Por que em latim? E que música é essa?
A Igreja de Roma reza em latim desde o século IV: uma língua comum a todos os povos, estável no sentido das palavras e reservada ao culto, que une cada Missa de hoje às dos séculos passados. Seu canto próprio é o gregoriano, melodia a uma só voz nascida da própria liturgia; a polifonia sacra e o órgão entram ao lado dele, cada um em seu lugar e em seu tempo.

Por que o latim
EssencialQuem entra pela primeira vez numa Missa tridentina percebe logo que o sacerdote reza numa língua que quase ninguém fala em casa. Não é descuido nem capricho: o rito romano, como os antigos ritos do Oriente, conservou uma língua de culto distinta da fala cotidiana, e a Igreja sempre deu suas razões. Nenhuma delas supõe que Deus só entenda latim, nem quer fazer da língua um muro entre o altar e o povo; dizem, antes, que a oração pública da Igreja pertence a todos os seus filhos, de todos os lugares e de todos os tempos.
- Universaluniversalis
- Não sendo a língua de nenhum povo, o latim pode ser de todos. Para São João XXIII, ele “não suscita inveja”, trata cada povo com igualdade e “não favorece o partido de ninguém” (Veterum Sapientia, n. 3, tradução nossa).
- Estávelimmutabilis
- Guarda o sentido exato de termos como consubstantiálem, no Credo; a mesma constituição o chama “fixo e imóvel” (n. 6, tradução nossa).
- Sagradonon vulgaris
- Uma língua solene, distinta da fala comum: a filóloga Christine Mohrmann mostrou como o latim cristão se formou como linguagem própria do culto. Pio XI a queria “não vulgar”, palavra que Veterum Sapientia retoma (nn. 4 e 7).
- Contínuovinculum
- Um vínculo “pelo qual a época presente da Igreja se une admiravelmente às anteriores e às futuras” (n. 8, tradução nossa).
Do grego ao latim
A Igreja de Roma nem sempre rezou em latim. Nos primeiros séculos, a comunidade cristã da capital falava em boa parte grego, e em grego se celebrava a liturgia; a literatura cristã latina floresceu cedo no Norte da África, com Tertuliano e São Cipriano. Em Roma a passagem foi lenta, e não se sabe ao certo em que ordem entrou em cada parte da liturgia: por volta de 360, Mário Vitorino ainda cita em grego um trecho das orações eucarísticas romanas, e a mudança se consolidou sob o papa São Dâmaso (366–384). Quanto se deve ao próprio Dâmaso, a quem Theodor Klauser atribuía papel decisivo, é ponto discutido entre os estudiosos.
Por volta de 390, o tratado De sacramentis, atribuído a Santo Ambrósio, já cita em latim o núcleo do Cânon Romano (os estudiosos discutem a autoria e a data exata). As poucas palavras não traduzidas ficaram de propósito: Kýrie eléison é grego; Amen, Allelúia, Hosánna e Sábaoth são hebraicos. Santo Isidoro de Sevilha chamava hebraico, grego e latim de “três línguas sagradas”, porque nelas Pilatos escreveu sobre a Cruz a causa da condenação do Senhor (Etymologiae, IX, 1, 3; cf. Jo 19,20). A formação do rito está em A história, das origens a São Pio V.
No século XVI, diante dos reformadores protestantes, o Concílio de Trento declarou que “não pareceu conveniente aos Padres” celebrar a Missa por toda parte em vernáculo, mas mandou que os pastores explicassem com frequência, durante a própria Missa, algo do que nela se lê (sessão XXII, 17 de setembro de 1562, cap. 8, tradução nossa). O cânon 9 da mesma sessão condena quem diz que ela deve ser celebrada somente em língua vulgar. O latim nunca dispensou a pregação na língua do povo.
- c. 155
Roma ainda em grego
São Justino, que escreve em Roma e em grego, descreve a Eucaristia (I Apologia, 65–67).
- c. 360
Ainda há grego
Mário Vitorino cita em grego trechos da oração eucarística.
- 366–384
São Dâmaso
A passagem da liturgia romana ao latim se consolida.
- 1562
Concílio de Trento
Mantém-se o latim, com explicação aos fiéis.
- 1962
Veterum Sapientia
O latim na formação do clero.
- 1963
Sacrosanctum Concilium
Latim conservado, espaço ao vernáculo.
