeado pelas palavras do Sanctus em maiúsculas romanas.
Página de sacramentário medieval, o livro do celebrante. Autor desconhecido (Sacramentário de Drogo, c. 845–855); reprodução digital via Gallica/BnF · CC BY-SA 4.0
Veronense (“Leoniano”)Verona, Biblioteca Capitular, cód. LXXXV (80)
Copiado no início do século VII, reúne libelli romanos dos séculos V e VI, por meses; o começo se perdeu e não há Cânon. Publicado em 1735 sob o nome de Leão Magno, atribuição hoje abandonada, embora alguns formulários possam ser dele.
Gelasiano AntigoVat. Reg. lat. 316
Copiado por volta de 750 na Gália, provavelmente em Chelles; material romano do século VII das igrejas titulares, com elementos galicanos, e o Cânon completo. O nome vem de uma atribuição medieval, sem base comprovada, ao papa Gelásio I.
Gregoriano
O tipo papal, usado nas Missas estacionais; sua primeira redação pode remontar a Honório I (625–638).
Hadrianum
O exemplar gregoriano enviado por Adriano I a Carlos Magno, a pedido deste, entre 784 e 791. Guardado em Aachen como livro autêntico, era incompleto para o uso paroquial.
Suplemento “Hucusque”
Complemento do Hadrianum (início do século IX), antes atribuído a Alcuíno e hoje, desde Jean Deshusses (1965), em geral a São Bento de Aniane. Por ele entraram no uso romano textos gelasianos e galicanos.

São Gregório Magno

Essencial
Pintura flamenga da Missa de São Gregório: o papa celebra diante do altar, assistido por ministros em casulas e dalmáticas douradas, enquanto Cristo, Homem das Dores, aparece sobre o altar com os instrumentos da Paixão ao fundo.
São Gregório Magno, papa de 590 a 604. Adriaen Isenbrandt, c. 1510–1550 · Domínio público

Gregório, de família senatorial romana, foi prefeito da Cidade, fez-se monge e foi eleito papa em 590; em 596 enviou monges a evangelizar a Inglaterra. A tradição deu seu nome ao sacramentário papal e ao canto romano, por isso convém separar o que se sabe do que se atribui. O que ele mudou conhece-se por uma carta sua a João, bispo de Siracusa (c. 598), e pelas notícias do Liber Pontificalis e de São Beda:

  • O Pater noster passa a ser dito logo depois do Cânon (mox post precem). Gregório invoca o costume apostólico de consagrar a oblação “somente com essa mesma oração” (ad ipsam solummodo orationem) — frase de interpretação discutida — e acha impróprio dizer sobre a oferta uma prece composta por um erudito e omitir a que o Redentor ensinou.
  • O Kyrie é dito pelo clero e respondido pelo povo, com o Christe eleison, que os gregos não usavam; nas Missas cotidianas ficam só essas invocações — provavelmente o resto de uma antiga ladainha.
  • No Hanc igitur, três pedidos: a paz em nossos dias, o livramento da condenação eterna e um lugar entre os eleitos (a segunda parte da oração, segundo Beda).

Com as mãos estendidas sobre as oblatas. A segunda parte é atribuída a São Gregório.

S.

Hanc ígitur oblatiónem servitútis nostræ, sed et cunctæ famíliæ tuæ, quǽsumus, Dómine, ut placátus accípias:

Esta oblação da nossa servidão e de toda a tua família, nós te pedimos, Senhor, que, aplacado, a aceites:

S.

diésque nostros in tua pace dispónas, atque ab ætérna damnatióne nos éripi, et in electórum tuórum iúbeas grege numerári. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

dispõe na tua paz os nossos dias e manda que sejamos livrados da condenação eterna e contados no rebanho dos teus eleitos. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Gregório também é ligado à liturgia estacional: em dias marcados, o Papa celebrava numa igreja determinada da cidade, a estação, e muitas de suas homilias indicam a basílica em que foram pregadas. O sistema é anterior a ele, que o consolidou e o deixou associado ao seu nome. O Missal de 1962 ainda traz, sobretudo na Quaresma, a indicação “Estação em…” no alto de muitas Missas.

