Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

A Consagração da Hóstia

Consecratio Hostiæ

É o momento central da Missa: o sacerdote repete as palavras de Cristo na Última Ceia, e o pão torna-se o Corpo do Senhor. O sacerdote adora, eleva a Hóstia e o povo adora.

Parte de
Cânon Romano · Consagração
Origem
séc. I · Apostólico e primeiros séculosPalavras da instituição na Última Ceia; forma do Cânon atestada no séc. IV (De Sacramentis); elevação ao povo a partir de c. 1200 (Paris)
Quem
O sacerdote, in persona Christi · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos, olhando a Hóstia quando é elevada (costume: dizer em silêncio “Meu Senhor e meu Deus”) e inclinando-se em adoração.Missa cantada e solene: De joelhos, como na Missa rezada; ouve-se a campainha e vê-se o incenso subir. O canto cessa durante a Consagração; se o Sanctus é polifônico, o Benedictus é cantado depois dela.

O texto

Continua:

S.

Qui prídie quam paterétur,

O qual, na véspera de sofrer,

Toma a Hóstia:

S.

accépit panem in sanctas ac venerábiles manus suas,

tomou o pão em suas santas e veneráveis mãos,

Eleva os olhos ao céu:

S.

et elevátis óculis in cælum ad te Deum, Patrem suum omnipoténtem,

e, elevando os olhos ao céu, a vós, Deus, seu Pai onipotente,

Inclina a cabeça:

S.

tibi grátias agens,

dando-vos graças,

Faz o sinal da cruz sobre a Hóstia:

S.

bene✠díxit, fregit, dedítque discípulis suis, dicens:

abençoou ✠, partiu e deu aos seus discípulos, dizendo:

S.

Accípite, et manducáte ex hoc omnes.

Tomai e comei todos disto:

Segurando a Hóstia entre os polegares e os indicadores de ambas as mãos, inclinado e com os cotovelos apoiados no altar, profere as palavras da consagração em segredo, com clareza e atenção, sobre a Hóstia (e ao mesmo tempo sobre todas as que houver para consagrar):

S.

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

PORQUE ISTO É O MEU CORPO.

Logo genuflexa e adora a Hóstia consagrada; levanta-se, mostra-a ao povo, repõe-na sobre o corporal e genuflexa de novo. Daqui em diante não separa mais o polegar do indicador, a não ser para tocar a Hóstia, até a ablução dos dedos. O acólito toca a campainha; na Missa solene o turiferário incensa o Santíssimo Sacramento.

Explicação

Sacerdote visto de costas, com casula roxa de cruz bordada, eleva a Hóstia diante do altar; um acólito de sobrepeliz está ajoelhado ao lado, e sobre o altar se veem o missal aberto, as sacras e grandes castiçais dourados.
A elevação da Hóstia depois da consagração, momento central da Missa tradicional, com o sacerdote voltado para o altar. Andrewgardner1 · CC BY 4.0

O que é

Tudo o que a Missa preparou converge aqui. O sacerdote retoma o relato da Última Ceia — Qui prídie quam paterétur, accépit panem… — e, chegando às palavras Hoc est enim corpus meum, fala in persona Christi, em nome e no lugar de Cristo. A fé da Igreja Católica é que, por essas palavras, a substância do pão se converte na substância do Corpo de Cristo; a esta mudança chamamos Transubstanciação. Permanecem as aparências do pão, mas já não é pão: é o Senhor, realmente presente (Presença real). Por isso, imediatamente depois das palavras, o sacerdote genuflexa, adora, ergue a Hóstia para que o povo a veja e adore, e genuflexa de novo.

De onde vem

O relato da instituição é a combinação, feita pela tradição litúrgica de Roma, dos quatro testemunhos do Novo Testamento: Mateus 26,26-28, Marcos 14,22-24, Lucas 22,19-20 e 1 Coríntios 11,23-25. A Enciclopédia Católica lembra que a frase “elevando os olhos ao céu” não está nos Evangelhos sobre a Última Ceia; é tradição, vinda do gesto de Cristo na multiplicação dos pães, e Bento XIV a discute como tal. A palavra enim (“pois”, “porque”) não está nos relatos da Última Ceia sobre o pão: é um acréscimo litúrgico antigo, que a Enciclopédia Católica atribui à analogia com a fórmula do cálice (em Mateus). O Cânon omite, depois de corpus meum, a continuação de Lucas e Paulo (“que é dado por vós”).

O De Sacramentis (c. 380–390), ao descrever o que se diz no altar, cita o relato quase como o temos: Qui pridie quam pateretur, in sanctis manibus suis accepit panem… accipite et edite ex hoc omnes: hoc est enim corpus meum. O trecho mostra que, em Milão, a forma da consagração era já muito próxima da romana (o autor declara querer seguir em tudo a Igreja romana) e atesta a antiguidade do núcleo do Cânon.