O que dizem os documentos
São Pio X escreveu em 1903 que a língua própria da Igreja Romana é a latina (Tra le sollecitudini, n. 7). Em 22 de fevereiro de 1962, São João XXIII assinou a constituição apostólica Veterum Sapientia, segundo a qual a Igreja “requer por sua natureza uma língua universal, imutável, não vulgar” (n. 4, retomando Pio XI, tradução nossa). Suas normas visam sobretudo os seminários: é um texto sobre a formação do clero mais que sobre a Missa, mas mostra o lugar do latim às vésperas do Concílio.
Menos de dois anos depois, a constituição Sacrosanctum Concilium (4 de dezembro de 1963) pôs a regra geral em primeiro lugar e admitiu para o vernáculo um lugar mais amplo, sobretudo nas leituras e admoestações e em algumas orações e cantos (art. 36 §§ 1–2). O Missal de 1970 tem sua edição típica em latim, e as traduções aprovadas tornaram-se de uso geral nos anos seguintes. As normas que regem o Missal de 1962 desde 1984 estão em Através dos séculos.
“Conserve-se o uso da língua latina nos ritos latinos, salvo direito particular.”
“Cuide-se, porém, de que os fiéis possam recitar ou cantar juntos, também em latim, as partes do Ordinário da Missa que lhes cabem.”
Você não precisa saber latim
Essencial“E se eu não entender nada?” A resposta tem três partes. A primeira é o missal bilíngue, com o latim numa coluna e o português na outra, que muitas igrejas oferecem na entrada. Os missais de mão difundiram-se no início do século XX, com o Movimento Litúrgico; o de Dom Gaspar Lefebvre, da abadia de Santo André, perto de Bruges, começou a sair em fascículos em 1920 (o primeiro volume é de 1921). A instrução da Sagrada Congregação dos Ritos de 3 de setembro de 1958 louva de modo particular os fiéis que, com um missal, rezam unidos ao sacerdote com as próprias palavras da Igreja (n. 29).
A segunda é que quase tudo se repete. O Ordinário, as orações que não mudam, é o mesmo em todas as Missas, e as respostas cabem em poucas linhas; o que muda, o Próprio, vem indicado no missal pela data ou pela festa. A terceira é que ninguém é obrigado a seguir cada palavra: muitas orações do sacerdote são ditas em voz baixa, e a mesma instrução reconhece que há quem participe melhor meditando os mistérios de Cristo (n. 29). Aos domingos, a Epístola e o Evangelho costumam ser lidos também em português, e o sermão é sempre na língua do povo.
| Latim | Português | Onde se ouve |
|---|---|---|
| Dóminus, Dómine | o Senhor; ó Senhor | Dóminus vobíscum |
| Deo grátias | graças a Deus | depois da Epístola e no fim |
| Christe | ó Cristo | Christe, eléison; Laus tibi, Christe |
| Spíritus Sanctus | Espírito Santo | no sinal da cruz e no Glória |
| pax, pacem | a paz | dona nobis pacem, no Agnus Dei |
| Kýrie, eléison (grego) | Senhor, tende piedade | depois do Intróito |
| dignus, dignum | digno | no Prefácio e antes da Comunhão |
| ánima mea | a minha alma | sanábitur ánima mea |
Como se pronuncia o latim eclesiástico
EssencialO latim da Igreja não se lê como o das aulas de letras clássicas. A Santa Sé usa a pronúncia romana, ou italiana, muito próxima do italiano. Durante séculos cada país leu o latim a seu modo; São Pio X, numa carta de julho de 1912 ao arcebispo de Bourges, encorajou a pronúncia romana por amor à unidade, e os livros de canto de Solesmes a ensinam desde então. É um costume recomendado, não uma questão de fé. Para quem fala português, quase tudo soa como se escreve: as vogais são puras, com um só som cada uma, e as consoantes seguem poucas regras.
