Gestos e sinais: por que o padre faz tantos gestos?
Na Missa tridentina quase nada se faz ao acaso: cada genuflexão, inclinação, sinal da cruz e beijo do altar está prescrito pelo Missal e tem uma razão, às vezes prática, quase sempre simbólica. O corpo do sacerdote e dos fiéis reza junto com as palavras: adora, pede perdão, oferece e abençoa.

Uma liturgia que se faz com o corpo
EssencialQuem assiste pela primeira vez a uma Missa rezada costuma estranhar o movimento do sacerdote: ele se inclina, dobra o joelho até o chão, beija o altar, traça cruzes sobre o pão e o vinho, abre e junta as mãos, vira-se para o povo e volta-se de novo para o altar. Nada disso é improviso. Cada gesto está prescrito pelas rubricas do Missal — as instruções impressas em vermelho, rubrum em latim — e se repete, no essencial, do mesmo modo em qualquer igreja onde se celebre segundo o Missal de 1962. Por isso os gestos falam mais da Igreja do que do padre.
A razão de fundo é que rezamos também com o corpo. A liturgia assume essa linguagem natural e a eleva: a genuflexão diz adoração, a inclinação diz humildade, o beijo diz veneração, as mãos estendidas dizem súplica, o sinal da cruz diz bênção e memória da Paixão. Santo Tomás de Aquino ensina que a adoração é sobretudo um ato interior, mas que se exprime por sinais do corpo, os quais, por sua vez, movem a devoção (Suma Teológica, II-II, q. 84, a. 2); e, a quem achava tudo isso excessivo, respondia que os gestos do sacerdote não são “gesticulações ridículas”, mas sinais que representam alguma coisa (III, q. 83, a. 5, ad 5; tradução nossa).
“[…] a piedosa Mãe Igreja […] empregou cerimônias — bênçãos místicas, luzes, incenso, vestes e muitas outras coisas desse gênero —, para realçar a majestade de tão grande sacrifício e para que as mentes dos fiéis, por esses sinais visíveis de religião e piedade, fossem despertadas à contemplação das realidades altíssimas que nele se escondem.”
Ad orientem: o padre de costas?
EssencialA primeira estranheza costuma ser esta: durante quase toda a Missa o sacerdote fica de costas para os fiéis. A expressão engana. Ele não está de costas para o povo, mas à frente do povo, voltado com ele na mesma direção, como quem conduz uma procissão. Chama-se a isso celebrar ad orientem, “para o oriente”: sacerdote e fiéis olham juntos para o altar, para a cruz e, simbolicamente, para o Senhor que vem. Quando o padre fala com Deus, olha para onde todos olham; quando fala com o povo, vira-se para ele.

Uma direção muito antiga
Os primeiros cristãos rezavam voltados para o nascente: Tertuliano conta que os pagãos chegavam a suspeitar que eles adorassem o sol (Apologético, 16), e as Constituições Apostólicas, do século IV, mandam rezar para o oriente lembrando Cristo, que subiu ao céu pelo oriente (II, 57). Nem toda igreja, porém, aponta para o leste: as grandes basílicas romanas de São Pedro e do Latrão têm a abside a ocidente e a entrada a oriente. Uma explicação frequente é que o celebrante, para olhar o oriente, ficava ali voltado também para a nave, versus populum; os historiadores, porém, só conjecturam as razões dessa disposição. O Ritus servandus, a parte do Missal que descreve os gestos da Missa, prevê esse caso. O que conta é a direção comum da oração.
O sacerdote só se volta para o povo quando se dirige a ele: para saudá-lo com o Dominus vobiscum, pedir orações no Oráte, fratres, mostrar a hóstia no Ecce Agnus Dei, despedi-lo com o Ite, missa est e abençoá-lo. Antes de saudar, beija o altar; vira-se com os olhos baixos, sempre pelo lado da Epístola, e volta pelo mesmo caminho, exceto no Oráte, fratres e na bênção final, quando completa o círculo. Tudo o mais é oração dirigida a Deus, e ele a diz voltado para o altar. O sentido teológico dessa direção é tratado em Teologia do rito.
