Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Quando surgiu a Missa Tridentina? Do século XVI ou “de sempre”?

A Missa Tridentina não foi criada no século XVI. Em 1570, São Pio V fixou e uniformizou um rito romano que já existia, quase por inteiro, havia séculos: o Cânon tem testemunho no fim do século IV, e as últimas camadas se formaram na Idade Média.

Este artigo se baseia em um vídeo

Missa de Sempre ou Missa do Século XVI? – História da Missa Tridentina, do professor Lucas Lancaster, no canal Lucas Lancaster, Escola de História da Igreja (24 min 48 s).

As pesquisas e as conclusões são do professor. Aqui elas foram reorganizadas, explicadas por partes e conferidas com outras fontes. Assista ao vídeo e conheça o canal.

História ·

A resposta em poucas linhas

Não. A Missa Tridentina não foi inventada no século XVI. São Pio V publicou, em 1570, um Missal que fixava e uniformizava o rito que a Igreja de Roma já celebrava, com poucas diferenças, havia séculos.

  • O Cânon Romano, o coração da Missa, tem testemunho no fim do século IV e já estava, no essencial, como hoje no tempo de São Gregório Magno, por volta do ano 600.
  • As leituras, as coletas, o Kyrie, o prefácio e o Pai-Nosso pertencem às primeiras camadas, dos séculos II a V.
  • As orações ao pé do altar, do ofertório e do fim da Missa cresceram na Idade Média, entre os séculos IX e XIII, e só foram fixadas para toda a Igreja em 1570.

O que São Pio V fez em 1570

O Concílio de Trento, encerrado em 1563, pediu a reforma dos livros litúrgicos. Quem a concluiu foi São Pio V, que publicou o Missal Romano pela bula Quo primum, de 14 de julho de 1570. Daí os dois nomes: Missa “Tridentina” e Missa “de São Pio V” (veja por que “Tridentina”).

À primeira vista, parece o que Paulo VI faria em 1969: um papa promulga um Missal novo. Mas os fatos são outros. O Missal de 1570 reproduz, com ajustes, o missal da Cúria Romana, que já circulava impresso desde 1474. Quase um século antes, a mesma Missa estava num livro impresso.

O objetivo era a uniformidade. Pio V não compôs orações novas, mas fixou textos que variavam de lugar para lugar (as orações ao pé do altar, as do ofertório, as do fim da Missa) e cortou o que era recente ou local: reduziu as sequências, eliminou tropos, enxugou o calendário de santos. Preservou os ritos com mais de 200 anos de uso, como o dos dominicanos e o de Braga. Para o detalhe, veja a história do Missal e as mudanças ao longo dos séculos.

  1. c. 155

    São Justino descreve a Missa

    Leituras, homilia, oferta do pão e do vinho, oração, comunhão: o esqueleto que permanece.

  2. c. 390

    Santo Ambrósio cita o Cânon

    É o testemunho mais antigo de textos que ainda rezamos no Cânon Romano.

  3. c. 600

    São Gregório Magno

    O Cânon chega, no essencial, à forma atual; a Missa romana se organiza em torno dele.

  4. sécs. IX–XIII

    Crescem as orações do padre

    Ofertório, pé do altar, Placeat, bênção e Último Evangelho entram como devoção e se espalham.

  5. 1474

    Primeiro Missal Romano impresso

    Edição de Milão do missal da Cúria Romana.

  6. 1570

    São Pio V promulga o Missal

    Fixa e uniformiza o rito já existente para toda a Igreja latina, com a bula Quo primum.

  7. 1604 e 1634

    Revisões de Clemente VIII e Urbano VIII

    Ajustes de texto e rubricas, sem mudar o rito.

  8. 1962

    Missal de São João XXIII

    A última edição do Missal Tridentino; inclui o nome de São José no Cânon.

  9. 1969

    Novo Ordinário da Missa, de Paulo VI

    Esta, sim, é uma reforma do rito.

Como ler as datas

O método do professor é procurar, para cada parte da Missa, o primeiro registro que se conhece. Isso exige cuidado, e ele mesmo o diz: a data do primeiro registro não é a data em que a parte nasceu. Quando um costume aparece num documento, em geral já era praticado havia tempo. Por isso, “séc. V” quer dizer “muito provavelmente antes”.

As camadas do rito

O gráfico abaixo mostra o que o vídeo revela: a Missa Tridentina é um rito construído em camadas. As partes centrais são antiquíssimas. As orações do padre, no começo e no fim, são medievais. E todas elas têm registro séculos antes de 1570.