O “canto gregoriano”: lenda e história

As imagens mostram Gregório escrevendo enquanto a pomba do Espírito Santo lhe fala ao ouvido. A lenda nasceu do ditado de suas homilias sobre Ezequiel; mais tarde, livros de canto como o antifonário de Hartker (São Galo, c. 1000) a aplicaram às melodias, e João Diácono (c. 875) atribuiu-lhe a organização do canto. Os historiadores pensam hoje que o repertório chamado canto gregoriano tomou forma no reino franco, nos séculos VIII e IX, quando Pepino e Carlos Magno adotaram o canto romano e ele foi reelaborado; Roma conservou até o século XIII o seu “canto romano antigo”. A atuação musical de Gregório não está documentada.

Os Ordines Romani e a Missa estacional do Papa

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Os sacramentários dão as palavras; os ordines descrevem as ações. O Ordo Romanus I, a descrição mais antiga da Missa romana, descreve a Missa estacional do Papa, em particular na semana da Páscoa. Foi redigido entre Sérgio I (687–701) e meados do século VIII; costuma-se datá-lo por volta de 700 (edição: Michel Andrieu, Les Ordines Romani du haut moyen âge, 1931–1961). Em linhas gerais:

  1. Procissão do Latrão à igreja da estação; entrada com sete velas e turíbulo, enquanto a schola cantorum canta o Intróito.
  2. Kyrie, Gloria nos dias festivos e oração do dia.
  3. Epístola pelo subdiácono, cantos responsoriais e Evangelho pelo diácono no ambão.
  4. O Papa e o clero recebem do povo o pão e o vinho; segue o Cânon.
  5. Pai-Nosso, paz e fração do pão, com o Agnus Dei que Sérgio I mandou cantar.
  6. Comunhão, oração final e Ite, missa est.

Desse tronco descende a Missa solene do Missal de 1570, com diácono, subdiácono, coro, incenso e velas: os francos copiaram o Ordo Romanus I e o adaptaram, e a liturgia do Papa permaneceu o modelo. A Missa rezada, em que um sacerdote com um acólito diz tudo, é desenvolvimento posterior. Sobre os ministros, ver O altar, os paramentos e os ministros.

A síntese franco-romana

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No século VIII, Pepino III e Carlos Magno quiseram unir o reino franco na oração de Roma. Mas os livros romanos chegaram a terras de tradição galicana, mais rica em gestos e em orações do sacerdote, e o clero franco os completou. O rito romano assim enriquecido voltou a Roma no século X, quando a vida litúrgica da cidade estava enfraquecida e os imperadores otonianos trouxeram seus livros, entre eles o Pontifical Romano-Germânico (Mainz, meados do século X). É esse rito misto que chamamos hoje de Rito Romano.

Muitos elementos familiares nasceram assim: as apologiae, orações em que o sacerdote confessa sua indignidade (a coleção mais antiga está no Sacramentário de Amiens, século IX); as orações do ofertório, como Suscipe, sancte Pater, vindas da devoção particular; a incensação do altar e das oblatas; as orações antes da comunhão; e o salmo 42 com o Confiteor, que o sacerdote dizia ao se aproximar do altar — as futuras orações ao pé do altar.

Ao pé do altar, depois de se benzer:

S.

Introíbo ad altáre Dei.

Subirei ao altar de Deus.

M.

Ad Deum qui lætíficat iuventútem meam.

A Deus, que alegra a minha juventude.

O Credo seguiu caminho semelhante: dito na Missa da Espanha desde 589 e na corte de Carlos Magno desde o fim do século VIII, não fazia parte da Missa romana. O abade Bernão de Reichenau, testemunha presente, conta que o imperador Henrique II, coroado em Roma em 14 de fevereiro de 1014, estranhou sua ausência; responderam-lhe que a Igreja romana, nunca manchada por heresia, não precisava dele. O papa Bento VIII acabou cedendo, e o Credo passou a ser cantado na Missa romana dos domingos e das festas maiores. A maioria dos historiadores aceita essa data, embora a narrativa venha de uma só testemunha.

Do sacramentário ao missal pleno

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Desde os séculos VIII e IX multiplicaram-se as Missas de um só sacerdote: monges ordenados em grande número, Missas por intenções e pelos defuntos. Sem diácono nem coro, o celebrante precisava ter num só volume as orações, as leituras e os cantos. Nasceu o missal pleno (missale plenum), atestado desde o século IX e, no século XIII, praticamente o único livro do altar. A forma rezada passou então a influir na cantada: o celebrante da Missa solene lê em voz baixa o que os ministros e o coro cantam, costume ainda prescrito em 1962.