As genuflexões
EssencialGenuflectir é “dobrar o joelho” (genu flectere): com o corpo ereto, toca-se o chão com o joelho direito e levanta-se logo. É o gesto da adoração, devido sobretudo a Cristo presente no Santíssimo Sacramento: faz-se diante do tabernáculo em que o Santíssimo está guardado, e o sacerdote o faz ao chegar ao altar e ao deixá-lo se o Santíssimo está naquele altar (se não está, inclina-se profundamente diante da cruz). Por isso o fiel também genuflete ao entrar na igreja e ao passar diante do tabernáculo. Certas palavras também pedem genuflexão, porque falam do abaixamento de Deus: no Credo, Et incarnátus est… et homo factus est; no Último Evangelho, Et Verbum caro factum est; e as que o Missal marca com Hic genuflectitur, “aqui se genuflecte”, como a adoração dos Magos no Evangelho da Epifania ou a morte de Jesus na leitura da Paixão.
A partir da Consagração, as genuflexões se multiplicam. Ditas as palavras sobre a hóstia, o sacerdote genuflecte e adora; ergue-se e faz a Elevação, erguendo a hóstia com os olhos fixos nela para que o povo a veja e adore; depõe-na e genuflecte outra vez. Faz o mesmo com o cálice. Daí até a Comunhão, genuflecte sempre que descobre ou cobre o cálice e, estando o Sacramento descoberto, cada vez que chega ao meio do altar ou se afasta dele. O Senhor está ali, e o corpo do sacerdote o reconhece a cada movimento.

Essa sequência é mais recente do que parece. A elevação logo depois das palavras da Consagração surge em Paris por volta de 1200: Eudes de Sully, bispo de 1196 a 1208, parece ter sido o primeiro a mandar, depois das palavras da Consagração, erguer a hóstia de modo que todos a vejam. Por muito tempo o sacerdote apenas se inclinava antes e depois de elevar; as genuflexões se difundem no fim da Idade Média, recebem, segundo a Catholic Encyclopedia (que cita Herbert Thurston), reconhecimento formal e semioficial em 1502 e só passam a ser ordenadas pelo Missal de 1570. Veja a Consagração da hóstia.
As inclinações
EssencialInclinar-se é o gesto da humildade e da reverência, um degrau abaixo da genuflexão. As rubricas falam em inclinação “profunda” (profunde inclinatus), em estar simplesmente “inclinado” (inclinatus, às vezes aliquantulum, “um pouco”) e em inclinar só a cabeça (caput inclinat). Os manuais clássicos (Fortescue, por exemplo) resumem tudo em três graus, fáceis de reconhecer ao longo da Missa. Inclina-se sempre com as mãos juntas diante do peito, a menos que estejam ocupadas, e, ao Orémus e ao nome de Deus (no Glória, no Credo, no Prefácio), voltado para a cruz do altar:
| Grau | Como se faz | Alguns momentos |
|---|---|---|
| Profunda | Curvam-se a cabeça e o corpo, quase até os joelhos. | No Confiteor; no Munda cor meum; no início do Cânon; no Súpplices te rogámus. |
| Média | Inclinam-se a cabeça e, levemente, os ombros. | No Orámus te; no Súscipe, sancta Trínitas; no Sanctus; no Agnus Dei e nas orações antes da Comunhão. |
| De cabeça | Inclina-se só a cabeça. | No Orémus e no Glória Patri; aos nomes de Jesus, de Maria, do santo do dia e do Papa; em frases do Glória e do Credo. |
A rubrica dos nomes diz muito sobre a piedade do rito: sempre que se pronuncia o nome de Jesus ou de Maria, o do santo ou beato de quem se celebra a Missa ou se faz comemoração, ou o do Sumo Pontífice, o sacerdote inclina a cabeça (Ritus servandus, V, 2); ao nome de Jesus, volta-se para a cruz. No Te igitur, quando reza “com o teu servo, o nosso Papa N.”, diz o nome do Papa reinante, e a inclinação honra aquele que preside a Igreja inteira (ela se faz então em direção ao missal, e não à cruz, segundo Fortescue); se a Sé está vacante, essas palavras se omitem (Ritus servandus, VIII, 2). Os fiéis costumam acompanhar essas inclinações, sobretudo ao nome de Jesus.