| Grafia | Como soa | Exemplos da Missa |
|---|---|---|
| c antes de e, i, æ, œ | “tch”, como em “tchau” | pacem (pátchem), cæli (tchéli) |
| cc antes de e, i | “t-tch” | Ecce Agnus Dei (ét-tche ánhus déi) |
| c nos demais casos; ch | “k” | corda (kórda), Christe (kríste) |
| g antes de e, i | “dj” | génitum (djénitum), unigénite (unidjénite) |
| gn | “nh” | Agnus (ánhus), dignum (dínhum) |
| æ, œ | “é” | sǽcula (sékula), Ecclésiæ (ekklésie) |
| h | mudo; mas mihi e nihil soam “míki” e “níkil” | homínibus (omínibus), hóstiam (óstiam) |
| j | “i” unido à vogal seguinte | Jesu (iésu), ejus (éius), justum (iústum) |
| sc antes de e, i | “ch”, como em “chá” | descéndit (dechéndit), suscípiat (suchípiat) |
| ti + vogal (salvo depois de s, t, x) | “tsi” | grátias (grátsias); mas hóstia (óstia) |
| x; xc antes de e, i | “ks”; “kch” | crucifíxus (krutchifíksus), excélsis (ekchélsis) |
| qu, gu + vogal | o u soa, na mesma sílaba | qui (kuí), quóniam (kuóniam), sanguis (sán-guis) |
| au | ditongo: o a bem aberto, o u leve, numa só sílaba | laudámus, laudáte (láu-dá-mus) |
| Acento | palavras de duas sílabas: acento na primeira; de três ou mais: o missal e os livros de canto o imprimem, e ele marca só a sílaba forte, sem alongá-la | pacem, Deus (dé-us); Dóminus, spíritu |
As respostas mais comuns
AprofundarNa Missa rezada, quem responde ao sacerdote é o acólito, em nome de todos; mas a instrução de 1958 desejava que os fiéis aprendessem a dar com ele as respostas mais simples e, num grau seguinte, tudo o que ele diz (n. 31). Onde há esse costume, a Missa dialogada, o povo responde em voz alta; onde não há, pode responder baixo ou apenas acompanhar. Na Missa cantada e na solene, todos podem cantar as respostas, que a instrução quer conhecidas pelos fiéis do mundo inteiro (nn. 25a e 26). As linhas vermelhas indicam o momento e uma pronúncia aproximada.
Ao pé do altar (soa: “ad déum kuí letífikat iuventútem méam”):
Introíbo ad altáre Dei.
Irei até o altar de Deus.
Ad Deum, qui lætíficat juventútem meam.
Até Deus, que alegra a minha juventude.
Muitas vezes na Missa, e também depois do Pax Dómini sit semper vobíscum (soa: “et kum spíritu túo”):
℣.Dóminus vobíscum.
O Senhor esteja convosco.
℟.Et cum spíritu tuo.
E com o teu espírito.
No Kyrie, alternando com o sacerdote (soa: “kí-ri-e e-lé-i-son”, “kríste”):
Kýrie, eléison. Christe, eléison.
Senhor, tende piedade. Cristo, tende piedade.
Depois da Epístola e da despedida (soa: “déo grátsias”):
℟.Deo grátias.
Graças a Deus.
Ao anúncio do Evangelho e no seu fim:
℟.Glória tibi, Dómine.
Glória a ti, Senhor.
℟.Laus tibi, Christe.
Louvor a ti, ó Cristo.
No fim do Ofertório, depois do Oráte, fratres (soa: “suchípiat… totsiúskue ekklésie súe sánkte”):
Suscípiat Dóminus sacrifícium de mánibus tuis ad laudem et glóriam nóminis sui, ad utilitátem quoque nostram, totiúsque Ecclésiæ suæ sanctæ.
Receba o Senhor de tuas mãos o sacrifício, para louvor e glória do seu nome, para o nosso bem e o de toda a sua santa Igreja.
No diálogo do Prefácio (soa: “abémus ad dóminum”, “dínhum et iústum ést”):
℣.Sursum corda.
Corações ao alto.
℟.Habémus ad Dóminum.
Nós os temos no Senhor.
℣.Grátias agámus Dómino, Deo nostro.
Demos graças ao Senhor, nosso Deus.
℟.Dignum et justum est.
É digno e justo.
No fim do Cânon e das orações (soa: “per ómnia sékula sekulórum”):
℣.Per ómnia sǽcula sæculórum.
Por todos os séculos dos séculos.
℟.Amen.
Amém.
No fim do Pater noster, dito pelo sacerdote:
℣.Et ne nos indúcas in tentatiónem.
E não nos conduzas à tentação.
℟.Sed líbera nos a malo.
Mas livra-nos do mal.
Antes da Comunhão, três vezes, batendo no peito (o sacerdote o diz; os fiéis podem dizê-lo com ele, nn. 27c e 31b; soa: “non sum dínhus, ut íntres sub téktum méum”):
Dómine, non sum dignus, ut intres sub tectum meum: sed tantum dic verbo, et sanábitur ánima mea.
