Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Por que “Tridentina”? O nome e os muitos nomes

“Tridentina” quer dizer “de Trento”: é a Missa celebrada segundo o Missal que São Pio V publicou em 1570 a pedido do Concílio de Trento, embora o rito seja muito mais antigo que o Concílio. Os outros nomes — de São Pio V, Forma Extraordinária, usus antiquior, Vetus Ordo — designam, com nuances, a mesma liturgia, cada um sublinhando um aspecto dela.

Profundidade
Missal Romano aberto no Cânon da Missa: à esquerda, gravura da Crucifixão com a Virgem, São João e Maria Madalena ao pé da cruz; à direita, a página do Te igitur com grande inicial ornada, moldura de gravuras e fitas vermelhas marcando as páginas.
Missale Romanum impresso por Christophe Plantin em 1572, poucos anos depois da edição de São Pio V (1570), aberto no Cânon: gravura da Crucifixão e página do Te igitur. Paul Hermans (fotografia); impressão de Christophe Plantin, 1572 · Domínio público

“Tridentina” vem de Trento

Essencial

Trento é uma cidade do norte da Itália, ao pé dos Alpes, cujo nome latino é Tridentum; o adjetivo correspondente é tridentinus. No século XVI pertencia ao Sacro Império e ficava a meio caminho entre o mundo germânico e Roma, por isso foi escolhida para o concílio ecumênico que a Igreja reuniu diante da Reforma protestante. O Concílio de Trento abriu-se em 13 de dezembro de 1545 e encerrou-se em 4 de dezembro de 1563, em três períodos interrompidos por epidemias e guerras, sob os papas Paulo III, Júlio III e Pio IV. Chamar a Missa de “tridentina” é dizer, simplesmente, “a Missa ligada ao Concílio de Trento”.

Pintura do Concílio de Trento em sessão no interior de uma igreja: os padres conciliares sentados em anfiteatro, cardeais de vermelho à esquerda, uma figura de pé ao fundo sob um dossel e os secretários à mesa no centro; na parte inferior, cartela com os nomes dos participantes.
O Concílio de Trento (1545–1563). Em sua última sessão, confiou ao Papa a revisão do Missal e do Breviário. Laurom (fotografia); pintura sem autoria indicada no arquivo · CC BY-SA 3.0

O Concílio tratou da Missa em dois planos. Na sessão XXII (17 de setembro de 1562), ensinou a doutrina sobre o Sacrifício da Missa e aprovou um decreto sobre o que observar e evitar na celebração. Mas não redigiu um Missal: na sessão final, em dezembro de 1563, os padres entregaram ao Papa a tarefa de rever e publicar o Catecismo, o Breviário e o Missal. São Pio V, eleito em 1566, cumpriu o encargo: o Catecismo Romano saiu em 1566, o Breviário em 1568 e o Missal em 1570, promulgado pela bula Quo primum de 14 de julho de 1570.

  1. 1545

    Abertura do Concílio

    Em 13 de dezembro, sob Paulo III.

  2. 1562

    Sessão XXII

    Doutrina sobre o Sacrifício da Missa e decreto sobre a dignidade da celebração (17 de setembro).

  3. 1563

    Encerramento

    A sessão XXV (3–4 de dezembro) confia ao Papa o Missal, o Breviário e o Catecismo.

  4. 1568

    Breviário Romano

    Publicado por São Pio V, eleito Papa em janeiro de 1566.

  5. 1570

    Missale Romanum

    Promulgado pela bula Quo primum (14 de julho), que manda adotá-lo em toda a Igreja latina, salvo os usos com mais de duzentos anos.

Um livro de 1570 com um conteúdo muito mais antigo

Por isso o Missal leva o nome de Trento, embora quase nada nele tenha nascido em Trento. A comissão nomeada pelo Papa não compôs uma liturgia nova: partiu do Missal da Cúria Romana, que circulava impresso desde 1474, comparou-o com antigos manuscritos da Biblioteca Vaticana e com os autores que haviam comentado os ritos, e devolveu-o à forma tradicional. O coração do livro, o Cânon Romano, já tinha substancialmente a forma atual por volta do ano 600, e muitas orações se encontram nos antigos sacramentários romanos. “Tridentino” marca uma edição e uma data jurídica, não o nascimento do rito. A longa formação que leva até 1570 está em A história, das origens a São Pio V.