O sinal da cruz e as bênçãos
EssencialO sinal da cruz é o gesto mais frequente da Missa. Sobre si mesmo, o sacerdote o traça com a mão direita aberta, da testa ao peito e do ombro esquerdo ao direito: no início, na absolvição depois do Confiteor, no Intróito, no fim do Glória e do Credo. Antes do Evangelho faz com o polegar uma cruz sobre o início do texto no livro e, em seguida, três pequenas cruzes sobre si — na testa, nos lábios e no peito —, e os fiéis o imitam. Para abençoar, estende a mão com os dedos juntos, o mínimo voltado para quem é abençoado; no fim da Missa abençoa o povo uma vez; o bispo, e o abade com uso de pontificais, três (Ritus servandus, XII, 1 e 8). No Ofertório, traça cruzes com a patena e com o cálice e, no Veni, sanctificátor, sobre a hóstia e o cálice juntos.
As cruzes do Cânon
No Cânon as cruzes são tantas que chamam a atenção até de quem não sabe latim. Contadas no texto do Missal de 1962, do Te igitur ao Per ipsum, são 26: 25 feitas sobre as oblatas ou com a própria hóstia, e uma que o sacerdote traça sobre si mesmo, no Súpplices. Cada cruz acompanha uma palavra precisa da oração, que o Missal assinala no próprio texto com o sinal ✠; a tabela segue a ordem do Cânon.
| Oração | Palavras | Cruzes |
|---|---|---|
| Te igitur | hæc dona, hæc múnera, hæc sancta sacrifícia | 3 sobre a hóstia e o cálice |
| Quam oblatiónem | benedíctam, adscríptam, ratam · Corpus · Sanguis | 3 sobre ambos, 1 sobre a hóstia, 1 sobre o cálice |
| Qui prídie · Símili modo | benedíxit (duas vezes) | 1 sobre a hóstia, 1 sobre o cálice |
| Unde et mémores | Hóstiam puram, Hóstiam sanctam, Hóstiam immaculátam · Panem sanctum · Cálicem salútis | 3 sobre ambos, 1 sobre a hóstia, 1 sobre o cálice |
| Súpplices | Corpus · Sánguinem · omni benedictióne cælésti | 1 sobre a hóstia, 1 sobre o cálice, 1 sobre si mesmo |
| Per quem hæc ómnia | sanctíficas, vivíficas, benedícis | 3 sobre ambos |
| Per ipsum | Per ipsum, et cum ipso, et in ipso · Deo Patri · Spíritus Sancti | 5 com a hóstia: 3 sobre o cálice, 2 entre o cálice e o peito |
Antes da Consagração, as cruzes acompanham pedidos de bênção: “que aceites e abençoes estes dons”. Depois dela, a pergunta se impõe: como abençoar o próprio Cristo? Santo Tomás respondeu que, depois da Consagração, o sacerdote não usa o sinal da cruz “para abençoar e consagrar, mas só para recordar a virtude da cruz e o modo da paixão de Cristo” (Suma Teológica, III, q. 83, a. 5, ad 4; tradução nossa). Outras explicações estão na seção de formação, e o texto do Cânon começa em Te igitur.
Beijar o altar
EssencialO primeiro gesto do sacerdote, ao subir ao altar, é beijá-lo. O altar representa o próprio Cristo — o Pontifical Romano o diz na ordenação do subdiácono — e é também um túmulo de mártires: na pedra consagrada, a ara, encerram-se relíquias de santos, como as almas que São João viu “debaixo do altar” (Ap 6,9). A oração desse momento une as duas coisas:
Inclinado, com as mãos juntas sobre o altar, o sacerdote reza em segredo:
Orámus te, Dómine, per mérita Sanctórum tuórum,
Nós te rogamos, Senhor, pelos méritos dos teus Santos,
Beija o altar ao meio, com as mãos estendidas sobre ele:
quorum relíquiæ hic sunt, et ómnium Sanctórum: ut indulgére dignéris ómnia peccáta mea. Amen.
cujas relíquias aqui estão, e de todos os Santos, que te dignes perdoar todos os meus pecados. Amém.
