Por que “Tridentina”? O nome e os muitos nomes
“Tridentina” quer dizer “de Trento”: é a Missa celebrada segundo o Missal que São Pio V publicou em 1570 a pedido do Concílio de Trento, embora o rito seja muito mais antigo que o Concílio. Os outros nomes — de São Pio V, Forma Extraordinária, usus antiquior, Vetus Ordo — designam, com nuances, a mesma liturgia, cada um sublinhando um aspecto dela.

“Tridentina” vem de Trento
EssencialTrento é uma cidade do norte da Itália, ao pé dos Alpes, cujo nome latino é Tridentum; o adjetivo correspondente é tridentinus. No século XVI pertencia ao Sacro Império e ficava a meio caminho entre o mundo germânico e Roma, por isso foi escolhida para o concílio ecumênico que a Igreja reuniu diante da Reforma protestante. O Concílio de Trento abriu-se em 13 de dezembro de 1545 e encerrou-se em 4 de dezembro de 1563, em três períodos interrompidos por epidemias e guerras, sob os papas Paulo III, Júlio III e Pio IV. Chamar a Missa de “tridentina” é dizer, simplesmente, “a Missa ligada ao Concílio de Trento”.

O Concílio tratou da Missa em dois planos. Na sessão XXII (17 de setembro de 1562), ensinou a doutrina sobre o Sacrifício da Missa e aprovou um decreto sobre o que observar e evitar na celebração. Mas não redigiu um Missal: na sessão final, em dezembro de 1563, os padres entregaram ao Papa a tarefa de rever e publicar o Catecismo, o Breviário e o Missal. São Pio V, eleito em 1566, cumpriu o encargo: o Catecismo Romano saiu em 1566, o Breviário em 1568 e o Missal em 1570, promulgado pela bula Quo primum de 14 de julho de 1570.
- 1545
Abertura do Concílio
Em 13 de dezembro, sob Paulo III.
- 1562
Sessão XXII
Doutrina sobre o Sacrifício da Missa e decreto sobre a dignidade da celebração (17 de setembro).
- 1563
Encerramento
A sessão XXV (3–4 de dezembro) confia ao Papa o Missal, o Breviário e o Catecismo.
- 1568
Breviário Romano
Publicado por São Pio V, eleito Papa em janeiro de 1566.
- 1570
Missale Romanum
Promulgado pela bula Quo primum (14 de julho), que manda adotá-lo em toda a Igreja latina, salvo os usos com mais de duzentos anos.
Um livro de 1570 com um conteúdo muito mais antigo
Por isso o Missal leva o nome de Trento, embora quase nada nele tenha nascido em Trento. A comissão nomeada pelo Papa não compôs uma liturgia nova: partiu do Missal da Cúria Romana, que circulava impresso desde 1474, comparou-o com antigos manuscritos da Biblioteca Vaticana e com os autores que haviam comentado os ritos, e devolveu-o à forma tradicional. O coração do livro, o Cânon Romano, já tinha substancialmente a forma atual por volta do ano 600, e muitas orações se encontram nos antigos sacramentários romanos. “Tridentino” marca uma edição e uma data jurídica, não o nascimento do rito. A longa formação que leva até 1570 está em A história, das origens a São Pio V.
“[…] ad pristinam Missale ipsum sanctorum Patrum normam ac ritum restituerunt.” — “[…] restituíram o próprio Missal à antiga norma e ao rito dos santos Padres.”
A palavra “Missa”
EssencialA palavra que usamos todos os dias guarda uma surpresa: ela vem do fim da celebração. Terminada a Missa, o diácono — ou o próprio sacerdote, na Missa rezada — volta-se para o povo e diz Ite, missa est. Em latim tardio, missa é um substantivo formado sobre o verbo mittere (“enviar, deixar ir”) e equivale a missio ou dimissio, “despedida”, assim como collecta significa “reunião”. Ao pé da letra, a frase diz algo como “Ide, é a despedida”. Uma palavra que nomeava o momento de sair acabou dando nome a toda a ação sagrada: o nome da parte final passou ao todo.