Primeiro registro conhecido de cada parte da Missa, até o Missal de 1570
  1. Leituras: Epístola e Evangelho

    séc. II
  2. Diálogo do prefácio

    séc. III
  3. Pai-Nosso na Missa

    séc. IV
  4. Cânon RomanoSanto Ambrósio

    c. 390
  5. Intróito, Kyrie, Gradual

    séc. V
  6. Glóriasó para o bispo, em Roma

    c. 500
  7. Agnus Deisegundo o Liber Pontificalis

    c. 690
  8. Sequências

    séc. IX
  9. Orações do ofertório

    séc. IX–XI
  10. Credo (em Roma)no Oriente, séc. V

    1014
  11. Orações ao pé do altar

    séc. XI–XII
  12. Bênção e Último Evangelhodevoção do padre

    séc. XI–XIII

Da entrada ao Credo

A primeira parte, que os antigos chamavam de Missa dos catecúmenos, vai das orações ao pé do altar até o Credo.

Missa dos catecúmenos: primeiro registro e o que as fontes acrescentam
PartePrimeiro registroEm resumo
Orações ao pé do altarséc. XI–XIIEram preparação privada do padre; o texto único é de 1570.
Confiteorséc. VIII–IX; na Missa, X–XIAntecedentes penitenciais antigos; a forma atual é de 1570.
Incensação do altarséc. XI–XII, no uso latinoO costume é muito antigo no Oriente; Santo Ambrósio já fala de incenso junto ao altar.
Intróitoséc. VA tradição atribui o canto de entrada ao Papa Celestino I (422–432).
Kyrieséc. VSão Gregório Magno explica o uso romano por volta de 598.
Glóriac. 500O hino é grego, dos séculos III–IV; em Roma, só o bispo o rezava, e os padres, no fim do séc. XI.
Coletaséc. V–VIIEstão fixadas nos antigos sacramentários romanos.
Epístola e Evangelhoséc. IISão Justino, por volta de 155, já descreve a leitura dos apóstolos e profetas.
Gradual, Trato e Sequênciaséc. V; sequências, séc. IXPio V conservou só poucas sequências.
Credoséc. V (Oriente); 1014 (Roma)É o Credo niceno-constantinopolitano.

Do ofertório ao prefácio

Aqui começa a Missa dos fiéis. O ofertório é a parte mais recente deste bloco: as orações vieram, em boa parte, de usos francos e hispânicos, e foi Pio V quem as fixou.

Ofertório e prefácio
PartePrimeiro registroEm resumo
Orações do ofertórioséc. IX–XIO conjunto atual aparece no Ordo Romanus XIV, do séc. XIV, e foi adotado em 1570.
Suscipe, sancta Trinitasséc. XIPio V a tornou obrigatória em toda a Igreja.
Lavaboséc. IV (lavar as mãos)Cirilo de Jerusalém já descreve o gesto; as orações são medievais.
Orate, fratresséc. IXAtestado em livros francos.
Diálogo do prefácioséc. IIISursum corda, já em Hipólito e Cipriano.
Prefácio e Sanctusséc. IV–VO Sanctus entra no Cânon romano por volta do séc. V.

O Cânon Romano

O Cânon é a oração central, e o professor insiste, com razão, que não se pode dizer quem o escreveu nem quando. O testemunho mais antigo é o de Santo Ambrósio, por volta de 390, e a forma final se fixa com São Gregório Magno, no fim do século VI.

As orações do Cânon
PartePrimeiro registroEm resumo
Te igitur e Memento dos vivosséc. IV–VO padre reza pela Igreja, pelo Papa e pelo bispo.
Communicantes e Hanc igiturséc. V–VIA lista de santos se fixa nesse período; Gregório acrescentou o pedido final do Hanc igitur.
Quam oblationem, Unde et memores, Supra quae, Supplicesséc. IVJá aparecem, quase como hoje, em Santo Ambrósio.
Palavras da consagraçãoséc. I (a Ceia)As palavras do Senhor; sua forma dentro do Cânon é atestada no séc. IV.
Nobis quoque e Per ipsumséc. V–VIFecham o Cânon.

Da comunhão ao fim

Pai-Nosso, comunhão e conclusão
PartePrimeiro registroEm resumo
Pai-Nossoséc. IV (na Missa)É oração cristã desde o início; São Gregório o fixou depois do Cânon.
Agnus Deic. 690O Liber Pontificalis atribui o canto ao Papa Sérgio I; a atribuição é discutida.
Orações antes da comunhãoséc. X–XINasceram como devoção do padre.
Comunhão dos fiéisséc. IV ou antesÉ o gesto central, desde os primeiros séculos.
Ite, missa estséc. IV–V (a palavra); c. 700 (a fórmula)“Missa” como despedida; a fórmula aparece nos antigos Ordines.
Placeat, bênção e Último Evangelhoséc. XI–XIIIEram devoções do padre; entraram no Missal Romano em 1570.