Na Missa rezada, o sacerdote beija o altar nove vezes: ao subir, no Orámus te (veja as orações ao pé do altar); antes de cada Dóminus vobíscum dito voltado para o povo, que são quatro (antes da Coleta, do Ofertório, da Pós-comunhão e do Ite, missa est); antes do Oráte, fratres; no Te igitur; no Súpplices, às palavras “por esta participação no altar”; e antes da bênção final. Se dá a paz, beija-o ainda mais uma vez (Ritus servandus, X, 3). Antes de saudar o povo, diz a explicação tradicional, ele recebe de Cristo a paz que vai dar. O número cresceu com o tempo: o mais antigo Ordo Romanus, de por volta de 700, conhece só dois beijos, à chegada e no Ofertório; Inocêncio III (†1216) registra três; no tempo de Durando, no fim do século XIII, já eram nove.
As mãos
EssencialQuando não estão ocupadas, as mãos do sacerdote ficam juntas diante do peito, palma contra palma, o polegar direito cruzado sobre o esquerdo em forma de cruz (Ritus servandus, III, 1): é o gesto do recolhimento, que alguns historiadores ligam ao rito medieval da homenagem feudal. Bem mais antiga é a postura das mãos abertas e erguidas, das figuras de orantes das catacumbas; Tertuliano explicava que os cristãos estendem as mãos imitando a Paixão do Senhor (Sobre a oração, 14). Assim o sacerdote reza as orações, o Prefácio, o Cânon e o Pater noster, sem ultrapassar a altura dos ombros. No Hanc igitur, estende-as sobre a hóstia e o cálice, gesto que muitos ligam à imposição das mãos sobre a vítima no Antigo Testamento (Lv 1,4) e que só aparece nas rubricas no século XV.
O polegar e o indicador unidos
Depois de consagrar a hóstia, o sacerdote mantém unidos o polegar e o indicador de cada mão, e só os separa para tocar o Sacramento, até a ablução dos dedos depois da Comunhão (Ritus servandus, VIII, 5). A razão é concreta e reverente: são os dedos que tocaram o Corpo de Cristo, e nenhum fragmento que tenha ficado neles pode cair ou se perder, como já explicava Santo Tomás (III, q. 83, a. 5, ad 5). Pela mesma razão, explicam os comentadores, no lavabo do Ofertório a rubrica manda lavar justamente as pontas desses dedos; e, no fim, ele os purifica sobre o cálice com vinho e água e consome essa ablução.
Também os olhos e o peito têm rubricas. O sacerdote mantém os olhos baixos ao voltar-se para o povo e os fixa na hóstia durante a elevação; no relato da Ceia diz elevátis óculis in cælum, “erguidos os olhos ao céu”, e os ergue, embora os relatos evangélicos da Ceia não mencionem esse gesto. E bate no peito dez vezes, como o publicano (Lc 18,13): três no Confiteor, uma no Nobis quoque peccatóribus, três no Agnus Dei e três no Dómine, non sum dignus.
As três vozes do sacerdote
EssencialQuem acompanha uma Missa rezada percebe que o sacerdote ora fala de modo audível, ora apenas move os lábios. As rubricas de 1962 distinguem basicamente duas vozes, a clara e a secreta, e o Ritus servandus conserva para pouquíssimas palavras uma terceira, intermediária; os manuais falam em voz alta, média e secreta. O Concílio de Trento chama submissa voce, “voz baixa”, à voz do Cânon; no Ritus servandus, a mesma expressão designa também a voz baixa com que o celebrante e os ministros da Missa solene rezam o Glória e o Credo enquanto o coro os canta (IV, 7). As regras estão no Código de Rubricas de 1960:
- Voz claraclara voce
- Audível por todos, sem pressa e sem gritar (nn. 511–512). Em geral é a voz do que, numa Missa cantada, seria cantado: Intróito, Kyrie, Glória, orações, leituras, Credo, Prefácio, Sanctus, Pater noster, Agnus Dei, bênção.
- Voz um pouco elevadavoce aliquantulum elata
- Uma elevação breve, como um sinal, em três momentos: Oráte, fratres, Nobis quoque peccatóribus e o Dómine, non sum dignus antes da comunhão do sacerdote (Ritus servandus, VII, 7; IX, 3; X, 4). O n. 511 do Código de 1960 inclui essas mesmas palavras entre as ditas em voz clara; na prática, a diferença é sutil.
- Voz secretasecreto
- O sacerdote pronuncia as palavras de modo que ele mesmo se ouça, mas não seja ouvido pelos que estão ao redor (n. 512). Não é oração só mental. Assim se dizem as orações do Ofertório, a Secreta e quase todo o Cânon.