Afresco de Rafael em uma lunete: o sacerdote celebra a Missa diante do altar, assistido por ministros de alva branca, com o papa Júlio II ajoelhado à direita, entre cardeais e guardas, e o povo à esquerda; sob a cena, uma porta.
Rafael, A Missa de Bolsena (1512, Vaticano): o milagre eucarístico que a tradição situa em 1263. Rafael (Raffaello Sanzio), c. 1512 · Domínio público

A devoção eucarística marcou a Missa nesse período. Por volta de 1200, em Paris, determinou-se que o sacerdote erguesse a Hóstia logo após a consagração, para a adoração do povo; a elevação espalhou-se rapidamente por toda a Europa, e mais tarde estendeu-se ao cálice. Em 1264, Urbano IV estendeu a toda a Igreja a festa de Corpus Christi. Os gestos da consagração estão em Gestos, posturas e sinais.

A liturgia da Cúria Romana e os franciscanos

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Desde a reforma do século XI, os papas quiseram o rito de Roma como norma da Igreja latina. Mas qual? A capela papal criara seus próprios costumes, mais sóbrios e fáceis de levar, porque a corte viajava muito. No tempo de Inocêncio III (1198–1216), autor, ainda cardeal, do tratado De sacro altaris mysterio, esse uso foi fixado em livros próprios. Surgiu o missal “segundo o costume da Cúria Romana” (secundum consuetudinem Romanae Curiae), antepassado direto do Missal de 1570.

Quem o levou ao mundo foram os franciscanos. A Regra de 1223 mandava os clérigos da Ordem rezar o Ofício segundo a ordem da Igreja Romana, e os frades adotaram os livros da Cúria. Haymo de Faversham, ministro-geral de 1240 a 1244, apresentou em 1243 um ordinário da Missa, conhecido pelas primeiras palavras, Indutus planeta (“revestido da casula”). Presentes em toda a Europa, os frades difundiram esse modo de celebrar; os usos locais sobreviveram — Sarum, Lyon, Braga, dominicanos, cartuxos —, mas a estrutura da Missa tornou-se essencialmente a mesma em toda parte.

O Último Evangelho e outros acréscimos tardios

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Depois do Ite, missa est, a Missa de 1570 tem ainda a oração Placeat, a bênção e o Último Evangelho — tudo acréscimo tardio. O início do Evangelho de São João (Jo 1,1–14) foi venerado desde os Padres. Na Idade Média, os sacerdotes passaram a recitá-lo na ação de graças, a caminho da sacristia e depois ainda no altar. O cerimonial de Burchard (1502) o admite, e o Missal de 1570 fez dele, pela primeira vez no Missal Romano, parte da Missa.

No lado do Evangelho, depois do Dóminus vobíscum e do Inítium sancti Evangélii secúndum Ioánnem, o sacerdote traça com o polegar a cruz sobre o altar e sobre a testa, os lábios e o peito, e lê em voz baixa:

S.

In princípio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus.

O mesmo caminho, da devoção privada ao rito comum, foi seguido pelo salmo Iudica me e pelo Confiteor, que se diziam na sacristia ou a caminho do altar; o Missal de 1570 os fixou, com texto único, ao pé do altar. Esses acréscimos não são corrupções, mas a oração de gerações de sacerdotes que a Igreja aos poucos acolheu e tornou de todos.

A imprensa e a diversidade dos usos

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A primeira edição impressa conhecida do Missale Romanum saiu em Milão em 1474, com o missal segundo o costume da Cúria; Robert Lippe a reeditou para a Henry Bradshaw Society (1899–1907), com a colação das edições anteriores a 1570. Seguiram-se muitas outras, sobretudo em Veneza. A imprensa estabilizava os textos, mas não os unificava. Para as cerimônias, tornou-se referência o Ordo de Johannes Burchard, mestre de cerimônias pontifício (1496; 2ª ed., 1502).

No início do século XVI, a Igreja latina celebrava em muitos usos, quase todos romanos na substância; alguns eram ritos distintos, como o ambrosiano de Milão e o moçárabe de Toledo. Havia também excessos que os próprios católicos reconheciam: Missas votivas multiplicadas, sequências e tropos sem conta, legendas pouco seguras nos calendários. Era preciso reformar, mas em que direção? A crise protestante tornou a pergunta urgente.