No fim da Missa, voltado para o povo (na Missa solene, canta-o o diácono):
℣.Ite, missa est.
Ide, é a despedida.
℟.Deo grátias.
Graças a Deus.
Os primeiros testemunhos
O uso é muito antigo. Santo Ambrósio, bispo de Milão, conta numa carta à irmã Marcelina (a Carta 20; escrita em 385 ou 386, a data é discutida) que, num domingo, depois das leituras e do sermão e “despedidos os catecúmenos” (dimissis catechumenis), ensinava o Símbolo a candidatos ao Batismo quando soube que soldados do imperador cercavam uma basílica. Sem interromper o seu ofício, relata ele, “comecei a celebrar a Missa”: missam facere coepi. É o testemunho seguro mais antigo, e Ambrósio usa a palavra como termo já conhecido, aqui para a celebração que se segue à despedida dos catecúmenos. Pela mesma época, a peregrina Egéria, ao descrever a liturgia de Jerusalém (c. 381–384), encerra os ofícios com fórmulas como et fit missa ou missa fit, “e faz-se a despedida”. No século VI, a Regra de São Bento ainda chama missae as despedidas no fim das Horas do ofício divino.
A Igreja não se contentou com a etimologia: viu nela uma vocação. O Catecismo explica o nome “Santa Missa” pelo envio que encerra a celebração, e Bento XVI retomou a ideia em 2007: “Na antiguidade, o termo «missa» significava simplesmente «despedida»; mas, no uso cristão, o mesmo foi ganhando um sentido cada vez mais profundo […]” (Sacramentum caritatis, 51). Na leitura do Papa, a despedida tornou-se envio em missão. Quem sai da Missa não é apenas dispensado; é enviado. O sentido teológico do rito está desenvolvido em Teologia do rito.
“Santa Missa, porque a liturgia em que se realiza o mistério da salvação termina com o envio dos fiéis («missio»), para que vão cumprir a vontade de Deus na sua vida quotidiana.”
Guia dos nomes
EssencialQuem começa a frequentar a Missa tradicional ouve muitos nomes para a mesma coisa, e é natural ficar confuso. Quase todos estão certos em algum sentido: cada um põe em relevo um aspecto — o Concílio, o Papa que publicou o Missal, a antiguidade, a língua, o ano da edição em uso. Alguns vêm de documentos oficiais, outros são apelidos do dia a dia, outros são simplesmente imprecisos. O guia abaixo indica de onde vem cada nome, quem o usa e que valor tem. Neste site usamos sobretudo “Missa Tridentina”, o nome mais conhecido no Brasil, e “Missal de 1962” quando é preciso indicar a edição exata.
Nomes ligados à história
- Missa Tridentina
- De Trento, o Concílio que pediu a revisão do Missal. É o nome mais difundido em português, entre fiéis, sacerdotes e imprensa, mas não é título de nenhum documento. Antes de 1969 quase não havia necessidade de nome especial; o adjetivo já existia, mas generalizou-se depois de 1969, quando foi preciso distinguir o Missal anterior do novo. Usual e legítimo, desde que se lembre que o rito é anterior a Trento.
- Missa de São Pio V
- Do Papa que promulgou o Missal em 1570. Muito usado, inclusive em documentos pontifícios, que falam do “Missal Romano promulgado por São Pio V”. Preciso quanto à origem jurídica, impreciso quanto ao conteúdo: veja mais abaixo.
- Missa Gregoriana
- Alusão a São Gregório Magno (papa de 590 a 604), a quem a tradição atribui retoques no Cânon e a colocação do Pater noster logo depois dele. Usado por poucos autores. Impreciso, e fácil de confundir com as “Missas gregorianas”: as trinta Missas seguidas por um defunto, prática ligada a um episódio dos Diálogos do mesmo santo.
