Orações antes da Comunhão e beijo da paz
Orationes ante Communionem et osculum pacis
Antes de comungar, o sacerdote reza em silêncio três orações curtas: pela paz e unidade da Igreja, por si mesmo e pelo fruto da Comunhão. Na Missa solene, a paz é transmitida em um abraço litúrgico, do celebrante ao clero.
O texto
De mãos juntas sobre o altar, inclinado, o sacerdote reza em silêncio (omitida nas Missas de Requiem):
Dómine Jesu Christe, qui dixísti Apóstolis tuis: Pacem relínquo vobis, pacem meam do vobis: ne respícias peccáta mea, sed fidem Ecclésiæ tuæ; eámque secúndum voluntátem tuam pacificáre et coadunáre dignéris: Qui vivis et regnas Deus per ómnia sǽcula sæculórum. Amen.
Senhor Jesus Cristo, que dissestes aos vossos Apóstolos: Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não olheis para os meus pecados, mas para a fé da vossa Igreja, e dignai-vos pacificá-la e reuni-la segundo a vossa vontade; Vós que viveis e reinais, Deus, pelos séculos dos séculos. Amém.
Se a paz deve ser dada (na Missa solene), o celebrante beija o altar e, dando a paz ao diácono, diz:
Pax tecum.
A paz esteja contigo.
Et cum spíritu tuo.
E com o teu espírito.
Nas Missas de Requiem não se dá a paz, e a oração anterior é omitida. Em seguida, o sacerdote reza em silêncio:
Dómine Jesu Christe, Fili Dei vivi, qui ex voluntáte Patris, cooperánte Spíritu Sancto, per mortem tuam mundum vivificásti: líbera me per hoc sacrosánctum Corpus et Sánguinem tuum ab ómnibus iniquitátibus meis, et univérsis malis: et fac me tuis semper inhærére mandátis, et a te numquam separári permíttas: Qui cum eódem Deo Patre et Spíritu Sancto vivis et regnas Deus in sǽcula sæculórum. Amen.
Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, que, por vontade do Pai, cooperando o Espírito Santo, vivificastes o mundo pela vossa morte: livrai-me, por este sacrossanto Corpo e Sangue vosso, de todas as minhas iniquidades e de todos os males; fazei que eu me apegue sempre aos vossos mandamentos e não permitais que jamais me separe de Vós; Vós que, com o mesmo Deus Pai e o Espírito Santo, viveis e reinais, Deus, pelos séculos dos séculos. Amém.
Percéptio Córporis tui, Dómine Jesu Christe, quod ego indígnus súmere præsúmo, non mihi provéniat in judícium et condemnatiónem: sed pro tua pietáte prosit mihi ad tutaméntum mentis et córporis, et ad medélam percipiéndam: Qui vivis et regnas cum Deo Patre in unitáte Spíritus Sancti Deus, per ómnia sǽcula sæculórum. Amen.
Que a recepção do vosso Corpo, Senhor Jesus Cristo, que eu, indigno, presumo receber, não se torne para mim juízo e condenação; mas, por vossa bondade, sirva-me de defesa do espírito e do corpo e para alcançar a cura; Vós que viveis e reinais com Deus Pai na unidade do Espírito Santo, Deus, pelos séculos dos séculos. Amém.
Explicação
O que é
São três orações dirigidas diretamente a Cristo, todas rezadas pelo sacerdote em silêncio, inclinado sobre o altar e com as mãos juntas. A primeira, “Dómine Jesu Christe, qui dixísti Apóstolis tuis”, pede a paz e a unidade da Igreja; a segunda, “Dómine Jesu Christe, Fili Dei vivi”, pede libertação dos pecados e fidelidade aos mandamentos; a terceira, “Percéptio Córporis tui”, suplica que a Comunhão não seja motivo de condenação, mas remédio da alma e do corpo. Entre a primeira e a segunda, na Missa solene, dá-se a paz. Nas Missas de Requiem omite-se a primeira oração, e não há paz.
De onde vem
Estas orações não fazem parte do núcleo antigo da Missa romana: são orações de devoção do sacerdote que apareceram nos livros litúrgicos francos e germânicos da alta Idade Média e que foram, aos poucos, aceitas em Roma e nos missais romanos da Baixa Idade Média. Trata-se da mesma dinâmica que deu origem a outras orações “privadas” da Missa, como as do Ofertório. Os estudiosos situam sua entrada nos missais, em geral, entre os séculos IX e XI, com variação de lugar a lugar; por isso o século XI indicado neste site é uma aproximação. A tradição do beijo da paz, por outro lado, é muito mais antiga: Inocêncio I (carta a Decêncio, 416) refere o rito da paz depois da consagração, e Tertuliano já fala do “beijo da paz” como selo da oração (De oratione, 18).
O que significa
A primeira oração retoma as palavras de Jesus no Cenáculo (“Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”, Jo 14, 27) e pede que o Senhor não olhe os pecados do sacerdote, “mas a fé da vossa Igreja”: o sacerdote não se apoia em seus próprios méritos. A segunda, com um tom mais pessoal, invoca o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e lembra que a salvação nasceu da morte de Cristo. A terceira afirma com franqueza que comungar indignamente é motivo de juízo — referência a São Paulo (1 Cor 11, 29). Juntas, as três orações formam uma preparação curta, mas profunda, para a Comunhão.
Rubricas
Para a formação: o sacerdote, inclinado, com as mãos juntas sobre o altar e os olhos no Sacramento, reza em silêncio a primeira oração. Se a paz deve ser dada, beija o altar no meio e dá a paz dizendo “Pax tecum”, ao que se responde “Et cum spíritu tuo”. Nas Missas de Requiem não se dá a paz, e a oração “Dómine Jesu Christe, qui dixísti Apóstolis tuis” é omitida (a explicação habitual é que ela pede a paz e a unidade da Igreja, ao passo que a Missa de defuntos se volta ao repouso dos mortos). Depois, o sacerdote reza também em silêncio a segunda e a terceira oração e, em seguida, faz genuflexão e toma a Hóstia (veja Comunhão do sacerdote).
Na Missa solene
A transmissão da paz na Missa solene é um dos momentos mais expressivos da cerimônia. O diácono, ajoelhado à direita do celebrante, levanta-se quando este beija o altar e o beija ao mesmo tempo. Então o celebrante dá o abraço ao diácono com as palavras “Pax tecum”, e o diácono responde “Et cum spíritu tuo”. Depois de adorar o Sacramento, o diácono volta-se para o subdiácono, atrás do celebrante, e lhe dá a paz do mesmo modo. Para ver a posição dos ministros, consulte O altar, os paramentos e os ministros. O rito continua na Comunhão do sacerdote.
Fontes
- Divinum Officium — Ordo Missae do Missale Romanum, texto latino (as rubricas aqui seguem o Ritus servandus de 1962 e o Código de Rubricas de 1960)
- Missale Romanum 1962, Ritus servandus in celebratione Missae, tit. X–XII (Pai-Nosso, Comunhão, fim da Missa)
- J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: eine genetische Erklärung der römischen Messe, 1948 (5.ª ed. 1962); trad. ing. The Mass of the Roman Rite, 1951–1955
- João XXIII, motu proprio Rubricarum instructum, 25 de julho de 1960, com o Código de Rubricas (AAS 52, 1960, pp. 593–740; nn. 502–511 e 517–522 para a Comunhão e o fim da Missa)
- Inocêncio I, carta a Decêncio de Gúbio (416), sobre o momento da paz
- Tertuliano, De oratione, 18 (o “osculum pacis” como selo da oração)