A crise do século XVI

Essencial

A partir de 1517, Martinho Lutero contestou a doutrina da justificação e, logo, a da Missa: entendê-la como sacrifício oferecido a Deus lhe parecia contradizer a salvação pela fé somente; por isso rejeitou as Missas privadas e as oferecidas por intenções. Na Formula Missae (1523) conservou o latim e boa parte da estrutura, mas suprimiu o ofertório e o Cânon, mantendo só as palavras da instituição; na Deutsche Messe (1526) passou a celebração ao alemão.

Outros reformadores foram mais longe. Em Zurique, Zuínglio substituiu a Missa, em 1525, por uma ceia memorial. Na Inglaterra, Thomas Cranmer publicou em 1549 o Book of Common Prayer, cujo rito se chamava “A Ceia do Senhor e a Santa Comunhão, comumente chamada Missa”; a edição de 1552 eliminou o nome “Missa”. Os pontos atingidos foram sobretudo o ofertório e o Cânon, onde a oração romana fala de oferecer o sacrifício. A resposta católica teria de ser doutrinal e prática: dizer com precisão o que a Igreja crê e dar a todas as igrejas um livro seguro.

O Concílio de Trento

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O Concílio reuniu-se em três períodos: 1545–1547 (Paulo III), 1551–1552 (Júlio III) e 1562–1563 (Pio IV). Tratou da Eucaristia nas sessões XIII (11 de outubro de 1551), sobre a presença real e a transubstanciação, XXI (16 de julho de 1562), sobre a comunhão, e XXII (17 de setembro de 1562), sobre o Sacrifício da Missa, com uma exposição de doutrina, cânones e um decreto sobre o que observar e evitar na celebração.

A sessão XXII ensina que a Missa é verdadeiro e próprio sacrifício, o mesmo da Cruz, porque é uma só a vítima e o mesmo Cristo quem oferece, agora pelo ministério dos sacerdotes e de modo incruento; que o Cânon, composto das palavras do Senhor, das tradições dos apóstolos e das piedosas instituições dos Papas, nada contém de erro (cap. 4 e cânon 6); que são legítimas as Missas em que só o sacerdote comunga; e que não pareceu conveniente celebrá-la em toda parte em língua vulgar, devendo os pastores explicá-la ao povo. O decreto disciplinar manda os bispos afastarem o que a avareza, a irreverência ou a superstição haviam introduzido.

“[…] neste divino sacrifício que se realiza na Missa, está contido e é imolado de modo incruento aquele mesmo Cristo que uma só vez se ofereceu de modo cruento no altar da cruz.”
Concílio de Trento, sessão XXII, doutrina sobre o Sacrifício da Missa, cap. 2 (tradução nossa)

Rever os livros era trabalho demais para uma assembleia. Em 4 de dezembro de 1563, no último dia da sessão XXV, o Concílio entregou ao Romano Pontífice o que suas comissões haviam preparado sobre o Índice, o Catecismo, o Breviário e o Missal, para que fosse concluído e publicado por sua autoridade. Pio IV confirmou os decretos em 26 de janeiro de 1564 e constituiu comissões; a obra seria concluída por seu sucessor.

São Pio V e o Missal de 1570

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Retrato de São Pio V sentado, com barrete, mozeta vermelhos e alva branca, a mão direita erguida em bênção e um livro na esquerda; ao fundo, cortina verde e a tiara papal sobre o espaldar do trono.
São Pio V (Antonio, em religião Michele, Ghislieri), papa de 1566 a 1572. Seguidor de Bartolomeo Passarotti, século XVI · Domínio público

Antonio Ghislieri nasceu em 17 de janeiro de 1504 em Bosco, no Piemonte, de família pobre. Aos catorze anos entrou nos dominicanos com o nome de Michele; foi professor de teologia, inquisidor, bispo e cardeal. Eleito papa em janeiro de 1566, tomou o nome de Pio e conservou a vida austera de frade. Morreu em 1º de maio de 1572 e foi canonizado por Clemente XI em 1712. Executou as decisões de Trento: o Catecismo Romano (1566), o Breviário (1568, bula Quod a nobis) e o Missal (1570).