O silêncio do Cânon
Depois do Sanctus, a igreja mergulha num silêncio que impressiona quem o experimenta pela primeira vez. Do Te igitur à doxologia, o sacerdote reza em segredo, quebra o silêncio só com três palavras, Nobis quoque peccatóribus, e retoma a voz no Per ómnia sǽcula sæculórum que precede o Pater noster. Os fiéis, de joelhos, não ouvem as palavras, mas veem os gestos, ouvem a campainha e adoram na elevação. O mais antigo Ordo Romanus já descrevia o momento assim: terminado o Sanctus, o pontífice “levanta-se sozinho e entra no Cânon”.
“Se alguém disser que o rito da Igreja Romana, pelo qual parte do Cânon e as palavras da consagração se pronunciam em voz baixa, deve ser condenado […], seja anátema.”
Os sinos e a campainha
EssencialA pequena campainha que o acólito toca é um aviso para quem não ouve as palavras nem acompanha o latim: ela marca os momentos centrais. A rubrica manda prepará-la na credência, junto com as galhetas e a patena da Comunhão (n. 528). O Missal de 1962 a prevê em quatro momentos; o costume acrescentou outros, que variam de lugar para lugar, como o Dómine, non sum dignus do sacerdote.
| Momento | Rubrica | O que anuncia |
|---|---|---|
| Sanctus | Toca-se enquanto o sacerdote diz o Sanctus (Ritus servandus, VII, 8). | Anuncia que o Cânon vai começar. |
| Pouco antes da Consagração | Um toque de aviso (VIII, 6); em muitos lugares, no Hanc igitur. | Avisa que a Consagração se aproxima. |
| Cada elevação | Três toques em cada elevação, ou um toque contínuo até que o sacerdote deponha no corporal primeiro a hóstia e, depois, o cálice (VIII, 6). | Convida a olhar e adorar. |
| Antes da comunhão dos fiéis | Um toque para avisar os que vão comungar (X, 6). | Avisa que a Comunhão vai ser distribuída. |
A campainha nasceu da devoção de ver a elevação, que se difunde a partir de 1200: tocava-se para chamar os fiéis a ver e adorar a hóstia, e muitas igrejas medievais tocavam também o sino grande, para que os que estavam nos campos soubessem o momento da Consagração (Ivo de Chartres, †1115, já fala de um sino nesse momento, aparentemente o grande da igreja). Durando, no fim do século XIII, menciona uma sineta na elevação, e o sínodo de Exeter (1287) mandava que toda igreja tivesse uma. Fortescue não achou autor medieval que mencione o sino no Sanctus, que hoje o Ritus servandus manda tocar. Há também um silêncio de sinos: na Quinta-feira Santa, eles e o órgão soam no Glória e depois se calam até o Glória da Vigília Pascal; em muitos lugares, a matraca de madeira faz as vezes da campainha.
O incenso
Essencial
O incenso é resina aromática queimada sobre brasas no turíbulo; os grãos ficam na naveta. Seu sentido é dito pelo Salmo 140 (141), que o sacerdote reza ao incensar o altar, e pelo Apocalipse, que mostra um anjo com um turíbulo de ouro junto ao altar do céu e a fumaça subindo com as orações dos santos (Ap 8,3-4). Incensar é também honrar: incensam-se o altar, a cruz, o livro dos Evangelhos, as oferendas, o sacerdote, os ministros e o povo. Santo Tomás acrescenta que o incenso representa o efeito da graça (Suma Teológica, III, q. 83, a. 5, ad 2).
Não se usa na Missa rezada. É próprio da Missa solene e, segundo o n. 426 do Código de Rubricas de 1960, as incensações da Missa solene podem fazer-se também em qualquer Missa cantada. Aparece em quatro momentos: no início, sobre a cruz e o altar (incensação inicial); no Evangelho, sobre o livro; no Ofertório, sobre as oblatas, a cruz e o altar, e depois sobre o celebrante, o coro e o povo (incensação das oblatas); e na elevação, quando o turiferário, de joelhos, incensa três vezes a hóstia e três vezes o cálice.
No Ofertório, ao incensar as oblatas, três vezes em forma de cruz e três vezes em círculo:
Incénsum istud a te benedíctum ascéndat ad te, Dómine: et descéndat super nos misericórdia tua. Amen.
