Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Te igitur

Te ígitur

É a primeira oração do Cânon: o sacerdote, em voz baixa, pede a Deus que aceite as oferendas e reza pela Igreja, pelo Papa e pelo bispo do lugar.

Parte de
Cânon Romano · Cânon Romano
Origem
séc. V · Patrístico romanoAbertura do Cânon Romano; a oração não consta do trecho do De Sacramentis (c. 380–390), mas o conjunto do Cânon já estava fixado no tempo de São Gregório Magno (590–604)
Quem
O sacerdote, sozinho, inclinado diante do altar · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos. Não há rubrica para os fiéis; o costume geral é ajoelhar-se desde o Sanctus (ou desde este ponto) e permanecer assim até depois da elevação do Cálice, muitos até o Pater noster.Missa cantada e solene: De joelhos, como na Missa rezada. Se o Sanctus é gregoriano, o Benedictus é cantado logo em seguida, sem pausa; se é polifônico, o Benedictus vem depois da Consagração. Durante a Consagração o canto cessa e os fiéis permanecem em silêncio e adoração.

O texto

Terminado o Prefácio, o sacerdote estende as mãos, eleva-as um pouco e junta-as; eleva os olhos ao céu e logo os abaixa; inclina-se profundamente diante do altar, com as mãos pousadas sobre ele, e diz em voz baixa:

S.

Te ígitur, clementíssime Pater, per Jesum Christum, Fílium tuum, Dóminum nostrum, súpplices rogámus, ac pétimus,

Vós, pois, clementíssimo Pai, por Jesus Cristo, vosso Filho, nosso Senhor, suplicantes vos rogamos e pedimos

Beija o altar e, de mãos juntas diante do peito, continua:

S.

uti accépta hábeas et benedícas,

que aceiteis e abençoeis

Faz três sinais da cruz sobre a Hóstia e o Cálice ao mesmo tempo, dizendo:

S.

hæc ✠ dona, hæc ✠ múnera, hæc ✠ sancta sacrifícia illibáta,

estes ✠ dons, estes ✠ presentes, estes ✠ santos sacrifícios imaculados,

Estende as mãos e prossegue:

S.

in primis, quæ tibi offérimus pro Ecclésia tua sancta cathólica: quam pacificáre, custodíre, adunáre et régere dignéris toto orbe terrárum: una cum fámulo tuo Papa nostro N. et Antístite nostro N. et ómnibus orthodóxis, atque cathólicæ et apostólicæ fídei cultóribus.

que, antes de tudo, vos oferecemos pela vossa santa Igreja católica: dignai-vos pacificá-la, guardá-la, uni-la e governá-la por todo o orbe da terra; juntamente com o vosso servo, o nosso Papa N., e o nosso Bispo N., e todos os ortodoxos, cultores da fé católica e apostólica.

Explicação

Missal Romano de 1904 aberto no Cânon da Missa: à esquerda, a gravura da Crucificação com Nossa Senhora e São João; à direita, o título Canon Missae, o início do Te igitur com a inicial ilustrada e as rubricas impressas em vermelho.
Missal Romano datado de 1904, muito usado, aberto no Cânon da Missa, com texto em preto e rubricas em vermelho. Paróquia de Santa Catarina de Alexandria, Natércia (MG). Juliédson Artur Malaquias Reis · CC BY-SA 4.0

O que é

O Te igitur abre o Cânon Romano, a grande oração eucarística da Missa. Terminados o Prefácio e o Sanctus (veja o Ordinário completo, em latim e português), o sacerdote deixa de cantar ou de falar em voz alta e passa a dizer o Cânon em voz baixa, de modo que apenas ele mesmo o ouça. Dirige-se ao Pai “por Jesus Cristo” e faz três pedidos encadeados: que aceite e abençoe as oferendas ainda não consagradas (o pão e o vinho); que conceda à Igreja inteira a paz, a unidade e o bom governo; e que isso se realize em comunhão com o Papa, com o bispo do lugar e com todos os que guardam a fé católica e apostólica.

Para quem assiste pela primeira vez, é o momento em que a Missa parece recolher-se. Não é um silêncio vazio: é a Igreja que entra no coração do sacrifício, enquanto o sacerdote, inclinado e com as mãos sobre o altar, ora em nome de todos.

De onde vem

O Cânon Romano não é obra de um só autor nem de um só momento. A Enciclopédia Católica (1908) recorda a hipótese de que tenha sido ordenado no século IV, talvez no pontificado de São Dâmaso (366–384), quando o latim substituía o grego na liturgia de Roma; é uma conjetura, não um fato documentado. Um testemunho seguro do século IV é o tratado De Sacramentis, atribuído a Santo Ambrósio (c. 380–390), cuja autoria direta alguns estudiosos discutem, mas cujo valor como testemunho da época ninguém nega. Ele cita grande parte do Cânon, da oração Quam oblationem à Supra quæ, quase como a rezamos hoje. O Te igitur não está nessa citação, mas o mesmo tratado diz que no altar se reza “pelo povo, pelo rei e pelos demais”, sinal de que as intercessões já existiam. Na Idade Média o soberano continuava a ser nomeado depois do bispo (et pro rege nostro); a cláusula saiu do Missal de São Pio V, com privilégios para alguns príncipes católicos.