Senhor, eu não sou digno de que entres sob o meu teto; mas dize somente uma palavra, e a minha alma será curada.
As orações ao pé do altar, com o Confíteor e o Misereátur, estão no Ordinário da Missa, e a origem de cada fórmula, em O rito, parte a parte; não é preciso decorá-las para a primeira Missa. Um conselho vale para todas: o latim litúrgico se diz sem pressa, com as sílabas inteiras. O Liber Usualis adverte contra o vício antigo de engolir a sílaba fraca, dizendo “domne” por Dómine.
O canto gregoriano
EssencialO canto gregoriano é a oração cantada do rito romano: uma melodia a uma só voz, sem acompanhamento obrigatório, sobre textos latinos tirados quase sempre dos Salmos e do resto da Bíblia. Não tem compasso fixo; seu ritmo nasce das palavras, como numa leitura bem feita, e suas escalas, os modos, são mais antigas que as nossas maior e menor. Cada peça nasceu para um momento preciso do rito, muitas para um único dia do ano. Ouvido pela primeira vez, parece austero; ouvido algumas vezes, revela uma serenidade que não se esquece.
O nome vem de São Gregório Magno, papa de 590 a 604, a quem a tradição atribuiu a organização do canto romano. Os estudiosos hoje pensam que o repertório que conhecemos tomou forma entre os séculos VII e IX, quando o canto de Roma foi adotado e reelaborado no reino franco: Pepino, o Breve, introduziu-o por volta de 754, e Carlos Magno mandou que o clero o aprendesse (Admonitio generalis, 789). Os primeiros livros inteiros com notação musical, como os de São Galo e de Laon, são do século X.
- Graduale Romanum
- O livro oficial dos cantos da Missa, com o Kyriale. Edição Vaticana de 1908; para a Missa de 1962 usam-se as edições anteriores ao Graduale de 1974, feito para o Missal de 1970.
- Kyriale
- As melodias do Ordinário: dezoito Missas numeradas, seis Credos e cantos ad libitum (Edição Vaticana, 1905).
- Liber Usualis
- Compilação dos monges de Solesmes, publicada pela primeira vez em 1896: os cantos da Missa e do Ofício dos domingos e festas, com regras de leitura e sinais rítmicos. Não é livro oficial, mas foi por décadas o livro de coros e seminários.
Quatro linhas e notas quadradas
Abra-se um desses livros e se verá uma escrita diferente: quatro linhas em vez de cinco, notas quadradas ou em losango, sem hastes de duração. É a notação quadrada, que se formou entre os séculos XII e XIII a partir dos neumas, sinais que os copistas punham sobre o texto desde o século IX para lembrar o desenho da melodia. A pauta de linhas está associada a Guido de Arezzo, no século XI. Uma clave de dó ou de fá indica onde fica essa nota, sem fixar altura absoluta; cada sinal agrupa as notas de uma sílaba, e as barras marcam respirações e frases.

Solesmes e São Pio X
No século XIX, as edições em uso descendiam da Medicea (1614–1615), que encurtara e retocara as melodias. Em 1833, Dom Prosper Guéranger restaurou a vida beneditina em Solesmes, na França, onde se passou a comparar os manuscritos antigos: Dom Joseph Pothier publicou Les mélodies grégoriennes (1880) e o Liber Gradualis (1883), e Dom André Mocquereau iniciou em 1889 a Paléographie musicale. Em 22 de novembro de 1903, festa de Santa Cecília, São Pio X publicou o motu proprio Tra le sollecitudini, pedindo que se restituísse o gregoriano ao uso do povo. Em 1904 confiou a uma comissão presidida por Pothier a Edição Vaticana: Kyriale (1905), Graduale (1908), Antiphonale (1912).
“[…] uma composição para a igreja será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproximar da melodia gregoriana no andamento, na inspiração e no sabor […].”
“A Igreja reconhece o canto gregoriano como o canto próprio da liturgia romana; por isso, em igualdade de condições, ele deve ocupar o primeiro lugar nas ações litúrgicas.”
