Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Aspersão com água benta

Asperges me / Vidi aquam

Nos domingos, antes da Missa principal, o sacerdote asperge o altar, os ministros e o povo com água benta, enquanto se canta uma antífona de purificação. É um pequeno rito de arrependimento que prepara para o Santo Sacrifício.

Parte de
Antes da Missa · Antes da Missa
Origem
séc. X · Síntese franco-romanaRito dominical de origem franca: a bênção semanal da água é atestada no séc. IX; a aspersão cerimonial, ao menos desde o séc. X
Quem
O sacerdote, de pluvial, com o hissope; o coro (ou o povo) canta a antífona · Cantado
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: Quando há aspersão antes de uma Missa rezada, os fiéis ficam de pé ou de joelhos, segundo o costume do lugar, e fazem o sinal da cruz ao serem aspergidos.Missa cantada e solene: De pé durante o canto, inclinando a cabeça e fazendo o sinal da cruz quando a água os alcança; para os versículos e a oração final segue-se o costume do lugar (em muitos lugares ajoelham-se).

O texto

Fora do Tempo Pascal. O sacerdote, ao pé do altar, entoa a antífona e asperge o altar, a si mesmo e os ministros; o coro prossegue enquanto ele asperge o clero e o povo.

S.

Aspérges me, Dómine, hyssópo, et mundábor: lavábis me, et super nivem dealbábor.

Aspergir-me-ás, Senhor, com o hissope, e ficarei limpo; lavar-me-ás, e ficarei mais branco que a neve.

C.

Miserére mei, Deus, secúndum magnam misericórdiam tuam.

Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia.

No Tempo da Paixão omite-se o Glória ao Pai, repetindo-se logo a antífona.

C.

Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto.

Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo.

C.

Sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sǽcula sæculórum. Amen.

Como era no princípio, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Repete-se a antífona.

C.

Aspérges me, Dómine, hyssópo, et mundábor: lavábis me, et super nivem dealbábor.

Aspergir-me-ás, Senhor, com o hissope, e ficarei limpo; lavar-me-ás, e ficarei mais branco que a neve.

No Tempo Pascal (do Domingo da Páscoa a Pentecostes) canta-se, em lugar do Asperges me:

S.

Vidi aquam egrediéntem de templo a látere dextro, allelúja: et omnes ad quos pervénit aqua ista salvi facti sunt et dicent: allelúja, allelúja.

Vi uma água que saía do templo, do lado direito, aleluia; e todos aqueles a quem chegou essa água foram salvos e dirão: aleluia, aleluia.

C.

Confitémini Dómino, quóniam bonus: quóniam in sǽculum misericórdia ejus.

Louvai o Senhor, porque é bom; porque a sua misericórdia é para sempre.

Segue o Glória ao Pai (como acima) e repete-se a antífona Vidi aquam.

Ao voltar ao pé do altar, o sacerdote diz (no Tempo Pascal acrescenta-se “allelúja” aos dois primeiros versículos):

S.

℣.Osténde nobis, Dómine, misericórdiam tuam.

Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia.

M.

℟.Et salutáre tuum da nobis.

E dá-nos a tua salvação.

S.

℣.Dómine, exáudi oratiónem meam.

Senhor, ouve a minha oração.

M.

℟.Et clamor meus ad te véniat.

E o meu clamor chegue até ti.

S.

℣.Dóminus vobíscum.

O Senhor esteja convosco.

M.

℟.Et cum spíritu tuo.

E com o teu espírito.

S.

Orémus.

Oremos.

S.

Exáudi nos, Dómine sancte, Pater omnípotens, ætérne Deus, et míttere dignéris sanctum Angelum tuum de cælis, qui custódiat, fóveat, prótegat, vísitet atque deféndat omnes habitántes in hoc habitáculo. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

Ouve-nos, Senhor santo, Pai todo-poderoso, Deus eterno, e digna-te enviar do céu o teu santo Anjo, que guarde, conforte, proteja, visite e defenda todos os que habitam nesta morada. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Explicação

O que é

Antes de a Missa propriamente começar, no domingo, o sacerdote reveste-se de pluvial (a capa de coro) da cor do dia. Ao pé do altar, de joelhos, recebe o aspersório e asperge com água benta três vezes o altar, depois a si mesmo e os ministros; em seguida, enquanto o coro canta, asperge o clero e o povo. Ele entoa a antífona Aspérges me, Dómine, hyssópo, e o coro prossegue com o início do Salmo 50 (v. 3). Terminado o canto, o sacerdote, de pé ao pé do altar, diz alguns versículos e uma oração em que pede a Deus que envie o seu santo Anjo para guardar todos os que habitam “nesta morada”. Só então tira o pluvial, veste a casula e começa a Missa. O Asperges não faz parte da Missa em si: é um rito preparatório, próprio do domingo.