“[…] ad pristinam Missale ipsum sanctorum Patrum normam ac ritum restituerunt.” — “[…] restituíram o próprio Missal à antiga norma e ao rito dos santos Padres.”
São Pio V, bula Quo primum, 14 de julho de 1570, sobre o trabalho da comissão (tradução nossa)

A palavra “Missa”

Essencial

A palavra que usamos todos os dias guarda uma surpresa: ela vem do fim da celebração. Terminada a Missa, o diácono — ou o próprio sacerdote, na Missa rezada — volta-se para o povo e diz Ite, missa est. Em latim tardio, missa é um substantivo formado sobre o verbo mittere (“enviar, deixar ir”) e equivale a missio ou dimissio, “despedida”, assim como collecta significa “reunião”. Ao pé da letra, a frase diz algo como “Ide, é a despedida”. Uma palavra que nomeava o momento de sair acabou dando nome a toda a ação sagrada: o nome da parte final passou ao todo.

No fim da Missa, voltado para o povo (na Missa solene, canta-o o diácono):

S.

℣.Ite, missa est.

Ide, é a despedida.

M.

℟.Deo grátias.

Graças a Deus.

Os primeiros testemunhos

O uso é muito antigo. Santo Ambrósio, bispo de Milão, conta numa carta à irmã Marcelina (a Carta 20; escrita em 385 ou 386, a data é discutida) que, num domingo, depois das leituras e do sermão e “despedidos os catecúmenos” (dimissis catechumenis), ensinava o Símbolo a candidatos ao Batismo quando soube que soldados do imperador cercavam uma basílica. Sem interromper o seu ofício, relata ele, “comecei a celebrar a Missa”: missam facere coepi. É o testemunho seguro mais antigo, e Ambrósio usa a palavra como termo já conhecido, aqui para a celebração que se segue à despedida dos catecúmenos. Pela mesma época, a peregrina Egéria, ao descrever a liturgia de Jerusalém (c. 381–384), encerra os ofícios com fórmulas como et fit missa ou missa fit, “e faz-se a despedida”. No século VI, a Regra de São Bento ainda chama missae as despedidas no fim das Horas do ofício divino.

A Igreja não se contentou com a etimologia: viu nela uma vocação. O Catecismo explica o nome “Santa Missa” pelo envio que encerra a celebração, e Bento XVI retomou a ideia em 2007: “Na antiguidade, o termo «missa» significava simplesmente «despedida»; mas, no uso cristão, o mesmo foi ganhando um sentido cada vez mais profundo […]” (Sacramentum caritatis, 51). Na leitura do Papa, a despedida tornou-se envio em missão. Quem sai da Missa não é apenas dispensado; é enviado. O sentido teológico do rito está desenvolvido em Teologia do rito.

“Santa Missa, porque a liturgia em que se realiza o mistério da salvação termina com o envio dos fiéis («missio»), para que vão cumprir a vontade de Deus na sua vida quotidiana.”
Catecismo da Igreja Católica, n. 1332

Guia dos nomes

Essencial

Quem começa a frequentar a Missa tradicional ouve muitos nomes para a mesma coisa, e é natural ficar confuso. Quase todos estão certos em algum sentido: cada um põe em relevo um aspecto — o Concílio, o Papa que publicou o Missal, a antiguidade, a língua, o ano da edição em uso. Alguns vêm de documentos oficiais, outros são apelidos do dia a dia, outros são simplesmente imprecisos. O guia abaixo indica de onde vem cada nome, quem o usa e que valor tem. Neste site usamos sobretudo “Missa Tridentina”, o nome mais conhecido no Brasil, e “Missal de 1962” quando é preciso indicar a edição exata.