Missal Romano aberto no Cânon da Missa: à esquerda, gravura da Crucifixão com a Virgem, São João e Maria Madalena ao pé da cruz; à direita, a página do Te igitur com grande inicial ornada, moldura de gravuras e fitas vermelhas marcando as páginas.
Missale Romanum “restituído por decreto do Concílio de Trento”. Paul Hermans (fotografia); impressão de Christophe Plantin, 1572 · Domínio público

A bula Quo primum, de 14 de julho de 1570, explica que o Missal foi confiado a homens doutos, que o cotejaram com os antigos códices da Biblioteca Vaticana, com outros buscados por toda parte e com os autores antigos que trataram dos ritos, restituindo-o “à antiga norma e ao rito dos santos Padres”. A base foi o missal da Cúria, impresso desde 1474. Não se compôs uma Missa nova: depurou-se e fixou-se a que Roma já celebrava. A bula determina:

  • Todas as igrejas latinas de rito romano devem celebrar segundo o novo Missal.
  • Ficam isentas as que tenham uso próprio aprovado pela Sé Apostólica desde sua instituição, ou observado há mais de duzentos anos; podem adotar o novo Missal com o consentimento do bispo e do cabido.
  • Prazos: um mês para a Cúria, três meses aquém dos Alpes, seis além deles.
  • Os sacerdotes não devem acrescentar, tirar ou mudar coisa alguma; os impressores só o publicam conferido com a edição romana.
“[…] cum unum in Ecclesia Dei psallendi modum, unum Missae celebrandae ritum esse maxime deceat.” — “[…] pois é sumamente conveniente que na Igreja de Deus haja um só modo de salmodiar e um só rito de celebrar a Missa.”
São Pio V, bula Quo primum (tradução nossa)

Conservaram-se os ritos distintos, como o ambrosiano e o moçárabe, e, pela cláusula dos duzentos anos, os usos de dominicanos, cartuxos e outros; muitas dioceses, porém, preferiram o Missal Romano. A proibição de mudanças obrigava sacerdotes e igrejas, não os sucessores de Pio V: com a mesma autoridade, Clemente VIII (1604) e Urbano VIII (1634) publicaram edições revistas. A continuação está em Através dos séculos; o rito, parte por parte, em O rito.

Para a formação: o que era novo em 1570

Formação

Para estudar 1570 com rigor, é preciso separar o que o Missal recebeu do que fixou. O grosso do conteúdo — Ordinário, Cânon, Próprio do Tempo — vinha do missal da Cúria do século XIII, corrigido à luz de manuscritos antigos, não recomposto. A novidade está na uniformização de pontos antes variáveis e na sistematização das rubricas, reunidas no próprio livro e publicadas com força de lei.

Recebido e fixado no Missal de 1570
ElementoRecebidoFixado em 1570
CânonSubstância anterior a 600Nenhuma mudança
Orações ao pé do altarPreparação privada, em formas variáveisDitas ao pé do altar, em texto único
OfertórioOrações francas, com variantes locaisUm só conjunto para todos
ConclusãoPlaceat, bênção e São João em formas e ordens variáveisOrdem fixada: Placeat, bênção, Último Evangelho
SequênciasMuitas em usos locais; poucas no missal da CúriaQuatro: Victimae paschali, Veni, Sancte Spiritus, Lauda Sion, Dies irae (o Stabat Mater só entrou em 1727)
TroposKyrie e Gloria ampliados em muitos usosExcluídos
CalendárioSobrecarregado de festasSantos reduzidos; primazia do ciclo do Tempo; votivas limitadas
CerimôniasOrdo de Burchard e costumes locaisRubricae generales, Ritus servandus e De defectibus no próprio Missal

O Ritus servandus, baseado em Burchard, descreve a Missa gesto por gesto: inclinações, genuflexões, posição das mãos, vozes. O De defectibus trata das falhas quanto à matéria, à forma, ao ministro e no próprio desenrolar da celebração, e de como supri-las — leitura obrigatória para o estudo da validade e da licitude. Uwe Michael Lang observa que o Ritus servandus, baseado na segunda edição do Ordo de Burchard, escrito para a Missa rezada, e só depois completado com as instruções da Missa solene, acelerou a tendência de tomar a forma rezada como referência, invertendo a perspectiva antiga.