O gesto é simples: a água lembra o Batismo, e quem entra na igreja renova, por assim dizer, o pedido de pureza. Por isso o canto diz, com palavras do Salmo 50, “lavar-me-ás, e ficarei mais branco que a neve”. Quem assiste pela primeira vez pode simplesmente fazer o sinal da cruz quando a água o atinge; não há nada a responder.

De onde vem

A bênção e a aspersão com água têm raízes antigas no uso judaico e cristão, mas o rito dominical que conhecemos é de origem franca. No séc. IX encontramos a bênção semanal da água, com sal, e a aspersão do povo aos domingos: ela é ordenada em disposições atribuídas ao papa Leão IV (847–855) e nos estatutos de Hincmar, arcebispo de Reims (c. 852). A cerimônia de aspersão antes da Missa, com a antífona própria, é atestada ao menos desde o séc. X. Com o tempo o costume se difundiu, passou aos livros litúrgicos de Roma na Idade Média e se faz, em 1962, antes da Missa principal dos domingos; o rito consta do Missal sob o título Ordo ad faciendam et aspergendam aquam benedictam. Os estudiosos discutem a data e a autoria exata das disposições antigas; por isso se diz “séc. IX–X” e não uma data precisa.

O que significa

O texto de Aspérges me é do Salmo 50 (o Miserére), o grande salmo penitencial: “Aspergir-me-ás, Senhor, com o hissope, e ficarei limpo”. O hissope era a planta usada nas purificações da antiga Lei, e o nome passou ao instrumento com que se asperge. A Igreja canta, portanto, que só Deus limpa o homem e que a água espalhada pelo sacerdote é sinal dessa limpeza interior. É uma preparação do coração, semelhante em espírito às orações ao pé do altar e ao Confiteor: antes de chegar ao Sacrifício, reconhece-se a necessidade de purificação.

Rubricas

  • A aspersão faz-se aos domingos, antes da Missa principal, com o pluvial da cor do dia. O sacerdote ajoelha-se ao pé do altar (também no Tempo Pascal) e recebe o aspersório do diácono.
  • Asperge-se, nesta ordem: o altar (três vezes), o próprio celebrante, os ministros e, enquanto o coro canta, o clero e o povo. O sacerdote entoa a antífona; o coro continua com o salmo.
  • Depois do salmo e do Glória ao Pai, repete-se a antífona. No Tempo da Paixão omite-se o Glória ao Pai: repete-se logo a antífona. De volta ao pé do altar, o sacerdote diz os versículos, o Dóminus vobíscum e a oração Exáudi nos.
  • A água é previamente benzida, com sal, na sacristia, no próprio domingo, pelo sacerdote que vai celebrar ou por outro, de alva (ou sobrepeliz) e estola, com exorcismo e orações próprias do Missal.
  • No Domingo da Ressurreição, onde há pia batismal, usa-se a água benzida na Vigília Pascal, separada antes de se juntarem os santos óleos.

Para a formação: a aspersão é um sacramental, não um sacramento; seu efeito vem da oração da Igreja e da disposição de quem a recebe. Para ver o lugar do rito no conjunto da Missa, veja o rito parte a parte; para os gestos do povo, gestos e posturas.

Fontes

  1. Missale Romanum (1962), Ordo ad faciendam et aspergendam aquam benedictam
  2. Enciclopédia Católica (1907), verbete “Asperges”: o rito dominical, em uso ao menos desde o séc. X
  3. Adrian Fortescue, The Ceremonies of the Roman Rite Described (1917; ed. de 1920)
  4. Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948; trad. inglesa The Mass of the Roman Rite, 1951)
  5. Divinum Officium: texto latino do Asperges me e do Vidi aquam