- Missa de 1962Missale Romanum 1962
- Do ano da edição típica em uso, publicada sob São João XXIII e declarada “típica” por decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 23 de junho de 1962. É como os documentos a identificam desde o indulto Quattuor abhinc annos (3 de outubro de 1984), que remete à edição típica de 1962, e a ela remete também o motu proprio Ecclesia Dei (2 de julho de 1988). O nome mais exato para a edição celebrada hoje.
Nomes dos documentos
- Forma Extraordinária do Rito Romanoforma extraordinaria
- Consagrado pelo motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI (7 de julho de 2007), que chamou o Missal de Paulo VI de “expressão ordinária” e o de 1962 de “expressão extraordinária” da mesma lex orandi, “dois usos do único rito romano” (art. 1); a “forma extraordinária” aparece na carta aos bispos que o acompanha e na instrução Universae Ecclesiae. Oficial de 2007 a 2021. Traditionis custodes (16 de julho de 2021) declara os livros de Paulo VI e João Paulo II “a única expressão da lex orandi do Rito Romano” (art. 1, tradução nossa) e já não emprega essa terminologia.
- Usus antiquiorusus antiquior
- “Uso mais antigo”. Aparece na instrução Universae Ecclesiae (30 de abril de 2011), que fala da “Liturgia Romana no uso mais antigo” (in Antiquiori Usu). Técnico e sóbrio, preferido em textos acadêmicos; tem a vantagem de não sugerir dois ritos diferentes. Summorum Pontificum diz o mesmo em vernáculo: “forma mais antiga do Rito Romano” (art. 10).
- Missal anterior à reforma de 1970Missale antecedens instaurationem anni 1970
- A fórmula de Traditionis custodes (art. 3), que também diz Missale Romanum anno 1962 editum, o Missal Romano editado em 1962 (art. 2). O título português do documento no site da Santa Sé fala do uso da “Liturgia Romana anterior à Reforma de 1970”. A linguagem dos documentos atuais, descritiva e neutra.
Nomes do dia a dia
- Vetus Ordo e Novus Ordo
- Abreviações latinas: Ordo Missae é o Ordinário da Missa. O novo Ordo Missae foi promulgado por Paulo VI em 3 de abril de 1969 e entrou em uso em 30 de novembro de 1969; daí “Novus Ordo”, e por simetria “Vetus Ordo” para o anterior. Informais. Em textos cuidadosos, prefere-se “Missal de 1970” ou “Missa de Paulo VI”.
- Missa Tradicional (TLM)
- Em inglês, Traditional Latin Mass, sigla muito difundida na internet; em português, “Missa Tradicional” ou “Missa Tradicional em Latim”. Usual, com a ressalva sobre o latim feita logo abaixo.
- Rito romano antigo, clássico ou tradicional
- Expressões descritivas usadas por estudiosos e comunidades. Corretas, desde que se entenda “rito” no sentido largo: segundo Summorum Pontificum, trata-se de dois usos de um só Rito Romano.
- “Missa de sempre”
- Expressão devocional. Diz uma verdade de fé: o Sacrifício é o mesmo em todas as épocas — e Paulo VI pôde dizer da Missa reformada que “é e permanece […] a de sempre” (audiência de 19 de novembro de 1969, tradução nossa). Como nome de uma edição, porém, é impreciso: o rito tem uma história, contada em Através dos séculos.
- “Missa em latim”
- Impreciso. O Missal de 1970 também tem edição típica latina e pode ser celebrado em latim; o Concílio Vaticano II determinou que “deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos” (Sacrosanctum Concilium, 36 §1). E a Missa tridentina não é toda latina: o Kyrie é grego, e Amen, Alleluia, Sabaoth e Hosanna são hebraicos. Ver O latim e o canto.