Ordinário e Próprio cantados
EssencialNuma Missa cantada ou numa Missa solene, o canto é a forma que a liturgia toma nos dias de festa. O Próprio muda a cada dia e cabe, tradicionalmente, ao coro ou schola, porque suas melodias são longas e ornadas; o Ordinário tem textos fixos e melodias mais simples, que o povo pode aprender. Enquanto o coro canta, o sacerdote diz em voz baixa, no altar, os mesmos textos: nada do que se canta deixa de ser rezado pelo celebrante. O lugar de cada canto no rito está em O rito, parte a parte.
| Canto | Quando | Forma |
|---|---|---|
| Intróito | Entrada do sacerdote | Antífona, versículo de salmo, Glória Patri, antífona (sem o Glória Patri no Tempo da Paixão e nas Missas de defuntos) |
| Gradual | Depois da Epístola | Resposta e versículo; no Tempo Pascal omite-se, e dois Aleluias o substituem |
| Aleluia | Depois do Gradual, exceto da Septuagésima à Páscoa e nas Missas de defuntos | Allelúia, versículo, Allelúia, com o jubilus (a longa vocalização) final |
| Trato | Da Septuagésima à Páscoa e nos defuntos, em lugar do Aleluia | Versículos de salmo, sem refrão |
| Sequência | Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi, Dores de Nossa Senhora, defuntos | Hino em estrofes (Victimæ pascháli, Dies iræ…) |
| Ofertório | Preparação do pão e do vinho | Antífona, às vezes com versículos (1958, n. 27b) |
| Comunhão | Comunhão do sacerdote e dos fiéis | Antífona, às vezes com versículos (n. 27c) |
| Canto | Quando |
|---|---|
| Kyrie (nove invocações) | Depois do Intróito |
| Glória | Domingos, exceto os do Advento e os que vão da Septuagésima à Páscoa; festas |
| Credo | Domingos e as festas que as rubricas indicam (por exemplo, do Senhor, de Nossa Senhora, dos Apóstolos) |
| Sanctus e Benedictus | No fim do Prefácio |
| Agnus Dei | Antes da Comunhão |
| Ite missa est | Na despedida, com a melodia indicada para o dia; sem Glória, diz-se Benedicámus Dómino, e nas Missas de defuntos, Requiéscant in pace |

As Missas do Kyriale
O Kyriale numera dezoito séries de melodias, chamadas “Missas”, e indica o tipo de dia de cada uma. Várias levam o nome de um antigo tropo, texto que outrora se cantava sobre a melodia do Kyrie: Lux et origo, Orbis factor. As indicações abaixo são as do Liber Usualis de 1961, já adaptadas às rubricas de 1960; são recomendações, e cada coro escolhe também segundo suas forças. O Credo tem seis melodias à parte.
| Missa | Nome | Uso indicado |
|---|---|---|
| I | Lux et origo | Tempo Pascal |
| II | Kyrie fons bonitatis | Festas de 1ª classe |
| VIII | De Angelis | Festas de 2ª classe; talvez a mais conhecida, embora tardia (Kyrie dos séculos XV–XVI) |
| IX | Cum jubilo | Festas de Nossa Senhora |
| XI | Orbis factor | Domingos do ano |
| XVI | — | Férias do ano |
| XVII | — | Domingos do Advento e da Quaresma |
| XVIII | Deus Genitor alme | Férias do Advento e da Quaresma, vigílias, Têmporas e Rogações |
| Defuntos | — | Kyrie, Sanctus e Agnus Dei próprios (este com dona eis réquiem), sem Glória nem Credo |
| Credo I e III | — | O I é o mais antigo (manuscritos do século XI); o III, provavelmente do século XVII, é muito conhecido |
A polifonia sacra
AprofundarA polifonia é o canto a várias vozes independentes sobre o mesmo texto. Nasceu na Idade Média dos próprios motivos do gregoriano, e a instrução de 1958 a define como canto medido, a várias vozes, sem acompanhamento instrumental (n. 6). São Pio X reconhece no gregoriano as qualidades da música sacra e também na polifonia clássica, “especialmente na da escola romana”, que no século XVI atingiu sua maior perfeição com Palestrina (Tra le sollecitudini, n. 4, tradução nossa). Na Missa tradicional, ela costuma revestir o Ordinário, enquanto o Próprio se canta em gregoriano.