São Gregório Magno (590–604) recebeu o Cânon como oração já antiga; numa carta chega a atribuí-lo a “um certo Escolástico”, de identidade incerta. Desde o século VII o texto praticamente não mudou. O Concílio de Trento (Sessão XXII, 1562, cap. 4) ensina que a Igreja instituiu o sagrado Cânon “muitos séculos antes”, puro de todo erro e composto das palavras do Senhor, das tradições dos apóstolos e das piedosas instituições dos santos pontífices; e o cânon 6 condena quem disser que ele contém erros e deve ser abolido. A palavra igitur (“pois”, “portanto”) intriga os estudiosos, porque parece ligar a oração a algo que a precede. A explicação mais simples é que se liga ao Prefácio (“porque vos louvamos, então vos pedimos”); outros pensam que a ordem primitiva das orações era diferente e lembram que o Papa Inocêncio I, em carta a Decêncio de Gúbbio (416), parece supor as intercessões depois da consagração. O assunto continua em debate.

Segundo o Ordo Romanus I, o pontífice só entrava no Cânon quando o canto do Sanctus terminava (sobre a história, veja A história e Através dos séculos). A recitação em voz baixa afirma-se na Idade Média; Jungmann a situa entre os séculos VIII e IX. Mais tarde recebeu razões espirituais, que a Enciclopédia Católica resume: a reverência, o recolhimento, a imagem do silêncio de Cristo na Paixão.

O que significa

A abertura é um gesto de súplica (súpplices rogámus ac pétimus): “rogamos” com humildade, “pedimos” com confiança. O verbo central é uti accépta hábeas: que Deus tome as oferendas como suas. Os três nomes dados a elas (dona, múnera, sacrifícia) sugerem, na leitura tradicional, que são dádivas de Deus a nós, presentes que lhe devolvemos e, enfim, sacrifício. A palavra orthodóxis, rara no latim ocidental, é um vestígio grego (a Enciclopédia Católica a aproxima da anáfora de Antioquia) e designa os que professam a fé reta. A ordem das intercessões também ensina: a Igreja une-se ao Papa e ao bispo local porque a Eucaristia é sempre o sacrifício da Igreja inteira, nunca o de um grupo isolado.

Rubricas

  • Antes de começar, o sacerdote estende as mãos, ergue-as um pouco e as junta, eleva os olhos ao céu e logo os abaixa; então se inclina profundamente diante do altar, com as mãos pousadas sobre ele, e começa o Te igitur.
  • Terminado súpplices rogámus ac pétimus, beija o altar no meio, endireita-se e, de mãos juntas diante do peito, diz uti accépta hábeas et benedícas; em hæc dona, hæc múnera, hæc sancta sacrifícia faz três sinais da cruz sobre a Hóstia e o Cálice ao mesmo tempo. É a primeira das muitas bênçãos sobre as oferendas no Cânon.
  • Em seguida estende as mãos, na atitude antiga do orante, e continua. O primeiro N. é o nome do Pontífice reinante (a Enciclopédia Católica, de 1908, registra uma leve inclinação da cabeça a esse nome; o Ritus servandus de 1962 não a menciona); o segundo é o do bispo diocesano do lugar onde se celebra, mesmo quando o celebrante é religioso isento. Se a Sé de Roma está vacante, omite-se a menção ao Papa; se a sé do lugar está vacante, omite-se a menção ao bispo, e em Roma, onde o bispo é o próprio Papa, ela também não se diz.
  • Se o celebrante é bispo, arcebispo ou patriarca, diz et me indígno servo tuo no lugar de et Antístite nostro N.; o Papa, quando celebra, diz no lugar das duas menções una cum me indígno fámulo tuo, quem gregi tuo præésse voluísti.

Na Missa solene

Na Missa solene o celebrante reza o Cânon sozinho, em voz baixa, enquanto o diácono e o subdiácono permanecem em seus lugares; as ações dos ministros concentram-se nas elevações, e a schola pode ainda estar cantando o Sanctus quando ele começa a oração.

Fontes

  1. Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
  2. Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
  3. Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
  4. Santo Ambrósio (atribuído), De Sacramentis IV, 4–6 (c. 380–390)
  5. Concílio de Trento, Sessão XXII (17 de setembro de 1562), cap. 4 e cânon 6
  6. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948; ed. inglesa The Mass of the Roman Rite, 1951–1955), vol. II
  7. Sagrada Congregação dos Ritos, Instrução De musica sacra et sacra liturgia (3 de setembro de 1958), nn. 27 e 31