Nomes das formas de celebrar
Além do nome da Missa, há os nomes de suas formas, e as rubricas de 1962 os definem (Código de Rubricas, n. 271). Se o sacerdote não canta as partes que lhe cabem, a Missa é lecta: a Missa rezada, chamada popularmente “Missa baixa”. Se as canta e há diácono e subdiácono, é a Missa solene (Missa solemnis); se as canta sem ministros sagrados, a Missa cantada (Missa cantata). A Missa solene celebrada por um bispo, ou por quem tenha a faculdade, com as solenidades previstas nos livros litúrgicos, chama-se pontifical. O mesmo Código pede que se evite a expressão “Missa privada” (n. 269), porque toda Missa é ato de culto público, oferecido em nome de Cristo e da Igreja.
O nome que está no próprio livro
O nome mais autorizado é o que o Missal traz na folha de rosto. Na edição de 1962 lê-se: Missale Romanum ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum Summorum Pontificum cura recognitum. Cada palavra tem peso:
- MissaleMissale
- “Missal”, o livro da Missa: reúne tudo o que o celebrante diz e faz.
- RomanumRomanum
- “Romano”: segundo o uso da Igreja de Roma, distinto de outros ritos latinos (como o ambrosiano de Milão e o moçárabe de Toledo) e dos ritos orientais.
- ex decretoex decreto
- “Por decreto”: em cumprimento da determinação da sessão final do Concílio.
- Sacrosancti Concilii TridentiniSS. Concilii Tridentini
- “Do sacrossanto Concílio de Trento”. Sacrosanctus é o epíteto tradicional dos concílios ecumênicos; os decretos de Trento abrem-se com Sacrosancta… Tridentina Synodus.
- restitutumrestitutum
- A palavra-chave: “restituído”. Não “criado” nem “inventado”, mas devolvido à forma antiga. O Missal de 1970 dirá instauratum, “renovado”, por decreto do Vaticano II.
- Summorum Pontificum cura recognitumSummorum Pontificum cura recognitum
- “Revisto pelo cuidado dos Sumos Pontífices”: a fórmula de 1962, que resume quatro séculos de revisões sem nomear nenhum papa.
Missa dos Catecúmenos e Missa dos Fiéis
AprofundarMuitos missais de fiéis dividem a celebração em “Missa dos Catecúmenos”, das orações ao pé do altar até o Credo, e “Missa dos Fiéis”, do Ofertório ao fim. Os nomes vêm da Igreja antiga. O catecúmeno — o adulto que se preparava para o Batismo — podia ouvir as leituras e o sermão, mas era despedido antes da oração dos fiéis e do Sacrifício, reservados aos batizados. Santo Agostinho diz aos ouvintes: “eis que, depois do sermão, faz-se a despedida dos catecúmenos; os fiéis permanecerão” (Sermão 49, 8, tradução nossa). Havia duas despedidas, missa catechumenorum e missa fidelium, e cada nome passou a designar a parte que terminava com ela.
A expressão aparece em concílios hispânicos do século VI — o de Lérida permite a certos penitentes ficar na igreja “até a missa dos catecúmenos” — e Santo Isidoro de Sevilha (século VII) ainda explica a palavra pela saída deles: “Missa tempore sacrificii est, quando catechumeni foris mittuntur” (Etimologias, VI, 19, 4). Quando o catecumenato de adultos se tornou raro, a despedida desapareceu do rito, mas os nomes sobreviveram nos comentadores. O Missal de 1962 não os usa como títulos; o Vaticano II e o Missal de 1970 falam em “liturgia da Palavra” e “liturgia eucarística”, que “formam um só acto de culto” (Sacrosanctum Concilium, 56).