A elevação: uma história de cerca de 1200

A Elevação — o gesto de mostrar a Hóstia ao povo depois das palavras da consagração — é, em comparação com o resto do Cânon, relativamente recente. Antes disso, a Hóstia era erguida apenas no fim do Cânon, no Per ipsum (ver Per ipsum). Segundo a Enciclopédia Católica (artigo de H. Thurston), o primeiro a mandar, em estatutos diocesanos, que depois das palavras a Hóstia fosse “elevada de modo que todos a vejam” parece ter sido Eudes de Sully, bispo de Paris (1196–1208).

A causa foi uma controvérsia teológica de Paris no fim do século XII: alguns mestres, entre eles Pedro Cantor e Pedro Comestor, sustentavam que a transubstanciação do pão só se completava quando também se pronunciavam as palavras sobre o vinho. Os bispos Eudes de Sully e Estêvão Langton opuseram-se, e para afirmar que o pão já é o Corpo de Cristo depois de Hoc est enim corpus meum, passou-se a adorá-lo logo e a mostrá-lo ao povo. Contra o que muitas vezes se repete, não foi uma reação à heresia de Berengário, que morrera um século antes. Logo no início do século XIII aparece a campainha de aviso; no fim do mesmo século ordenava-se em muitos lugares tocar um dos sinos grandes da igreja, para que os que trabalhavam nos campos se ajoelhassem. O Missal de São Pio V (1570) incorporou o rito já difundido.

Rubricas

  • O sacerdote toma a Hóstia entre o polegar e o indicador de cada mão, e dali em diante mantém sempre unidos o polegar e o indicador (os “dedos consagrados”), separando-os apenas para tocar a Hóstia, até a ablução dos dedos depois da Comunhão. É a disciplina prescrita pelo Ritus servandus (VIII, 5), para que nenhum fragmento da Hóstia se perca.
  • Diz as palavras da consagração secrete, distincte et attente: em segredo (em voz baixa), mas com clareza e atenção, inclinado, com os cotovelos apoiados no altar. Se há outras Hóstias para consagrar, pronuncia-as ao mesmo tempo sobre todas.
  • Concluídas as palavras, genuflexa e adora a Hóstia consagrada; levanta-se, eleva-a quanto puder comodamente, com os olhos fixos nela, para mostrá-la ao povo, repõe-a sobre o corporal e genuflexa de novo.
  • O acólito já advertiu os fiéis com um toque da Campainha pouco antes da Consagração. Na elevação, levanta com a mão esquerda a borda posterior da casula (para não atrapalhar os braços do celebrante) e toca a campainha com a direita três vezes, ou continuamente até o sacerdote repor a Hóstia (Ritus servandus VIII, 6); por costume, alguns tocam também a cada genuflexão. Os fiéis olham a Hóstia elevada e adoram.
  • Na Quinta-feira Santa o Qui prídie é próprio: Qui prídie quam pro nostra omniúmque salúte paterétur, hoc est hódie… (“Na véspera de sofrer, por nossa salvação e a de todos, isto é, hoje…”). O resto é igual.

Na Missa solene

Ao fim do Prefácio, ao menos dois acólitos acendem tochas, que se apagam depois da elevação do Cálice (nas Missas de defuntos e em dias de jejum ficam acesas até a Comunhão). Quando o celebrante diz Quam oblationem, o diácono vai ao lado dele e ajoelha-se no degrau mais alto, levantando a borda da casula durante a elevação; levanta-se, quando é preciso, para descobrir e cobrir o Cálice. O subdiácono genuflexa em seu lugar. O turiferário, ajoelhado do lado da Epístola, incensa a Hóstia três vezes ao ser elevada e, do mesmo modo, o Cálice, tendo posto incenso no turíbulo sem bênção (Ritus servandus VIII, 8). O canto cessa durante a Consagração, e o silêncio da assembleia só é quebrado pela campainha; a instrução de 1958 recomenda que ele se mantenha até o Pater noster, ainda que o Benedictus possa ser cantado nesse intervalo.

Para o estudo mais aprofundado da relação entre a consagração e o sacrifício, veja a página de teologia do rito; para os gestos em conjunto, gestos e posturas.

Fontes

  1. Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
  2. Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
  3. Catholic Encyclopedia (1909), H. Thurston, “The Elevation”
  4. Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
  5. Santo Ambrósio (atribuído), De Sacramentis IV, 4–6 (c. 380–390)
  6. Sagrada Congregação dos Ritos, Instrução De musica sacra et sacra liturgia (3 de setembro de 1958), nn. 27 e 31
  7. Catecismo do Concílio de Trento (Catechismus Romanus, 1566), II, 4 (sobre a forma da Eucaristia)