Nomes ligados à história

Missa Tridentina
De Trento, o Concílio que pediu a revisão do Missal. É o nome mais difundido em português, entre fiéis, sacerdotes e imprensa, mas não é título de nenhum documento. Antes de 1969 quase não havia necessidade de nome especial; o adjetivo já existia, mas generalizou-se depois de 1969, quando foi preciso distinguir o Missal anterior do novo. Usual e legítimo, desde que se lembre que o rito é anterior a Trento.
Missa de São Pio V
Do Papa que promulgou o Missal em 1570. Muito usado, inclusive em documentos pontifícios, que falam do “Missal Romano promulgado por São Pio V”. Preciso quanto à origem jurídica, impreciso quanto ao conteúdo: veja mais abaixo.
Missa Gregoriana
Alusão a São Gregório Magno (papa de 590 a 604), a quem a tradição atribui retoques no Cânon e a colocação do Pater noster logo depois dele. Usado por poucos autores. Impreciso, e fácil de confundir com as “Missas gregorianas”: as trinta Missas seguidas por um defunto, prática ligada a um episódio dos Diálogos do mesmo santo.
Missa de 1962Missale Romanum 1962
Do ano da edição típica em uso, publicada sob São João XXIII e declarada “típica” por decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 23 de junho de 1962. É como os documentos a identificam desde o indulto Quattuor abhinc annos (3 de outubro de 1984), que remete à edição típica de 1962, e a ela remete também o motu proprio Ecclesia Dei (2 de julho de 1988). O nome mais exato para a edição celebrada hoje.

Nomes dos documentos

Forma Extraordinária do Rito Romanoforma extraordinaria
Consagrado pelo motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI (7 de julho de 2007), que chamou o Missal de Paulo VI de “expressão ordinária” e o de 1962 de “expressão extraordinária” da mesma lex orandi, “dois usos do único rito romano” (art. 1); a “forma extraordinária” aparece na carta aos bispos que o acompanha e na instrução Universae Ecclesiae. Oficial de 2007 a 2021. Traditionis custodes (16 de julho de 2021) declara os livros de Paulo VI e João Paulo II “a única expressão da lex orandi do Rito Romano” (art. 1, tradução nossa) e já não emprega essa terminologia.
Usus antiquiorusus antiquior
“Uso mais antigo”. Aparece na instrução Universae Ecclesiae (30 de abril de 2011), que fala da “Liturgia Romana no uso mais antigo” (in Antiquiori Usu). Técnico e sóbrio, preferido em textos acadêmicos; tem a vantagem de não sugerir dois ritos diferentes. Summorum Pontificum diz o mesmo em vernáculo: “forma mais antiga do Rito Romano” (art. 10).
Missal anterior à reforma de 1970Missale antecedens instaurationem anni 1970
A fórmula de Traditionis custodes (art. 3), que também diz Missale Romanum anno 1962 editum, o Missal Romano editado em 1962 (art. 2). O título português do documento no site da Santa Sé fala do uso da “Liturgia Romana anterior à Reforma de 1970”. A linguagem dos documentos atuais, descritiva e neutra.

Nomes do dia a dia

Vetus Ordo e Novus Ordo
Abreviações latinas: Ordo Missae é o Ordinário da Missa. O novo Ordo Missae foi promulgado por Paulo VI em 3 de abril de 1969 e entrou em uso em 30 de novembro de 1969; daí “Novus Ordo”, e por simetria “Vetus Ordo” para o anterior. Informais. Em textos cuidadosos, prefere-se “Missal de 1970” ou “Missa de Paulo VI”.
Missa Tradicional (TLM)
Em inglês, Traditional Latin Mass, sigla muito difundida na internet; em português, “Missa Tradicional” ou “Missa Tradicional em Latim”. Usual, com a ressalva sobre o latim feita logo abaixo.
Rito romano antigo, clássico ou tradicional
Expressões descritivas usadas por estudiosos e comunidades. Corretas, desde que se entenda “rito” no sentido largo: segundo Summorum Pontificum, trata-se de dois usos de um só Rito Romano.
“Missa de sempre”
Expressão devocional. Diz uma verdade de fé: o Sacrifício é o mesmo em todas as épocas — e Paulo VI pôde dizer da Missa reformada que “é e permanece […] a de sempre” (audiência de 19 de novembro de 1969, tradução nossa). Como nome de uma edição, porém, é impreciso: o rito tem uma história, contada em Através dos séculos.
“Missa em latim”
Impreciso. O Missal de 1970 também tem edição típica latina e pode ser celebrado em latim; o Concílio Vaticano II determinou que “deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos” (Sacrosanctum Concilium, 36 §1). E a Missa tridentina não é toda latina: o Kyrie é grego, e Amen, Alleluia, Sabaoth e Hosanna são hebraicos. Ver O latim e o canto.