| Nome tradicional | Vai de… até… | Nome correspondente no Missal de 1970 |
|---|---|---|
| Missa dos Catecúmenos | Orações ao pé do altar → Credo | Ritos iniciais e liturgia da Palavra |
| Missa dos Fiéis | Ofertório → Último Evangelho | Liturgia eucarística e ritos finais |
“De São Pio V”: preciso e impreciso ao mesmo tempo
Aprofundar
O nome é preciso no sentido jurídico. O Missal de 1570 é a raiz de todas as edições seguintes, e a bula Quo primum foi impressa no início de cada uma, inclusive na de 1962. Os documentos recentes o identificam pela origem: “o Missal Romano promulgado por São Pio V e reeditado pelo Beato João XXIII” (Summorum Pontificum, art. 1). Ao acolher os sacerdotes de Campos (RJ), João Paulo II confirmou-lhes a faculdade de celebrar “conforme o Rito Romano e a disciplina litúrgica codificados pelo nosso predecessor São Pio V, com as adaptações introduzidas pelos seus sucessores até o Beato João XXIII” (carta de 25 de dezembro de 2001). E Paulo VI, ao anunciar o novo rito, falou da forma celebrada “há quatro séculos, isto é, desde São Pio V” (19 de novembro de 1969, tradução nossa).
Mas o nome é impreciso em dois sentidos. Primeiro, São Pio V não compôs a Missa: mandou publicar, revisto, o uso romano que recebera. Segundo, o Missal de hoje não é idêntico ao de 1570. Clemente VIII (1604) e Urbano VIII (1634) reviram textos e rubricas; Leão XIII mandou publicar nova edição típica (1884); São Pio X reformou calendário e rubricas (1911–1913), mudanças recolhidas na edição típica de 1920; Pio XII restaurou a Semana Santa (1955); João XXIII promulgou um novo Código de Rubricas (1960) e, por decreto posterior à edição de 1962, inseriu São José no Cânon, a partir de 8 de dezembro de 1962. O Ordinário quase não mudou; calendário, rubricas e Semana Santa mudaram bastante. A folha de rosto registra essa história:
- 1570
Pii V Pont. Max. iussu editum
“Publicado por ordem de Pio V, Pontífice Máximo.”
- 1604
et Clementis VIII auctoritate recognitum
“E revisto pela autoridade de Clemente VIII.”
- 1634
et Clementis VIII primum, nunc denuo Urbani Papae VIII auctoritate recognitum
“E revisto primeiro pela autoridade de Clemente VIII, agora de novo pela do papa Urbano VIII.”
- 1920
a Pio X reformatum et Benedicti XV auctoritate vulgatum
“Reformado por Pio X e publicado pela autoridade de Bento XV”, depois de “revisto pelo cuidado de outros Pontífices”.
- 1962
Summorum Pontificum cura recognitum
“Revisto pelo cuidado dos Sumos Pontífices”: nenhum papa é nomeado, nem mesmo Pio V.
- 1970
ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum
O novo Missal cita outro concílio e outro verbo: “renovado por decreto do Vaticano II”, “promulgado pela autoridade de Paulo VI”.
A bula Quo primum também explica por que o nome “de São Pio V” não significa que todas as igrejas latinas tenham passado a celebrar do mesmo modo. Ela impõe o novo Missal, sem que se lhe possa acrescentar, tirar ou mudar coisa alguma (nihil unquam addendum, detrahendum, aut immutandum), mas poupa as igrejas cujo uso próprio fosse aprovado desde a origem pela Sé Apostólica ou observado havia mais de duzentos anos (super ducentos annos). Por isso sobreviveram, por exemplo, o rito ambrosiano de Milão e os usos de algumas ordens religiosas, como a dominicana. A bula declara-se válida “perpetuamente” (perpetuo valitura); a história das revisões acima mostra, porém, que os próprios papas seguintes continuaram a rever o livro.
Nomes das partes e dos livros
FormaçãoPara o estudo, convém dominar o vocabulário com que os próprios livros se organizam. A edição típica de 1962 abre com o decreto da Congregação dos Ritos, os documentos de Pio V (Quo primum), Clemente VIII (Cum sanctissimum) e Urbano VIII (Si quid est), o motu proprio Rubricarum instructum de João XXIII (25 de julho de 1960) e o Código de Rubricas de 1960; seguem o calendário, o Ritus servandus, o De defectibus e as orações de preparação e de ação de graças. Vem então o Próprio do Tempo, com o Ordinário e o Cânon no meio do volume, entre o Sábado Santo e o Domingo de Páscoa; depois, o Próprio dos Santos, o Comum, as Missas votivas, as de defuntos e o apêndice.