Este incenso, por ti abençoado, suba a ti, Senhor, e desça sobre nós a tua misericórdia. Amém.
Ao incensar a cruz e o altar (Sl 140,2):
Dirigátur, Dómine, orátio mea, sicut incénsum, in conspéctu tuo: elevátio mánuum meárum sacrifícium vespertínum.
Seja a minha oração dirigida a ti, Senhor, como o incenso em tua presença; a elevação das minhas mãos, como o sacrifício da tarde.
O uso cresceu com o tempo. Na Roma antiga o incenso era levado em procissão, como se fazia diante dos cônsules: o mais antigo Ordo Romanus mostra um subdiácono com o turíbulo à frente do Papa. A incensação das oferendas, de origem galicana, custou a entrar no rito romano: ainda no século XI o Micrólogo notava que a ordem romana não a previa, embora quase todos já a fizessem. Sua forma atual, com as orações, já está no Ordo Romanus XIV, do século XIV. A leitura simbólica e a histórica de vários gestos são comparadas na seção de formação.
As posturas dos fiéis
AprofundarO Missal regula com minúcia o sacerdote, os ministros e o clero no coro, mas quase nada diz sobre os fiéis na nave; as posturas do povo seguem o costume, que varia de lugar para lugar, e nas Missas cantadas é comum imitar o coro. Cada postura tem sua lógica: de pé para o Evangelho e o Credo, em sinal de prontidão — a postura mais antiga da oração cristã, que o Concílio de Niceia (325) mandou guardar aos domingos e no tempo pascal —; sentados para ouvir; de joelhos para adorar e pedir perdão (ajoelhar-se na Consagração tornou-se costume no Ocidente junto com a elevação). As tabelas dos momentos estão em Como participar, e as normas do Missal para o coro (nn. 520–524), em sua seção de formação. Por costume, e não por rubrica, os fiéis também fazem o sinal da cruz no início da Missa, nas três cruzes do Evangelho, ao fim do Glória e do Credo e na bênção final, e batem no peito no Confiteor, no Agnus Dei e no Dómine, non sum dignus.
Os gestos do diácono e do subdiácono na Missa solene
AprofundarNa Missa solene, o celebrante é assistido por um diácono e um subdiácono, com o mestre de cerimônias, o turiferário e os acólitos, e muitos gestos da Missa rezada só se entendem aqui. Nas orações, no Prefácio e no Pater noster, os três ministros sagrados ficam “em linha”, um atrás do outro: o celebrante no alto, o diácono no degrau abaixo, o subdiácono no chão. No Glória, no Credo e no Sanctus, sobem para rezar ao lado do celebrante. Tudo o que entregam ou recebem dele vai acompanhado dos “ósculos de costume” (solita oscula): beija-se o objeto e a mão do celebrante.
- O diácono apresenta a naveta; antes do Evangelho reza de joelhos o Munda cor meum, pede a bênção e canta o Evangelho entre dois acólitos com velas; no Ofertório deita o vinho e, tocando o pé do cálice, reza com o celebrante o Offérimus tibi, Dómine; na Consagração, ajoelhado à sua direita, ergue a borda da casula; canta o Ite, missa est.
- O subdiácono canta a Epístola e recebe a bênção beijando a mão do celebrante; segura o livro no Evangelho; no Ofertório traz o cálice da credência, pede Benedícite, pater reverénde e deita algumas gotas de água no vinho; do Ofertório ao fim do Pater noster, ao pé do altar, segura a patena à altura dos olhos, envolta no véu umeral.
Por que o subdiácono segura a patena? É um costume de origem histórica, não uma exigência do Cânon. Segundo a Catholic Encyclopedia, o véu umeral já aparece, com o nome de sindon, no mais antigo Ordo Romanus; por volta do século XI a patena passa a ser levada pelo subdiácono em vez de um acólito, então coberta por um pano (palla), e só no fim da Idade Média se firma o costume atual de segurá-la sob o véu umeral. A patena volta ao altar no fim do Pater noster, pouco antes da fração. Na Missa de Réquiem o subdiácono não a segura.
