A resposta em poucas linhas
Não. A Missa Tridentina não foi inventada no século XVI. São Pio V publicou, em 1570, um Missal que fixava e uniformizava o rito que a Igreja de Roma já celebrava, com poucas diferenças, havia séculos.
- O Cânon Romano, o coração da Missa, tem testemunho no fim do século IV e já estava, no essencial, como hoje no tempo de São Gregório Magno, por volta do ano 600.
- As leituras, as coletas, o Kyrie, o prefácio e o Pai-Nosso pertencem às primeiras camadas, dos séculos II a V.
- As orações ao pé do altar, do ofertório e do fim da Missa cresceram na Idade Média, entre os séculos IX e XIII, e só foram fixadas para toda a Igreja em 1570.
O que São Pio V fez em 1570
O Concílio de Trento, encerrado em 1563, pediu a reforma dos livros litúrgicos. Quem a concluiu foi São Pio V, que publicou o Missal Romano pela bula Quo primum, de 14 de julho de 1570. Daí os dois nomes: Missa “Tridentina” e Missa “de São Pio V” (veja por que “Tridentina”).
À primeira vista, parece o que Paulo VI faria em 1969: um papa promulga um Missal novo. Mas os fatos são outros. O Missal de 1570 reproduz, com ajustes, o missal da Cúria Romana, que já circulava impresso desde 1474. Quase um século antes, a mesma Missa estava num livro impresso.
O objetivo era a uniformidade. Pio V não compôs orações novas, mas fixou textos que variavam de lugar para lugar (as orações ao pé do altar, as do ofertório, as do fim da Missa) e cortou o que era recente ou local: reduziu as sequências, eliminou tropos, enxugou o calendário de santos. Preservou os ritos com mais de 200 anos de uso, como o dos dominicanos e o de Braga. Para o detalhe, veja a história do Missal e as mudanças ao longo dos séculos.
- c. 155
São Justino descreve a Missa
Leituras, homilia, oferta do pão e do vinho, oração, comunhão: o esqueleto que permanece.
- c. 390
Santo Ambrósio cita o Cânon
É o testemunho mais antigo de textos que ainda rezamos no Cânon Romano.
- c. 600
São Gregório Magno
O Cânon chega, no essencial, à forma atual; a Missa romana se organiza em torno dele.
- sécs. IX–XIII
Crescem as orações do padre
Ofertório, pé do altar, Placeat, bênção e Último Evangelho entram como devoção e se espalham.
- 1474
Primeiro Missal Romano impresso
Edição de Milão do missal da Cúria Romana.
- 1570
São Pio V promulga o Missal
Fixa e uniformiza o rito já existente para toda a Igreja latina, com a bula Quo primum.
- 1604 e 1634
Revisões de Clemente VIII e Urbano VIII
Ajustes de texto e rubricas, sem mudar o rito.
- 1962
Missal de São João XXIII
A última edição do Missal Tridentino; inclui o nome de São José no Cânon.
- 1969
Novo Ordinário da Missa, de Paulo VI
Esta, sim, é uma reforma do rito.
Como ler as datas
O método do professor é procurar, para cada parte da Missa, o primeiro registro que se conhece. Isso exige cuidado, e ele mesmo o diz: a data do primeiro registro não é a data em que a parte nasceu. Quando um costume aparece num documento, em geral já era praticado havia tempo. Por isso, “séc. V” quer dizer “muito provavelmente antes”.
As camadas do rito
O gráfico abaixo mostra o que o vídeo revela: a Missa Tridentina é um rito construído em camadas. As partes centrais são antiquíssimas. As orações do padre, no começo e no fim, são medievais. E todas elas têm registro séculos antes de 1570.
Leituras: Epístola e Evangelho
séc. IIDiálogo do prefácio
séc. IIIPai-Nosso na Missa
séc. IVCânon RomanoSanto Ambrósio
c. 390Intróito, Kyrie, Gradual
séc. VGlóriasó para o bispo, em Roma
c. 500Agnus Deisegundo o Liber Pontificalis
c. 690Sequências
séc. IXOrações do ofertório
séc. IX–XICredo (em Roma)no Oriente, séc. V
1014Orações ao pé do altar
séc. XI–XIIBênção e Último Evangelhodevoção do padre
séc. XI–XIII
Da entrada ao Credo
A primeira parte, que os antigos chamavam de Missa dos catecúmenos, vai das orações ao pé do altar até o Credo.