- MissalMissale
- Livro “plenário”: reúne o que antes estava em vários volumes — o sacramentário (orações do celebrante), o lecionário e os textos dos cantos. Segundo Thurston, o missal completo não existe antes do ano 900 e torna-se a regra a partir da segunda metade do século XIII. A primeira edição impressa do Missale Romanum é de Milão, 1474.
- Ordinário da MissaOrdo Missae
- A sequência fixa, das orações ao pé do altar ao Último Evangelho, com prefácios e Cânon. Ordo é “ordem, disposição”, o mesmo termo dos antigos Ordines Romani, que descreviam as cerimônias. Não confundir com Ordinarium, as partes cantadas invariáveis (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Agnus Dei). Texto completo no Ordinário latim–português.
- Cânon da MissaCanon Missae
- Do grego kanón, “regra”: a oração eucarística fixa do Rito Romano. Em 1962 o título está no Te igitur, e o cabeçalho acompanha o texto até omnis honor et gloria; a conclusão em voz alta (Per omnia saecula saeculorum. Amen.) é impressa de novo sob “Ordo Missae”, embora pertença ao Cânon. A rubrica Infra Actionem, sobre o Communicantes, conserva o nome antigo do Cânon, Actio. Nos manuscritos, o T de Te igitur foi-se tornando imagem da Crucifixão (já no sacramentário de Gellone, fim do século VIII).
- Próprio do TempoProprium de Tempore
- O Próprio do ciclo temporal: Missas do 1º Domingo do Advento ao último Domingo depois de Pentecostes, em torno dos mistérios de Cristo. Ver O ano litúrgico.
- Próprio dos SantosProprium Sanctorum
- As festas por data do calendário. Em 1962 começa em 29 de novembro, para acompanhar o início do ano litúrgico, e segue mês a mês. Há ainda um Proprium Sanctorum pro aliquibus locis, para Missas próprias de certos lugares.
- Comum dos SantosCommune Sanctorum
- Formulários por categoria — Sumos Pontífices, mártires, confessores pontífices e não pontífices, doutores, abades, virgens, santas não virgens, dedicação de igreja, festas de Nossa Senhora — para os santos sem Missa inteiramente própria.
- Rito a observarRitus servandus in celebratione Missae
- A descrição das cerimônias gesto por gesto, baseada no Ordo Missae de Johannes Burchard, mestre de cerimônias pontifício na virada do século XV para o XVI. Acompanha-o o De defectibus, sobre faltas e falhas na matéria, na forma ou no ministro. Em 1962, o antigo texto das Rubricae generales do Missal foi substituído pelas rubricas gerais do Código de Rubricas de 1960 (nn. 269 ss.).
- Gradual (livro)Graduale Romanum
- O livro de canto do Próprio: Intróito, Gradual, Aleluia ou Trato, Ofertório, Comunhão. O nome vem do Gradual, o canto entre a Epístola e o Evangelho, entoado dos degraus (gradus) do ambão. A Edição Vaticana, promovida por São Pio X, saiu em 1908.
- KyrialeKyriale
- As melodias do Ordinário cantado, em séries numeradas (Missa I Lux et origo, Missa VIII de Angelis…), com os Credos; cada série começa pelo Kyrie, daí o nome. Primeiro volume da Edição Vaticana (1905), hoje em geral encadernado com o Gradual.