Nomes das formas de celebrar

Além do nome da Missa, há os nomes de suas formas, e as rubricas de 1962 os definem (Código de Rubricas, n. 271). Se o sacerdote não canta as partes que lhe cabem, a Missa é lecta: a Missa rezada, chamada popularmente “Missa baixa”. Se as canta e há diácono e subdiácono, é a Missa solene (Missa solemnis); se as canta sem ministros sagrados, a Missa cantada (Missa cantata). A Missa solene celebrada por um bispo, ou por quem tenha a faculdade, com as solenidades previstas nos livros litúrgicos, chama-se pontifical. O mesmo Código pede que se evite a expressão “Missa privada” (n. 269), porque toda Missa é ato de culto público, oferecido em nome de Cristo e da Igreja.

O nome que está no próprio livro

O nome mais autorizado é o que o Missal traz na folha de rosto. Na edição de 1962 lê-se: Missale Romanum ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum Summorum Pontificum cura recognitum. Cada palavra tem peso:

MissaleMissale
“Missal”, o livro da Missa: reúne tudo o que o celebrante diz e faz.
RomanumRomanum
“Romano”: segundo o uso da Igreja de Roma, distinto de outros ritos latinos (como o ambrosiano de Milão e o moçárabe de Toledo) e dos ritos orientais.
ex decretoex decreto
“Por decreto”: em cumprimento da determinação da sessão final do Concílio.
Sacrosancti Concilii TridentiniSS. Concilii Tridentini
“Do sacrossanto Concílio de Trento”. Sacrosanctus é o epíteto tradicional dos concílios ecumênicos; os decretos de Trento abrem-se com Sacrosancta… Tridentina Synodus.
restitutumrestitutum
A palavra-chave: “restituído”. Não “criado” nem “inventado”, mas devolvido à forma antiga. O Missal de 1970 dirá instauratum, “renovado”, por decreto do Vaticano II.
Summorum Pontificum cura recognitumSummorum Pontificum cura recognitum
“Revisto pelo cuidado dos Sumos Pontífices”: a fórmula de 1962, que resume quatro séculos de revisões sem nomear nenhum papa.

Missa dos Catecúmenos e Missa dos Fiéis

Aprofundar

Muitos missais de fiéis dividem a celebração em “Missa dos Catecúmenos”, das orações ao pé do altar até o Credo, e “Missa dos Fiéis”, do Ofertório ao fim. Os nomes vêm da Igreja antiga. O catecúmeno — o adulto que se preparava para o Batismo — podia ouvir as leituras e o sermão, mas era despedido antes da oração dos fiéis e do Sacrifício, reservados aos batizados. Santo Agostinho diz aos ouvintes: “eis que, depois do sermão, faz-se a despedida dos catecúmenos; os fiéis permanecerão” (Sermão 49, 8, tradução nossa). Havia duas despedidas, missa catechumenorum e missa fidelium, e cada nome passou a designar a parte que terminava com ela.

A expressão aparece em concílios hispânicos do século VI — o de Lérida permite a certos penitentes ficar na igreja “até a missa dos catecúmenos” — e Santo Isidoro de Sevilha (século VII) ainda explica a palavra pela saída deles: “Missa tempore sacrificii est, quando catechumeni foris mittuntur” (Etimologias, VI, 19, 4). Quando o catecumenato de adultos se tornou raro, a despedida desapareceu do rito, mas os nomes sobreviveram nos comentadores. O Missal de 1962 não os usa como títulos; o Vaticano II e o Missal de 1970 falam em “liturgia da Palavra” e “liturgia eucarística”, que “formam um só acto de culto” (Sacrosanctum Concilium, 56).