| Parte | Primeiro registro | Em resumo |
|---|---|---|
| Orações ao pé do altar | séc. XI–XII | Eram preparação privada do padre; o texto único é de 1570. |
| Confiteor | séc. VIII–IX; na Missa, X–XI | Antecedentes penitenciais antigos; a forma atual é de 1570. |
| Incensação do altar | séc. XI–XII, no uso latino | O costume é muito antigo no Oriente; Santo Ambrósio já fala de incenso junto ao altar. |
| Intróito | séc. V | A tradição atribui o canto de entrada ao Papa Celestino I (422–432). |
| Kyrie | séc. V | São Gregório Magno explica o uso romano por volta de 598. |
| Glória | c. 500 | O hino é grego, dos séculos III–IV; em Roma, só o bispo o rezava, e os padres, no fim do séc. XI. |
| Coleta | séc. V–VII | Estão fixadas nos antigos sacramentários romanos. |
| Epístola e Evangelho | séc. II | São Justino, por volta de 155, já descreve a leitura dos apóstolos e profetas. |
| Gradual, Trato e Sequência | séc. V; sequências, séc. IX | Pio V conservou só poucas sequências. |
| Credo | séc. V (Oriente); 1014 (Roma) | É o Credo niceno-constantinopolitano. |
Do ofertório ao prefácio
Aqui começa a Missa dos fiéis. O ofertório é a parte mais recente deste bloco: as orações vieram, em boa parte, de usos francos e hispânicos, e foi Pio V quem as fixou.
| Parte | Primeiro registro | Em resumo |
|---|---|---|
| Orações do ofertório | séc. IX–XI | O conjunto atual aparece no Ordo Romanus XIV, do séc. XIV, e foi adotado em 1570. |
| Suscipe, sancta Trinitas | séc. XI | Pio V a tornou obrigatória em toda a Igreja. |
| Lavabo | séc. IV (lavar as mãos) | Cirilo de Jerusalém já descreve o gesto; as orações são medievais. |
| Orate, fratres | séc. IX | Atestado em livros francos. |
| Diálogo do prefácio | séc. III | Sursum corda, já em Hipólito e Cipriano. |
| Prefácio e Sanctus | séc. IV–V | O Sanctus entra no Cânon romano por volta do séc. V. |
O Cânon Romano
O Cânon é a oração central, e o professor insiste, com razão, que não se pode dizer quem o escreveu nem quando. O testemunho mais antigo é o de Santo Ambrósio, por volta de 390, e a forma final se fixa com São Gregório Magno, no fim do século VI.
| Parte | Primeiro registro | Em resumo |
|---|---|---|
| Te igitur e Memento dos vivos | séc. IV–V | O padre reza pela Igreja, pelo Papa e pelo bispo. |
| Communicantes e Hanc igitur | séc. V–VI | A lista de santos se fixa nesse período; Gregório acrescentou o pedido final do Hanc igitur. |
| Quam oblationem, Unde et memores, Supra quae, Supplices | séc. IV | Já aparecem, quase como hoje, em Santo Ambrósio. |
| Palavras da consagração | séc. I (a Ceia) | As palavras do Senhor; sua forma dentro do Cânon é atestada no séc. IV. |
| Nobis quoque e Per ipsum | séc. V–VI | Fecham o Cânon. |
Da comunhão ao fim
| Parte | Primeiro registro | Em resumo |
|---|---|---|
| Pai-Nosso | séc. IV (na Missa) | É oração cristã desde o início; São Gregório o fixou depois do Cânon. |
| Agnus Dei | c. 690 | O Liber Pontificalis atribui o canto ao Papa Sérgio I; a atribuição é discutida. |
| Orações antes da comunhão | séc. X–XI | Nasceram como devoção do padre. |
| Comunhão dos fiéis | séc. IV ou antes | É o gesto central, desde os primeiros séculos. |
| Ite, missa est | séc. IV–V (a palavra); c. 700 (a fórmula) | “Missa” como despedida; a fórmula aparece nos antigos Ordines. |
| Placeat, bênção e Último Evangelho | séc. XI–XIII | Eram devoções do padre; entraram no Missal Romano em 1570. |
O Último Evangelho, o prólogo de São João, é o acréscimo mais tardio do rito. Não foi inventado por Pio V: era devoção privada dos sacerdotes, que ele acolheu como parte do Missal.
É a “Missa de sempre”?
O vídeo nasce de uma discussão: quem chama a Missa Tridentina de “Missa de sempre” e quem responde que ela é do século XVI. “Missa de sempre” é uma expressão devocional, e o site a explica em O nome da Missa. O professor propõe três razões para aceitá-la em sentido bem definido:
- Cresceu como um organismo. Os elementos foram entrando de modo natural, sem ruptura. Por isso não há um autor para a Missa Tridentina. É a mesma Missa em fases diferentes, como o bebê e o adulto são a mesma pessoa.