Rito, uso, forma, expressão
Os documentos recentes escolhem estas palavras com cuidado. Rito é a família litúrgica inteira (romano, ambrosiano, bizantino…); uso (usus) é uma variante dentro de um rito, como o uso dominicano. Summorum Pontificum chama o Missal de Paulo VI e o de 1962 de duas “expressões” da lex orandi e diz serem “dois usos do único rito romano” (art. 1); fala também em “forma mais antiga do Rito Romano” (art. 10). A carta aos bispos que o acompanha e a Universae Ecclesiae falam em forma ordinária e forma extraordinária. Traditionis custodes (2021) reserva aos livros de Paulo VI e João Paulo II a “única expressão” da lex orandi (art. 1) e faz do uso do Missal de 1962 uma faculdade concedida pelo bispo diocesano (arts. 2–3).
O “Ite, missa est” nas rubricas de 1960
A fórmula que deu nome à Missa tem regras precisas. Até 1960, dizia-se Ite, missa est nas Missas com Gloria; nas demais (domingos do Advento e da Quaresma, férias, vigílias, muitas votivas) dizia-se Benedicamus Domino, costume observado pelos liturgistas desde cerca do século XI. O Código de Rubricas de 1960 simplificou: Ite, missa est em toda Missa (n. 507), com três exceções. A bênção final omite-se apenas quando se disse Benedicamus Domino ou Requiescant in pace (n. 508). Na Missa solene, quem canta a fórmula é o diácono, voltado para o povo.
Regra geral (Código de Rubricas, n. 507):
℣.Ite, missa est.
Ide, é a despedida.
℟.Deo grátias.
Graças a Deus.
Na oitava da Páscoa, nas Missas do Tempo, acrescenta-se duplo aleluia:
℣.Ite, missa est, allelúia, allelúia.
Ide, é a despedida, aleluia, aleluia.
℟.Deo grátias, allelúia, allelúia.
Graças a Deus, aleluia, aleluia.
Quando se segue uma procissão (como na Missa vespertina da Quinta-feira Santa, antes da trasladação do Santíssimo), sem bênção:
℣.Benedicámus Dómino.
Bendigamos ao Senhor.
℟.Deo grátias.
Graças a Deus.
Nas Missas de defuntos, sem bênção:
℣.Requiéscant in pace.
Descansem em paz.
℟.Amen.
Amém.
Fontes
- Missale Romanum ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum Summorum Pontificum cura recognitum, editio typica 1962 (digitalização)
- Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Concilii Tridentini restitutum, Pii V Pont. Max. iussu editum, 1570 (digitalização)
- São Pio V, bula Quo primum (14 de julho de 1570), texto latino impresso no Missal de 1962
- Codex Rubricarum (1960), nn. 269, 271 e 507–508, no Missal de 1962
- Congregação para o Culto Divino, carta Quattuor abhinc annos (3 de outubro de 1984)
- Concílio de Trento — Catholic Encyclopedia (1912)
- Adrian Fortescue, “Liturgy of the Mass” — Catholic Encyclopedia (1910)
- Adrian Fortescue, “Ite Missa Est” — Catholic Encyclopedia (1910)
- Herbert Thurston, “Missal” — Catholic Encyclopedia (1911)
- Santo Ambrósio, Carta 20, à irmã Marcelina (trad. inglesa NPNF)
- Egéria, Itinerarium (texto latino)
- Santo Isidoro de Sevilha, Etymologiae, livro VI (texto latino)
- Catecismo da Igreja Católica, n. 1332
- Bento XVI, exortação apostólica Sacramentum caritatis (2007), n. 51
- Bento XVI, motu proprio Summorum Pontificum (7 de julho de 2007)
- Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, instrução Universae Ecclesiae (30 de abril de 2011), texto latino
- Francisco, motu proprio Traditionis custodes (16 de julho de 2021), texto latino
- João Paulo II, motu proprio Ecclesia Dei (2 de julho de 1988)
- João Paulo II, carta a D. Licínio Rangel e à União São João Maria Vianney (25 de dezembro de 2001)
- Paulo VI, audiência geral de 19 de novembro de 1969 (texto italiano)
- Paulo VI, constituição apostólica Missale Romanum (3 de abril de 1969), texto latino
- Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium (1963), nn. 36 e 56