As duas grandes partes da Missa e seus nomes
Nome tradicionalVai de… até…Nome correspondente no Missal de 1970
Missa dos CatecúmenosOrações ao pé do altar → CredoRitos iniciais e liturgia da Palavra
Missa dos FiéisOfertório → Último EvangelhoLiturgia eucarística e ritos finais

“De São Pio V”: preciso e impreciso ao mesmo tempo

Aprofundar
Retrato de São Pio V sentado, com barrete, mozeta vermelhos e alva branca, a mão direita erguida em bênção e um livro na esquerda; ao fundo, cortina verde e a tiara papal sobre o espaldar do trono.
São Pio V (papa de 1566 a 1572), que promulgou o Missal Romano em 1570. Seguidor de Bartolomeo Passarotti, século XVI · Domínio público

O nome é preciso no sentido jurídico. O Missal de 1570 é a raiz de todas as edições seguintes, e a bula Quo primum foi impressa no início de cada uma, inclusive na de 1962. Os documentos recentes o identificam pela origem: “o Missal Romano promulgado por São Pio V e reeditado pelo Beato João XXIII” (Summorum Pontificum, art. 1). Ao acolher os sacerdotes de Campos (RJ), João Paulo II confirmou-lhes a faculdade de celebrar “conforme o Rito Romano e a disciplina litúrgica codificados pelo nosso predecessor São Pio V, com as adaptações introduzidas pelos seus sucessores até o Beato João XXIII” (carta de 25 de dezembro de 2001). E Paulo VI, ao anunciar o novo rito, falou da forma celebrada “há quatro séculos, isto é, desde São Pio V” (19 de novembro de 1969, tradução nossa).

Mas o nome é impreciso em dois sentidos. Primeiro, São Pio V não compôs a Missa: mandou publicar, revisto, o uso romano que recebera. Segundo, o Missal de hoje não é idêntico ao de 1570. Clemente VIII (1604) e Urbano VIII (1634) reviram textos e rubricas; Leão XIII mandou publicar nova edição típica (1884); São Pio X reformou calendário e rubricas (1911–1913), mudanças recolhidas na edição típica de 1920; Pio XII restaurou a Semana Santa (1955); João XXIII promulgou um novo Código de Rubricas (1960) e, por decreto posterior à edição de 1962, inseriu São José no Cânon, a partir de 8 de dezembro de 1962. O Ordinário quase não mudou; calendário, rubricas e Semana Santa mudaram bastante. A folha de rosto registra essa história:

  1. 1570

    Pii V Pont. Max. iussu editum

    “Publicado por ordem de Pio V, Pontífice Máximo.”

  2. 1604

    et Clementis VIII auctoritate recognitum

    “E revisto pela autoridade de Clemente VIII.”

  3. 1634

    et Clementis VIII primum, nunc denuo Urbani Papae VIII auctoritate recognitum

    “E revisto primeiro pela autoridade de Clemente VIII, agora de novo pela do papa Urbano VIII.”

  4. 1920

    a Pio X reformatum et Benedicti XV auctoritate vulgatum

    “Reformado por Pio X e publicado pela autoridade de Bento XV”, depois de “revisto pelo cuidado de outros Pontífices”.

  5. 1962

    Summorum Pontificum cura recognitum

    “Revisto pelo cuidado dos Sumos Pontífices”: nenhum papa é nomeado, nem mesmo Pio V.

  6. 1970

    ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum

    O novo Missal cita outro concílio e outro verbo: “renovado por decreto do Vaticano II”, “promulgado pela autoridade de Paulo VI”.

A bula Quo primum também explica por que o nome “de São Pio V” não significa que todas as igrejas latinas tenham passado a celebrar do mesmo modo. Ela impõe o novo Missal, sem que se lhe possa acrescentar, tirar ou mudar coisa alguma (nihil unquam addendum, detrahendum, aut immutandum), mas poupa as igrejas cujo uso próprio fosse aprovado desde a origem pela Sé Apostólica ou observado havia mais de duzentos anos (super ducentos annos). Por isso sobreviveram, por exemplo, o rito ambrosiano de Milão e os usos de algumas ordens religiosas, como a dominicana. A bula declara-se válida “perpetuamente” (perpetuo valitura); a história das revisões acima mostra, porém, que os próprios papas seguintes continuaram a rever o livro.

Nomes das partes e dos livros

Formação

Para o estudo, convém dominar o vocabulário com que os próprios livros se organizam. A edição típica de 1962 abre com o decreto da Congregação dos Ritos, os documentos de Pio V (Quo primum), Clemente VIII (Cum sanctissimum) e Urbano VIII (Si quid est), o motu proprio Rubricarum instructum de João XXIII (25 de julho de 1960) e o Código de Rubricas de 1960; seguem o calendário, o Ritus servandus, o De defectibus e as orações de preparação e de ação de graças. Vem então o Próprio do Tempo, com o Ordinário e o Cânon no meio do volume, entre o Sábado Santo e o Domingo de Páscoa; depois, o Próprio dos Santos, o Comum, as Missas votivas, as de defuntos e o apêndice.

