Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Supra quae

Supra quæ

O sacerdote pede que Deus aceite a oferta como aceitou os sacrifícios de Abel, de Abraão e de Melquisedec, figuras do sacrifício de Cristo.

Parte de
Cânon Romano · Cânon Romano
Origem
séc. IV · Patrístico romanoAtestada, em parte, no De Sacramentis (c. 380–390); a cláusula final é tradicionalmente atribuída ao Papa São Leão Magno (440–461)
Quem
O sacerdote, de mãos estendidas · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos, em silêncio.Missa cantada e solene: De joelhos.

O texto

Com as mãos estendidas, diz:

S.

Supra quæ propítio ac seréno vultu respícere dignéris: et accépta habére, sicúti accépta habére dignátus es múnera púeri tui justi Abel, et sacrifícium Patriárchæ nostri Abrahæ: et quod tibi óbtulit summus sacérdos tuus Melchísedech, sanctum sacrifícium, immaculátam hóstiam.

Dignai-vos olhar para elas com rosto propício e sereno, e aceitá-las, como vos dignastes aceitar os dons do vosso servo, o justo Abel, e o sacrifício do nosso patriarca Abraão, e o que vos ofereceu o vosso sumo sacerdote Melquisedec: santo sacrifício, hóstia imaculada.

Explicação

O que é

O Supra quæ pede a Deus que olhe para as ofertas “com rosto propício e sereno” e as aceite como aceitou, no Antigo Testamento, os dons de três justos: o cordeiro de Abel, o sacrifício de Abraão e o de Melquisedec, rei de Salém. São os três modelos que a Igreja vê como figuras (tipos) do sacrifício de Cristo. A oração é breve e tem uma marca de humildade: pede que Deus olhe com bondade para a oblação, que já é o próprio Cristo, e a aceite como aceitou as figuras que o anunciavam.

Os três sacrifícios

Abelpúeri tui justi Abel
Gênesis 4,4. Abel, “o justo”, ofereceu a Deus os primogênitos do rebanho e foi acolhido. A tradição cristã vê nele uma figura de Cristo, o justo morto injustamente. O texto diz púeri tui, “do vosso servo” (ou “menino”).
Abraãosacrifícium Patriárchæ nostri Abrahæ
Gênesis 22. Abraão, quando se dispôs a sacrificar o filho Isaac, tornou-se figura do Pai que entrega o Filho; Isaac carregando a lenha lembra Cristo com a cruz.
Melquisedecsummus sacérdos tuus Melchísedech
Gênesis 14,18. Rei e sacerdote de Salém, ofereceu pão e vinho. O Salmo 109 (110) e a Carta aos Hebreus (5–7) fazem dele figura do sacerdócio de Cristo, “sacerdote para sempre”. Pão e vinho são justamente a matéria da Eucaristia.

De onde vem

O De Sacramentis (c. 380–390) traz uma oração que reúne, numa só frase, o que hoje são o Supra quæ e o Súpplices te rogámus: et petimus et precamur, ut hanc oblationem suscipias in sublimi altari tuo per manus angelorum tuorum, sicut suscipere dignatus es munera pueri tui justi Abel et sacrificium patriarchæ nostri Abrahæ et quod tibi obtulit summus sacerdos Melchisedech. Este núcleo, portanto, já existia no fim do século IV. As palavras finais, sanctum sacrifícium, immaculátam hóstiam, não figuram no De Sacramentis; a tradição, que a Enciclopédia Católica registra com a ressalva de que “se diz” assim, atribui-as ao Papa São Leão Magno (440–461). Gramaticalmente, referem-se ao sacrifício de Melquisedec, o que tem sentido: o sacrifício de pão e vinho prefigura a Missa. A liturgia de São Marcos (Alexandria) tem uma oração análoga, que menciona também Abel, Abraão, o incenso de Zacarias, as esmolas de Cornélio e a moeda da viúva.

O que significa

Nesta oração a Igreja revela o seu modo de ler a Escritura: o Antigo Testamento é “sombra” (cf. Hebreus 10,1) e a Missa é a realidade. Abel, Abraão e Melquisedec ofereceram sacrifícios que agradaram a Deus; mas só o sacrifício de Cristo é perfeito, e é ele que se faz presente agora. O pedido, portanto, não é que Deus aceite um segundo sacrifício, mas que a nossa oferta, unida a Cristo, seja aceita como foram aceitas as figuras que o anunciavam.

Rubricas

O sacerdote mantém as mãos estendidas durante toda a oração. Não há sinais da cruz nem inclinação; ao fim, inclina-se para o Súpplices te rogámus.

Fontes

  1. Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
  2. Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
  3. Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
  4. Santo Ambrósio (atribuído), De Sacramentis IV, 4–6 (c. 380–390)
  5. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948; ed. inglesa The Mass of the Roman Rite, 1951–1955), vol. II