Questões debatidas

  • Autoria do De Sacramentis: aceita por Connolly, Faller e Botte; Klaus Gamber propôs Nicetas de Remesiana.
  • Tradição Apostólica: compare-se Bradshaw–Johnson–Phillips (2002) com Stewart-Sykes (2001).
  • O papel de Dâmaso na passagem ao latim (tese de Klauser) e o de Gregório no sacramentário e no canto.
  • O Credo em 1014: o relato é de uma só testemunha (Bernão de Reichenau); a maioria o aceita.
  • A cláusula perpétua da Quo primum: a bula proíbe mudanças aos sacerdotes e às igrejas que a recebem; a comum doutrina canônica entende que uma lei papal não obriga o legislador nem os seus sucessores, como mostram as edições de 1604 e 1634.
  • Sequências: Lang fala de supressão; Gregory DiPippo sustenta que o Missal apenas manteve as que a Cúria já usava.

Para estudar

Josef A. Jungmann
Missarum Sollemnia, 2 vols. (Viena, 1948); trad. inglesa The Mass of the Roman Rite (1951–1955). A referência sobre a história de cada parte da Missa.
Adrian Fortescue
The Mass: A Study of the Roman Liturgy (1912); The Ceremonies of the Roman Rite Described (1917), revisto por J. B. O’Connell e Alcuin Reid.
Bernard Botte e Christine Mohrmann
L’Ordinaire de la messe (Paris, 1953): texto crítico, tradução e estudo do Ordinário e do Cânon.
Anton Baumstark
Liturgie comparée (1940; Comparative Liturgy, 1958): o método comparativo.
Mario Righetti
Manuale di storia liturgica, 4 vols. (1945–1953).
Theodor Klauser
Kleine abendländische Liturgiegeschichte (1965; A Short History of the Western Liturgy, 1969).
Fontes e estudos
M. Andrieu, Les Ordines Romani du haut moyen âge; S. J. P. van Dijk e J. Hazelden Walker, The Origins of the Modern Roman Liturgy (1960); U. M. Lang, The Roman Mass (2022).

Fontes

  1. 1 Coríntios 11 e Atos 2,42 — Biblia Sacra Vulgata
  2. Didaqué, texto grego (ed. Ph. Bryennios, 1883)
  3. São Justino, Primeira Apologia 65–67 (trad. inglesa ANF)
  4. Catecismo da Igreja Católica, n. 1345
  5. J. F. Baldovin, “Hippolytus and the Apostolic Tradition: Recent Research and Commentary”, Theological Studies 64 (2003)
  6. Ambrosiastro, Quaestiones Veteris et Novi Testamenti 109 (ed. A. Souter, CSEL 50, 1908)
  7. Santo Ambrósio, De Sacramentis (trad. T. Thompson, ed. J. H. Srawley, 1919)
  8. São Gregório Magno, carta a João de Siracusa, Registrum IX,12 (numeração de Migne; IX,26 em MGH; trad. inglesa NPNF)
  9. São Beda, História eclesiástica do povo inglês, II, 1
  10. Adrian Fortescue, The Mass: A Study of the Roman Liturgy (Londres, 1912)
  11. Adrian Fortescue, “Liturgy of the Mass” — Catholic Encyclopedia (1910)
  12. U. M. Lang, “The Formative Period of Latin Liturgy” (A Short History of the Roman Rite of Mass, parte VI), Adoremus, 2021
  13. U. M. Lang, “Papal Stational Liturgy” (parte VII), Adoremus, 2021
  14. U. M. Lang, “Monastic Life and Imperial Patronage” (parte X), Adoremus, 2021
  15. U. M. Lang, “The Impact of the Franciscans on the Roman Mass” (parte XII), Adoremus, 2022
  16. U. M. Lang, “Trent and its Liturgical Reform” (parte IV), Adoremus, 2025
  17. G. DiPippo, “What Really Happened to Sequences”, New Liturgical Movement (2022)
  18. R. Lippe (ed.), Missale Romanum Mediolani, 1474, Henry Bradshaw Society 17 e 33 (1899–1907)
  19. Concílio de Trento, sessão XXII (trad. inglesa J. Waterworth, 1848)
  20. Concílio de Trento, sessão XXV (trad. inglesa J. Waterworth, 1848)
  21. São Pio V, bula Quo primum (14 de julho de 1570), texto latino impresso no Missale Romanum, editio typica 1962
  22. Missale Romanum, editio typica 1962: Ordo Missae e Canon Missae (Typis Polyglottis Vaticanis, 1962)