Missal Romano de 1904 aberto no Cânon da Missa: à esquerda, a gravura da Crucificação com Nossa Senhora e São João; à direita, o título Canon Missae, o início do Te igitur com a inicial ilustrada e as rubricas impressas em vermelho.
Missal de altar aberto: o Ordinário e o Cânon ficam no centro do volume. Juliédson Artur Malaquias Reis · CC BY-SA 4.0
MissalMissale
Livro “plenário”: reúne o que antes estava em vários volumes — o sacramentário (orações do celebrante), o lecionário e os textos dos cantos. Segundo Thurston, o missal completo não existe antes do ano 900 e torna-se a regra a partir da segunda metade do século XIII. A primeira edição impressa do Missale Romanum é de Milão, 1474.
Ordinário da MissaOrdo Missae
A sequência fixa, das orações ao pé do altar ao Último Evangelho, com prefácios e Cânon. Ordo é “ordem, disposição”, o mesmo termo dos antigos Ordines Romani, que descreviam as cerimônias. Não confundir com Ordinarium, as partes cantadas invariáveis (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Agnus Dei). Texto completo no Ordinário latim–português.
Cânon da MissaCanon Missae
Do grego kanón, “regra”: a oração eucarística fixa do Rito Romano. Em 1962 o título está no Te igitur, e o cabeçalho acompanha o texto até omnis honor et gloria; a conclusão em voz alta (Per omnia saecula saeculorum. Amen.) é impressa de novo sob “Ordo Missae”, embora pertença ao Cânon. A rubrica Infra Actionem, sobre o Communicantes, conserva o nome antigo do Cânon, Actio. Nos manuscritos, o T de Te igitur foi-se tornando imagem da Crucifixão (já no sacramentário de Gellone, fim do século VIII).
Próprio do TempoProprium de Tempore
O Próprio do ciclo temporal: Missas do 1º Domingo do Advento ao último Domingo depois de Pentecostes, em torno dos mistérios de Cristo. Ver O ano litúrgico.
Próprio dos SantosProprium Sanctorum
As festas por data do calendário. Em 1962 começa em 29 de novembro, para acompanhar o início do ano litúrgico, e segue mês a mês. Há ainda um Proprium Sanctorum pro aliquibus locis, para Missas próprias de certos lugares.
Comum dos SantosCommune Sanctorum
Formulários por categoria — Sumos Pontífices, mártires, confessores pontífices e não pontífices, doutores, abades, virgens, santas não virgens, dedicação de igreja, festas de Nossa Senhora — para os santos sem Missa inteiramente própria.
Rito a observarRitus servandus in celebratione Missae
A descrição das cerimônias gesto por gesto, baseada no Ordo Missae de Johannes Burchard, mestre de cerimônias pontifício na virada do século XV para o XVI. Acompanha-o o De defectibus, sobre faltas e falhas na matéria, na forma ou no ministro. Em 1962, o antigo texto das Rubricae generales do Missal foi substituído pelas rubricas gerais do Código de Rubricas de 1960 (nn. 269 ss.).
Gradual (livro)Graduale Romanum
O livro de canto do Próprio: Intróito, Gradual, Aleluia ou Trato, Ofertório, Comunhão. O nome vem do Gradual, o canto entre a Epístola e o Evangelho, entoado dos degraus (gradus) do ambão. A Edição Vaticana, promovida por São Pio X, saiu em 1908.
KyrialeKyriale
As melodias do Ordinário cantado, em séries numeradas (Missa I Lux et origo, Missa VIII de Angelis…), com os Credos; cada série começa pelo Kyrie, daí o nome. Primeiro volume da Edição Vaticana (1905), hoje em geral encadernado com o Gradual.