O Último Evangelho, o prólogo de São João, é o acréscimo mais tardio do rito. Não foi inventado por Pio V: era devoção privada dos sacerdotes, que ele acolheu como parte do Missal.

É a “Missa de sempre”?

O vídeo nasce de uma discussão: quem chama a Missa Tridentina de “Missa de sempre” e quem responde que ela é do século XVI. “Missa de sempre” é uma expressão devocional, e o site a explica em O nome da Missa. O professor propõe três razões para aceitá-la em sentido bem definido:

  1. Cresceu como um organismo. Os elementos foram entrando de modo natural, sem ruptura. Por isso não há um autor para a Missa Tridentina. É a mesma Missa em fases diferentes, como o bebê e o adulto são a mesma pessoa.
  2. É a Missa romana e ocidental de sempre. Os ritos orientais também são antigos, e o Ocidente teve outros ritos, como o ambrosiano. Mas o rito de Roma é o que se estende desde São Pedro até o Missal de Pio V.
  3. Pela promessa da bula. Quo primum concede aos sacerdotes o uso do Missal “em perpétuo”, sem escrúpulo de consciência.

O professor lembra ainda a expressão do Cânon “este preclaro cálice”, que leria como sinal de que o papa usava, em Roma, o cálice da Última Ceia. Esse é um argumento devocional, não histórico: praeclarus é um elogio ritual (o mesmo adjetivo qualifica a “majestade” de Deus no Cânon), e o Santo Cálice de Valência, copo de ágata dos séculos II a.C.–I d.C. montado na Idade Média, é venerado por tradição, com o primeiro inventário documentado em 1134.

Onde convém afinar o vídeo

Um vídeo de divulgação simplifica, e este é bom e claro. Como o site confere as datas com outras fontes, aqui estão os pontos em que elas pedem mais cautela. A conclusão central não muda: todas as partes da Missa têm registro séculos antes de 1570.

O vídeo e as fontes
No vídeoO que as fontes acrescentam
O Cânon só mudou com Gregório Magno e com João XXIII.Houve retoques: em 1570 saiu do Te igitur a menção ao soberano, que alguns reis obtiveram licença para manter. São José, em 1962, é a mudança de maior vulto.
O “Missal de Sisto IV”.A primeira edição impressa é a de Milão, 1474, no pontificado de Sisto IV (1471–1484), mas ele não a promulgou: é o missal da Cúria Romana.
Último Evangelho, séc. XIII.Era devoção privada dos séculos XI–XII; só em 1570 entrou no Missal Romano.
Bênção final, séc. VII.Em Roma, é tardia: séculos XI–XIII, e oficial em 1570.
Credo, séc. V.É do séc. V no Oriente; a Missa romana só o canta a partir de 1014.
Pai-Nosso, séc. III.Como oração cristã, sim; como parte da Missa, séc. IV. Gregório só o deslocou para depois do Cânon.
Glória: Natal e depois os domingos.Segundo o Liber Pontificalis, Símaco o mandou dizer aos domingos e festas de mártires; em Roma, só o bispo o rezava.
Carta de Inocêncio I aos bispos da Espanha.A carta da citação é a Decêncio, bispo de Gubbio, em 416.
“Este preclaro cálice” prova o cálice da Ceia.É tradição devocional, não documento histórico.

Para continuar

Perguntas rápidas

São Pio V criou a Missa Tridentina?

Não. Em 1570 ele promulgou e uniformizou um Missal baseado no da Cúria Romana, já impresso desde 1474, que reunia usos de séculos. Não compôs um rito novo.

Qual é a parte mais antiga da Missa Tridentina?

As leituras e a estrutura geral já aparecem em São Justino, por volta de 155, e o Cânon Romano tem testemunho em Santo Ambrósio, por volta de 390.

Qual é a parte mais recente?

O Último Evangelho, o Placeat e a bênção final, devoções do sacerdote da Idade Média que o Missal de 1570 incorporou. A mudança mais notável depois disso foi o nome de São José no Cânon, em 1962.

Posso chamá-la de “Missa de sempre”?

É uma expressão devocional. Em sentido definido, há continuidade do rito romano desde a Antiguidade, mas o rito tem história, e o nome mais preciso é Missa Tridentina ou Missa no Rito Antigo.

Quem escreveu o Cânon Romano?

Não se sabe: não tem autor nem data de composição. O testemunho mais antigo é de Santo Ambrósio, por volta de 390, e São Gregório Magno o deixou, no essencial, como é hoje.

Fontes

Todas as notícias