Palestrina e a Missa do Papa Marcelo
Giovanni Pierluigi da Palestrina (c. 1525–1594) serviu quase toda a vida às igrejas de Roma, como mestre de capela de São Pedro, de São João de Latrão e de Santa Maria Maior, e deixou mais de cem Missas. A Missa Papae Marcelli, a seis vozes, foi impressa em 1567 no segundo livro de Missas, dedicado a Filipe II da Espanha. Seu estilo, em boa parte silábico no Glória e no Credo, deixa ouvir as palavras com clareza; em torno dela nasceu uma lenda que convém distinguir da história.
Victoria, Byrd e Lasso
Tomás Luis de Victoria (1548–1611), sacerdote espanhol formado em Roma, publicou em 1585 a música da Semana Santa (Officium Hebdomadae Sanctae) e em 1605 o Officium defunctorum, para as exéquias da imperatriz Maria. William Byrd (c. 1540–1623), católico na Inglaterra de Isabel I, onde a Missa era proibida, publicou discretamente nos anos 1590 três Missas e, em 1605 e 1607, os Gradualia, com os Próprios das principais festas. Orlando di Lasso (c. 1532–1594), flamengo a serviço da corte da Baviera, deixou cerca de sessenta Missas e centenas de motetes.
Música sacra no Brasil
No Brasil colonial, em Minas Gerais, José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746?–1805), nascido na Vila do Príncipe, hoje Serro, foi organista no Arraial do Tejuco, atual Diamantina, depois em Vila Rica e no Rio, onde morreu; sua obra foi redescoberta em grande parte por Francisco Curt Lange, a partir dos anos 1940. No Rio, o padre José Maurício Nunes Garcia (1767–1830) foi mestre de capela da Sé desde 1798 e da Capela Real desde 1808; seu Requiem de 1816 foi composto para as exéquias de D. Maria I. São obras de estilo orquestral, anteriores à reforma de São Pio X, para quem a música própria da Igreja é a puramente vocal, embora se permita também o órgão (n. 15, tradução nossa).
O órgão e o silêncio
AprofundarO gregoriano não exige por natureza o órgão (instrução de 1958, n. 5), mas o órgão de tubos tem na Igreja latina um lugar de honra: São Pio X quer que ele apenas sustente o canto, sem jamais o abafar (n. 16), e o Vaticano II diz que ele pode elevar poderosamente o espírito a Deus (Sacrosanctum Concilium, art. 120). Para a Missa de 1962, valem as normas de 1958, resumidas abaixo. Como todo ornamento, porém, ele segue o grau de alegria de cada dia e de cada tempo (instrução de 1958, n. 80), e o calendário conhece longos períodos em que é proibido, salvo para sustentar as vozes.
| Tempo ou dia | O órgão |
|---|---|
| Advento, das I Vésperas do 1º domingo à Noa da Vigília de Natal | Proibido; só para sustentar o canto (n. 83c) |
| 3º domingo do Advento (Gaudete) e 4º da Quaresma (Laetare) | Permitido (órgão ou harmônio, não outros instrumentos) |
| Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima e as férias seguintes | Órgão permitido; os demais instrumentos, não (n. 82) |
| Quaresma e Tempo da Paixão, da Quarta-feira de Cinzas ao Glória da Vigília Pascal | Proibido; só para sustentar o canto |
| Quinta-feira Santa: Missa do Crisma e Missa in Cena Domini até o fim do Glória | Órgão ou harmônio permitidos |
| Do fim desse Glória até o Glória da Vigília Pascal (Tríduo Sacro) | Silêncio completo, sem exceção, nem nos exercícios de piedade (n. 84) |
| Missas e ofícios de defuntos; quarta, sexta e sábado das Têmporas de setembro (se a Missa e o Ofício são do dia) | Proibido; só para sustentar o canto |
| Festas de preceito (exceto domingos), padroeiro, dedicação ou título da igreja, solenidade extraordinária | Permitido mesmo nesses tempos (n. 83a) |
Gaudete e Laetare são as duas pausas de alegria no meio da penitência: o sacerdote pode usar paramentos cor-de-rosa, e o órgão volta a soar. No resto do Tríduo, o silêncio é total, e a instrução pede que se explique aos fiéis a razão desse silêncio litúrgico (n. 85). O retorno do órgão e dos sinos no Glória da Vigília Pascal é um dos momentos mais comoventes do ano. As cores e os tempos estão em O ano litúrgico.