Rito, uso, forma, expressão

Os documentos recentes escolhem estas palavras com cuidado. Rito é a família litúrgica inteira (romano, ambrosiano, bizantino…); uso (usus) é uma variante dentro de um rito, como o uso dominicano. Summorum Pontificum chama o Missal de Paulo VI e o de 1962 de duas “expressões” da lex orandi e diz serem “dois usos do único rito romano” (art. 1); fala também em “forma mais antiga do Rito Romano” (art. 10). A carta aos bispos que o acompanha e a Universae Ecclesiae falam em forma ordinária e forma extraordinária. Traditionis custodes (2021) reserva aos livros de Paulo VI e João Paulo II a “única expressão” da lex orandi (art. 1) e faz do uso do Missal de 1962 uma faculdade concedida pelo bispo diocesano (arts. 2–3).

O “Ite, missa est” nas rubricas de 1960

A fórmula que deu nome à Missa tem regras precisas. Até 1960, dizia-se Ite, missa est nas Missas com Gloria; nas demais (domingos do Advento e da Quaresma, férias, vigílias, muitas votivas) dizia-se Benedicamus Domino, costume observado pelos liturgistas desde cerca do século XI. O Código de Rubricas de 1960 simplificou: Ite, missa est em toda Missa (n. 507), com três exceções. A bênção final omite-se apenas quando se disse Benedicamus Domino ou Requiescant in pace (n. 508). Na Missa solene, quem canta a fórmula é o diácono, voltado para o povo.

Regra geral (Código de Rubricas, n. 507):

S.

℣.Ite, missa est.

Ide, é a despedida.

M.

℟.Deo grátias.

Graças a Deus.

Na oitava da Páscoa, nas Missas do Tempo, acrescenta-se duplo aleluia:

S.

℣.Ite, missa est, allelúia, allelúia.

Ide, é a despedida, aleluia, aleluia.

M.

℟.Deo grátias, allelúia, allelúia.

Graças a Deus, aleluia, aleluia.

Quando se segue uma procissão (como na Missa vespertina da Quinta-feira Santa, antes da trasladação do Santíssimo), sem bênção:

S.

℣.Benedicámus Dómino.

Bendigamos ao Senhor.

M.

℟.Deo grátias.

Graças a Deus.

Nas Missas de defuntos, sem bênção:

S.

℣.Requiéscant in pace.

Descansem em paz.

M.

℟.Amen.

Amém.

Fontes

  1. Missale Romanum ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum Summorum Pontificum cura recognitum, editio typica 1962 (digitalização)
  2. Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Concilii Tridentini restitutum, Pii V Pont. Max. iussu editum, 1570 (digitalização)
  3. São Pio V, bula Quo primum (14 de julho de 1570), texto latino impresso no Missal de 1962
  4. Codex Rubricarum (1960), nn. 269, 271 e 507–508, no Missal de 1962
  5. Congregação para o Culto Divino, carta Quattuor abhinc annos (3 de outubro de 1984)
  6. Concílio de Trento — Catholic Encyclopedia (1912)
  7. Adrian Fortescue, “Liturgy of the Mass” — Catholic Encyclopedia (1910)
  8. Adrian Fortescue, “Ite Missa Est” — Catholic Encyclopedia (1910)
  9. Herbert Thurston, “Missal” — Catholic Encyclopedia (1911)
  10. Santo Ambrósio, Carta 20, à irmã Marcelina (trad. inglesa NPNF)
  11. Egéria, Itinerarium (texto latino)
  12. Santo Isidoro de Sevilha, Etymologiae, livro VI (texto latino)
  13. Catecismo da Igreja Católica, n. 1332
  14. Bento XVI, exortação apostólica Sacramentum caritatis (2007), n. 51
  15. Bento XVI, motu proprio Summorum Pontificum (7 de julho de 2007)
  16. Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, instrução Universae Ecclesiae (30 de abril de 2011), texto latino
  17. Francisco, motu proprio Traditionis custodes (16 de julho de 2021), texto latino
  18. João Paulo II, motu proprio Ecclesia Dei (2 de julho de 1988)
  19. João Paulo II, carta a D. Licínio Rangel e à União São João Maria Vianney (25 de dezembro de 2001)
  20. Paulo VI, audiência geral de 19 de novembro de 1969 (texto italiano)
  21. Paulo VI, constituição apostólica Missale Romanum (3 de abril de 1969), texto latino
  22. Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium (1963), nn. 36 e 56