O ósculo da paz na Missa solene
AprofundarDepois do Agnus Dei, o celebrante reza em segredo a oração que pede a paz para a Igreja (“Senhor Jesus Cristo, que disseste aos teus Apóstolos: Deixo-vos a paz…”). Então beija o altar, e o diácono o beija também, fora do corporal; segue-se o ósculo da paz, um abraço estilizado: o celebrante põe as mãos sobre os ombros do diácono, que passa os braços por baixo dos dele, e cada um inclina a cabeça sobre o ombro esquerdo do outro, aproximando as faces esquerdas (sinistris genis sibi invicem appropinquantibus, diz o Ritus servandus, X, 8), sem beijo. Veja as orações antes da Comunhão.
Pax tecum.
A paz esteja contigo.
℟.Et cum spíritu tuo.
E com o teu espírito.
O diácono dá a paz ao subdiácono, que a leva ao clero no coro, ao primeiro de cada ordem, e depois aos acólitos: a paz desce do altar numa cadeia ordenada. Não se dá na Missa de Réquiem. O gesto é antiquíssimo: São Paulo pede “o ósculo santo” (Rm 16,16), e São Justino, por volta de 155, conta que os cristãos se saudavam com um beijo antes da apresentação dos dons (I Apologia, 65). Roma o pôs junto à Comunhão: em 416, Inocêncio I escrevia que a paz se dá depois dos mistérios, como sinal de que o povo consente em tudo o que neles se realizou. Mais tarde passou-se a usar, em muitos lugares, uma pequena placa que se beija, o instrumentum pacis, que o Ritus servandus (X, 3) ainda prevê para a Missa rezada, quando houver quem receba a paz.
Para a formação: as fontes dos gestos e as suas leituras
FormaçãoO Ritus servandus, fonte normativa
Os gestos desta página vêm do próprio Missal. O Missale Romanum de 1962 traz, antes do Ordinário, as Rubricae generales, que reproduzem as partes do Código de Rubricas de 1960 relativas à Missa (vozes, nn. 511–514; posturas, nn. 517–524), o Ritus servandus in celebratione Missae e o tratado De defectibus. O Ritus servandus descreve passo a passo a Missa rezada e acrescenta em parágrafos próprios o que muda na solene e na cantada. Seu modelo é o Ordo servandus per sacerdotem in celebratione missae de João Burcardo, mestre de cerimônias pontifício, publicado em Roma por incumbência de Alexandre VI e reeditado em 1502, cuja substância passou em grande parte ao Missal de 1570.
Daí uma lição para o estudante: a norma descreve a Missa rezada, mas a Missa rezada é um resumo da solene. Fortescue dizia que nela o diácono e o subdiácono continuam presentes como sombras ao redor do altar: por isso o missal passa ao lado do Evangelho, onde o diácono o cantaria, o Iube, Dómine, benedícere é a bênção do diácono e o celebrante se volta sempre pela direita, para não dar as costas ao diácono. As rubricas são leis litúrgicas, interpretadas pelos decretos da Sagrada Congregação dos Ritos e pelos manuais clássicos (Gavanto e Merati, Martinucci, De Herdt, Le Vavasseur, Fortescue e O’Connell). A regra de ouro é ler o gesto no Missal, conferi-lo num manual e só então buscar sua explicação.
Duas maneiras de ler um gesto
A primeira é a alegórica. Amalário de Metz (c. 775 – c. 850), no Liber officialis, leu cada parte da Missa como representação da vida e da Paixão de Cristo; criticado por Agobardo e Floro de Lyon, teve teses condenadas no sínodo de Quierzy (838), mas o seu método prevaleceu, em Inocêncio III, Sicardo de Cremona e sobretudo Guilherme Durando, bispo de Mende (c. 1230–1296), cujo Rationale divinorum officiorum, de por volta de 1286, foi impresso em Mogúncia já em 1459. Até Santo Tomás via nas cinco vezes em que, no seu tempo, o sacerdote se voltava para o povo as cinco aparições do Ressuscitado (III, q. 83, a. 5, ad 6).