- É a Missa romana e ocidental de sempre. Os ritos orientais também são antigos, e o Ocidente teve outros ritos, como o ambrosiano. Mas o rito de Roma é o que se estende desde São Pedro até o Missal de Pio V.
- Pela promessa da bula. Quo primum concede aos sacerdotes o uso do Missal “em perpétuo”, sem escrúpulo de consciência.
O professor lembra ainda a expressão do Cânon “este preclaro cálice”, que leria como sinal de que o papa usava, em Roma, o cálice da Última Ceia. Esse é um argumento devocional, não histórico: praeclarus é um elogio ritual (o mesmo adjetivo qualifica a “majestade” de Deus no Cânon), e o Santo Cálice de Valência, copo de ágata dos séculos II a.C.–I d.C. montado na Idade Média, é venerado por tradição, com o primeiro inventário documentado em 1134.
Onde convém afinar o vídeo
Um vídeo de divulgação simplifica, e este é bom e claro. Como o site confere as datas com outras fontes, aqui estão os pontos em que elas pedem mais cautela. A conclusão central não muda: todas as partes da Missa têm registro séculos antes de 1570.
| No vídeo | O que as fontes acrescentam |
|---|---|
| O Cânon só mudou com Gregório Magno e com João XXIII. | Houve retoques: em 1570 saiu do Te igitur a menção ao soberano, que alguns reis obtiveram licença para manter. São José, em 1962, é a mudança de maior vulto. |
| O “Missal de Sisto IV”. | A primeira edição impressa é a de Milão, 1474, no pontificado de Sisto IV (1471–1484), mas ele não a promulgou: é o missal da Cúria Romana. |
| Último Evangelho, séc. XIII. | Era devoção privada dos séculos XI–XII; só em 1570 entrou no Missal Romano. |
| Bênção final, séc. VII. | Em Roma, é tardia: séculos XI–XIII, e oficial em 1570. |
| Credo, séc. V. | É do séc. V no Oriente; a Missa romana só o canta a partir de 1014. |
| Pai-Nosso, séc. III. | Como oração cristã, sim; como parte da Missa, séc. IV. Gregório só o deslocou para depois do Cânon. |
| Glória: Natal e depois os domingos. | Segundo o Liber Pontificalis, Símaco o mandou dizer aos domingos e festas de mártires; em Roma, só o bispo o rezava. |
| Carta de Inocêncio I aos bispos da Espanha. | A carta da citação é a Decêncio, bispo de Gubbio, em 416. |
| “Este preclaro cálice” prova o cálice da Ceia. | É tradição devocional, não documento histórico. |
Para continuar
- O rito, parte a parte: cada oração, com origem, gesto e sentido.
- A história da Missa: das origens a São Pio V, com a tabela “recebido e fixado”.
- Através dos séculos: de 1570 a hoje.
- Perguntas frequentes: as dúvidas mais comuns, respondidas com fontes.
Perguntas rápidas
São Pio V criou a Missa Tridentina?
Não. Em 1570 ele promulgou e uniformizou um Missal baseado no da Cúria Romana, já impresso desde 1474, que reunia usos de séculos. Não compôs um rito novo.
Qual é a parte mais antiga da Missa Tridentina?
As leituras e a estrutura geral já aparecem em São Justino, por volta de 155, e o Cânon Romano tem testemunho em Santo Ambrósio, por volta de 390.
Qual é a parte mais recente?
O Último Evangelho, o Placeat e a bênção final, devoções do sacerdote da Idade Média que o Missal de 1570 incorporou. A mudança mais notável depois disso foi o nome de São José no Cânon, em 1962.
Posso chamá-la de “Missa de sempre”?
É uma expressão devocional. Em sentido definido, há continuidade do rito romano desde a Antiguidade, mas o rito tem história, e o nome mais preciso é Missa Tridentina ou Missa no Rito Antigo.
Quem escreveu o Cânon Romano?
Não se sabe: não tem autor nem data de composição. O testemunho mais antigo é de Santo Ambrósio, por volta de 390, e São Gregório Magno o deixou, no essencial, como é hoje.
Fontes
- Lucas Lancaster (Escola de História da Igreja), vídeo “Missa de Sempre ou Missa do Século XVI?”, base deste guia
- São Pio V, bula Quo primum, 14 de julho de 1570
- Fortescue, The Mass: A Study of the Roman Liturgy (1912)
- Catholic Encyclopedia, “Liturgy of the Mass”
- Catholic Encyclopedia, “Gloria in excelsis”
- São Gregório Magno, Carta IX, 12 (sobre o Kyrie e o Pai-Nosso)
- Roman Missal, história das edições de 1474 a 1570
- History of the Roman Canon
- Santo Cálice de Valência: o que se sabe