O Cânon em silêncio
O silêncio mais profundo da Missa é o do Cânon. Depois do Sanctus, o sacerdote reza em voz baixa; só se ouvem, um pouco mais alto, Nobis quoque peccatóribus e, ao fim do Cânon, o Per ómnia sǽcula sæculórum, que o povo conclui com o Amen. A origem do costume parece ligada ao canto: quando o Sanctus passou a ser cantado longamente, o celebrante seguiu suas orações em voz baixa; os estudiosos situam sua generalização no mundo franco, nos séculos VIII e IX. O Concílio de Trento defendeu o rito “em que parte do Cânon e as palavras da consagração se pronunciam em voz baixa” (sessão XXII, cân. 9, tradução nossa).
Na Missa cantada, o Sanctus e o Benedictus em gregoriano cantam-se seguidos, antes da consagração; numa versão polifônica, o Benedictus fica para depois dela (instrução de 1958, n. 27d). Durante a consagração cessa todo canto e, onde é costume, também o órgão; depois, recomenda-se um silêncio sagrado até o Pater noster (n. 27e–f). Esse silêncio não é vazio: nele estão a elevação, a campainha, a adoração de joelhos. O sentido do Cânon está em Teologia do rito.
Para a formação
FormaçãoOs oito modos
Os oito modos, sistema aparentado ao oktoechos bizantino e adotado pelos teóricos carolíngios, agrupam-se dois a dois em torno de quatro finais (ré, mi, fá, sol): protus, deuterus, tritus e tetrardus. O modo autêntico (ímpar) desenvolve-se acima da final; o plagal (par), em torno dela; cada um tem uma corda de recitação, a dominante, e seu tom salmódico (são oito, mais o tonus peregrinus). Exemplos: os Intróitos Gaudeamus omnes (modo I), Dominus dixit ad me, da Missa da meia-noite de Natal (II), Resurrexi, da Páscoa (IV), Puer natus est, do dia de Natal (VII), e Ad te levavi, do 1º domingo do Advento (VIII).
| Modo | Grupo | Final | Dominante |
|---|---|---|---|
| I | protus autêntico | ré | lá |
| II | protus plagal | ré | fá |
| III | deuterus autêntico | mi | dó (antes, si) |
| IV | deuterus plagal | mi | lá |
| V | tritus autêntico | fá | dó |
| VI | tritus plagal | fá | lá |
| VII | tetrardus autêntico | sol | ré |
| VIII | tetrardus plagal | sol | dó |
Ler a notação quadrada
- Claves e bemol
- Marcam a linha do dó ou do fá. A única alteração é o si bemol, válido na palavra e até a barra seguinte.
- Neumaspunctum, virga, pes, clivis
- Punctum e virga: uma nota. Pes: duas, subindo; clivis: duas, descendo. Torculus sobe e desce; porrectus desce e sobe. O quilisma, de traço serrilhado, canta-se leve, e a nota que o precede se alonga.
- Barras, guia, asteriscocustos
- Barras marcam pausas; o guia anuncia a nota da linha seguinte; o asterisco, onde o coro continua após a entoação; ij e iij mandam repetir.
- Sinais de Solesmes
- O ponto dobra a nota; o episema horizontal alarga levemente; o vertical marca o ictus. A instrução de 1958 os permite, desde que se respeite o valor das notas da Edição Vaticana (n. 59).
As escolas rítmicas
A notação quadrada mostra a altura das notas, não sua duração; daí o longo debate sobre o ritmo. Pothier defendia um ritmo livre, guiado pelo texto. Dom André Mocquereau (1849–1930) desenvolveu o método de Solesmes, exposto em Le nombre musical grégorien (1908 e 1927): pulsação de base igual, grupos de duas e três notas e o ictus como apoio rítmico independente do acento; é o método do Liber Usualis. Depois, Dom Eugène Cardine estudou os neumas de São Galo e de Laon, que registram nuances de duração; sua Semiologia gregoriana (1968) fundou a escola semiológica, que abandona o ictus.
As escolas convivem. O método de Solesmes dá regras claras e unidade a um coro amador; a semiologia segue mais de perto os manuscritos, com o auxílio do Graduale Triplex (1979), que imprime os neumas antigos junto à notação quadrada. Muitos estudiosos julgam que vários pressupostos de Mocquereau não se sustentam diante das fontes; outros defendem o valor prático do seu método. Os mensuralistas, que davam às notas valores proporcionais, são minoria. A instrução de 1958 exige apenas o respeito ao texto e às notas dos livros aprovados.
