Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Aufer a nobis e Orámus te

Aufer a nobis — Orámus te, Dómine

Terminada a confissão, o sacerdote pede ainda a Deus que tire de nós as faltas, para que possamos entrar “no Santo dos Santos” com a alma pura. Sobe então ao altar e o beija, pedindo perdão pelos méritos dos santos cujas relíquias estão ali.

Parte de
Missa dos Catecúmenos · Orações ao pé do altar
Origem
séc. XI · Síntese franco-romanaOrações de subida ao altar, de origem franca, atestadas a partir do séc. XI
Quem
O sacerdote (em voz alta nos versículos; em silêncio nas duas orações) · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos, em silêncio; respondem aos versículos com o acólito, se for Missa dialogada.Missa cantada e solene: Em silêncio e de pé ou de joelhos, conforme o costume; o coro ainda não canta nada.

O texto

O sacerdote, inclinado, de mãos juntas, diz:

S.

℣.Deus, tu convérsus vivificábis nos.

Ó Deus, voltando-te para nós, nos darás vida.

M.

℟.Et plebs tua lætábitur in te.

E o teu povo se alegrará em ti.

S.

℣.Osténde nobis, Dómine, misericórdiam tuam.

Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia.

M.

℟.Et salutáre tuum da nobis.

E dá-nos a tua salvação.

S.

℣.Dómine, exáudi oratiónem meam.

Senhor, ouve a minha oração.

M.

℟.Et clamor meus ad te véniat.

E o meu clamor chegue até ti.

S.

℣.Dóminus vobíscum.

O Senhor esteja convosco.

M.

℟.Et cum spíritu tuo.

E com o teu espírito.

Estendendo e juntando as mãos, em voz clara:

S.

Orémus.

Oremos.

Subindo ao altar, diz em silêncio:

S.

Aufer a nobis, quǽsumus, Dómine, iniquitátes nostras: ut ad Sancta sanctórum puris mereámur méntibus introíre. Per Christum, Dóminum nostrum. Amen.

Tira de nós, rogamos-te, Senhor, as nossas iniquidades, para que mereçamos entrar com almas puras no Santo dos Santos. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Inclinado, com as mãos juntas sobre o altar, diz (e, nas palavras indicadas, beija o altar no centro):

S.

Orámus te, Dómine, per mérita Sanctórum tuórum, quorum relíquiæ hic sunt, et ómnium Sanctórum: ut indulgére dignéris ómnia peccáta mea. Amen.

Rogamos-te, Senhor, pelos méritos dos teus Santos, cujas relíquias aqui estão, e de todos os Santos: que te dignes perdoar todos os meus pecados. Amém.

Explicação

O que é

Concluído o Indulgéntiam, o sacerdote continua inclinado e diz uma série de versículos tirados dos Salmos (84, 101) e do diálogo habitual: Deus, tu convérsus vivificábis nos… Osténde nobis, Dómine, misericórdiam tuam… Dómine, exáudi oratiónem meam… Dóminus vobíscum. Em seguida, em voz alta, diz Orémus e sobe os degraus do altar, rezando em silêncio Aufer a nobis, quǽsumus, Dómine, iniquitátes nostras, e, de mãos juntas sobre a mesa, a oração Orámus te, Dómine, durante a qual beija o altar no centro. É a última etapa das orações ao pé do altar.

O que se pede é simples: “Tira de nós, Senhor, as nossas iniquidades, para que possamos entrar com almas puras no Santo dos Santos.” No Aufer a nobis o sacerdote diz “nós”, porque sobe ao altar também em nome do povo; no Orámus te fala em seu próprio nome: “todos os meus pecados”. E o “Santo dos Santos”, o lugar mais sagrado do Templo, onde só o sumo sacerdote entrava uma vez por ano, torna-se imagem do altar cristão.

De onde vem

Como o restante da preparação, estas orações não são da Roma antiga, que começava a Missa com o canto do Intróito. O Aufer a nobis e o Orámus te aparecem em sacramentários e missais francos e germânicos dos sécs. X e XI, quase sempre como orações privadas de subida ao altar. Em Roma foram aceitas nos séculos seguintes e fixadas pelo Missal de 1570. A referência a “relíquias que aqui estão” explica-se porque, desde a Antiguidade cristã, a Missa se celebra sobre os túmulos dos mártires, e daí vem o uso de depor relíquias no altar (as pedras de altar ainda as têm); beijar o altar é beijar também o sinal dos santos que ali repousam.

O que significa

A tradição entendeu o subir ao altar como uma entrada em Deus: o “Santo dos Santos” da Carta aos Hebreus é a nova tenda onde Cristo entrou com o seu próprio sangue (Hb 9). Pedir pureza para esse ingresso é reconhecer que o Sacrifício não é obra do sacerdote, mas de Cristo, e que o ministro só pode servir como instrumento. O beijo no altar honra o altar como figura de Cristo, gesto que o sacerdote repete várias vezes ao longo da Missa.

Rubricas

  • Os versículos Deus, tu convérsus são ditos inclinado, em voz clara, com as mãos juntas. Ao dizer Orémus, em voz alta, o sacerdote estende e junta as mãos.
  • Ao subir, o sacerdote reza Aufer a nobis em silêncio, com as mãos juntas, e ao chegar à mesa pousa-as sobre o altar, inclinado.
  • O Orámus te é dito com as mãos juntas sobre o altar, inclinado; ao dizer quorum relíquiæ hic sunt beija o altar no centro, com as mãos estendidas e apoiadas sobre ele.
  • Em seguida, na Missa solene, vem a incensação do altar; na Missa rezada, o sacerdote vai ao lado da Epístola para ler o Intróito.

Fontes

  1. Missale Romanum (1962), Ordo Missae: Aufer a nobis; Orámus te; Ritus servandus, IV
  2. Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948): as orações de preparação do sacerdote
  3. Adrian Fortescue, The Mass (1912)
  4. Divinum Officium: Ordo Missae