A segunda leitura é a histórica: de Bona e Martène, entre os séculos XVII e XVIII, a Fortescue e Jungmann, no XX, os estudiosos buscaram saber quando cada gesto entrou no rito e que função cumpria; muitas vezes a resposta é prática, outras vezes simplesmente desconhecida. As duas leituras não se excluem, mas não devem ser confundidas: a alegoria diz o que a Igreja viu num gesto; a história, por que ele está ali.
| Gesto | Leitura simbólica | Origem histórica |
|---|---|---|
| Cruzes depois da Consagração | Recordam a cruz e a Paixão: Santo Tomás associa grupos de cruzes a momentos da Paixão (a entrega, a venda, as cinco chagas…); para outros medievais, simbolizam a Trindade. | Discutida: Fortescue via nelas verdadeiras bênçãos, porque o Cânon é uma só oração; outros, gestos de indicar os dons que se tornaram cruzes. |
| Silêncio do Cânon | Reverência ao mistério e à oração sacerdotal (Durando, Rationale, IV, 35). | Discutida: uma lei de Justiniano (565) já reagia à oração dita em segredo; Bona datava o costume romano do século X; Fortescue o achava mais antigo, já presente no Ordo Romanus II, e pensava em razões práticas (o celebrante prosseguia enquanto o coro cantava). |
| Mãos no Hanc igitur | Imposição das mãos sobre a vítima (Lv 1,4); para Fortescue, um modo de quase tocar as oblatas no momento em que são nomeadas, ou uma invocação silenciosa. | Rubrica do século XV; no tempo de Durando fazia-se ali uma inclinação profunda, que dominicanos e carmelitas conservam (Fortescue). |
O Caeremoniale Episcoporum
Para a Missa pontifical, o próprio Ritus servandus remete ao Pontifical e ao Caeremoniale Episcoporum (II, 6). Publicado por Clemente VIII com a carta Cum novissime (14 de julho de 1600), revisto sob Inocêncio X (1650), Bento XIII (1727) e Bento XIV (1741 e 1752), com edição típica em 1886, ele regula as funções do bispo e dos ministros, o ofício do mestre de cerimônias e as reverências, e completa as lacunas das rubricas do Missal. O Cerimonial dos Bispos de 1984 pertence à liturgia reformada.
Os gestos que se calam: a Missa de Réquiem
Uma boa prova de que os gestos têm sentido é ver quais desaparecem. Na Missa de defuntos, o Ritus servandus (XIII) suprime os sinais de alegria e de bênção sobre os presentes: no Intróito o sacerdote não se benze, mas traça a cruz sobre o livro, “como quem abençoa alguém”, gesto que a tradição entende como bênção aos defuntos; não se abençoa a água do Ofertório; não se bate no peito no Agnus Dei; não se dão a paz nem a bênção final; os ministros omitem os ósculos de costume; o altar não é incensado no início, nem o livro dos Evangelhos, e no Ofertório só o celebrante recebe incenso (as oblatas e o altar continuam incensados); o subdiácono, em vez de segurar a patena, incensa o Sacramento na elevação (Ritus servandus, XIII, 2).
Fontes
- Missale Romanum, editio typica 1962: Rubricae generales (Código de Rubricas de 1960, em especial nn. 426, 511–524 e 528) e Ritus servandus in celebratione Missae
- Concílio de Trento, sessão XXII (1562), Doutrina e cânones sobre o Sacrifício da Missa (texto inglês, EWTN)
- Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 83, a. 5 (Corpus Thomisticum)
- Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 84, a. 2: a adoração e os sinais do corpo (New Advent)
- Constituições Apostólicas, livro II, cap. 57 (New Advent)
- Adrian Fortescue, The Mass: a study of the Roman liturgy (1912)
- Adrian Fortescue, The Ceremonies of the Roman Rite Described (ed. 1920)
- J. B. O’Connell, The Celebration of Mass: a study of the rubrics of the Roman Missal (1ª ed. 1940–1942; 4ª ed., adaptada às rubricas de 1960, c. 1963–1964)
- Catholic Encyclopedia (1909): “The Elevation”, H. Thurston
- Catholic Encyclopedia (1909): “Genuflexion”, F. T. Bergh
- Catholic Encyclopedia (1910): “Kiss”, H. Thurston
- Catholic Encyclopedia (1910): “Humeral Veil”, J. Braun
- Catholic Encyclopedia (1911): “Orientation of Churches”, M. Hassett
- Catholic Encyclopedia (1912): “Rubrics”, F. Cabrol
- Catholic Encyclopedia (1908): “Caeremoniale Episcoporum”, A. J. Schulte