O canto do celebrante e dos ministros
Na Missa solene, o sacerdote canta as orações, o Prefácio e o Pater noster; o diácono canta o Evangelho e o Ite, missa est, e o subdiácono, a Epístola. Na Missa cantata, que não tem ministros sagrados, as rubricas do Missal dizem o que o celebrante canta. A instrução de 1958 manda que essas partes se cantem exclusivamente em gregoriano, segundo as edições típicas, e sem acompanhamento de instrumento (n. 16b); o coro e o povo, quando respondem, também só em gregoriano. As melodias constam do Missal e do Liber Usualis, com um tom solene e outro mais simples para o Prefácio e para o Pater noster, escolhidos conforme o grau do dia. Quando um indulto permite repetir a Epístola e o Evangelho em vernáculo, isso se faz lendo, em voz alta e clara, sem modulação gregoriana (n. 16c).
A instrução de 1958 em resumo
- Missa cantada (n. 3): é a Missa em que o celebrante canta o que as rubricas mandam cantar; com ministros sagrados, chama-se solene; sem eles, Missa cantata.
- Latim (n. 14a): nas Missas cantadas, usado pelo sacerdote, pelo coro e pelos fiéis.
- Graus de participação: três na Missa cantada (n. 25), quatro na rezada (n. 31).
- Nenhum texto se omite (n. 21): o que o coro não pode cantar com a melodia do livro, canta inteiro recto tono ou num tom de salmo.
Como uma schola prepara o Próprio
- Verificar no Ordo do ano a Missa do dia: classe, comemorações, Glória, Credo e Sequência.
- Localizar o Próprio no Graduale ou no Liber Usualis, atento a Trato ou Aleluia.
- Ler e traduzir o texto antes da melodia; identificar modo, entoação e respirações; decidir quem entoa até o asterisco.
- Ajustar à cerimônia: o Intróito pode receber mais versículos se a entrada for longa; a antífona da Comunhão canta-se enquanto o celebrante comunga e, havendo fiéis a comungar, começa quando ele passa a distribuir a Comunhão (n. 27a e c).
Livros de canto
- Graduale Romanum, Edição Vaticana (1908) e reedições até o início dos anos 1960.
- Liber Usualis, de preferência numa edição adaptada às rubricas de 1960, como a de 1961 (a Edição Vaticana de que ele parte é a de 1908); há reimpressões.
- Antiphonale Romanum (1912), para as Vésperas e as demais Horas.
- Graduale Triplex (Solesmes, 1979), com os neumas de Laon e de São Galo, para o estudo semiológico.
Fontes
- Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium (4 de dezembro de 1963), arts. 36, 54, 116 e 120
- São Pio X, motu proprio Tra le sollecitudini (22 de novembro de 1903)
- São João XXIII, constituição apostólica Veterum Sapientia (22 de fevereiro de 1962), texto latino
- Sagrada Congregação dos Ritos, instrução De musica sacra et sacra liturgia (3 de setembro de 1958), trad. inglesa
- Concílio de Trento, sessão XXII (17 de setembro de 1562), trad. inglesa de Waterworth
- The Liber Usualis, with Introduction and Rubrics in English (Desclée, 1961): regras de pronúncia (pp. xxxvi–xxxix) e Kyriale
- Missale Romanum, editio typica 1962 (digitalização)
- Divinum Officium: Ordo Missae segundo as rubricas de 1960, texto latino
- Santo Isidoro de Sevilha, Etymologiae, livro IX (texto latino)
- “Gregorian Chant” — Catholic Encyclopedia (1909)
- “Plain Chant” — Catholic Encyclopedia (1911)
- G. C. Alston, “Abbey of St. Solesmes” — Catholic Encyclopedia (1912)
- “Giovanni Pierluigi da Palestrina” — Catholic Encyclopedia (1911)
- “Canon of the Mass” — Catholic Encyclopedia (1908)
- “The Missa Papae Marcelli and its context” (blog da editora Carus)
- Uwe Michael Lang, The Roman Mass: From Early Christian Origins to Tridentine Reform (Cambridge University Press, 2022), cap. 4
- Christine Mohrmann, Liturgical Latin: Its Origins and Character (Washington, 1957)
- Willi Apel, Gregorian Chant (Bloomington, 1958)
- Cleofe Person de Mattos, José Maurício Nunes Garcia: biografia (Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional)
- Francisco Curt Lange, Os compositores na Capitania Geral das Minas Gerais (Marília, 1965)