Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Kyrie eleison

Kýrie, eléison

“Senhor, tende piedade; Cristo, tende piedade; Senhor, tende piedade”, em grego e nove vezes. É a última lembrança da antiga ladainha que abria a Missa romana.

Parte de
Missa dos Catecúmenos · Ritos de entrada
Origem
séc. V · Patrístico romanoLitania grega adotada em Roma; atestada no Concílio de Vaison (529) e descrita por São Gregório Magno (598)
Quem
O sacerdote e o acólito (ou o coro) alternadamente · Voz alta (vox clara)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De pé ou de joelhos, conforme o costume local; respondem com o acólito na Missa dialogada.Missa cantada e solene: De pé, ouvindo o *Kyrie* cantado pelo coro; o celebrante o recita em voz baixa no missal.

O texto

Terminado o Intróito, de mãos juntas, o sacerdote e o acólito alternam:

S.

Kýrie, eléison.

Senhor, tende piedade.

M.

Kýrie, eléison.

Senhor, tende piedade.

S.

Kýrie, eléison.

Senhor, tende piedade.

M.

Christe, eléison.

Cristo, tende piedade.

S.

Christe, eléison.

Cristo, tende piedade.

M.

Christe, eléison.

Cristo, tende piedade.

S.

Kýrie, eléison.

Senhor, tende piedade.

M.

Kýrie, eléison.

Senhor, tende piedade.

S.

Kýrie, eléison.

Senhor, tende piedade.

Explicação

O que é

Depois do Intróito, o sacerdote e o acólito alternam o Kyrie: três vezes Kýrie, eléison (“Senhor, tende piedade”), três vezes Christe, eléison (“Cristo, tende piedade”) e outras três vezes Kýrie, eléison, num total de nove aclamações. É o único texto do Ordinário da Missa romana que ficou em grego, língua da liturgia romana nos primeiros séculos, o que lembra a origem oriental do pedido.

O pedido de “piedade” não é só penitencial: eléison é também um grito de louvor e de confiança, como o dos cegos que gritavam a Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de nós” (Mt 9,27). O Kyriale reúne várias melodias de Kyrie, escolhidas conforme a solenidade do dia (veja o latim e o canto).

De onde vem

O Kyrie provém das litanias orientais, em que o diácono propunha intenções e o povo respondia Kýrie, eléison. A Missa romana teve uma ladainha desse tipo no começo; uma tradição liga a sua introdução em Roma ao papa Gelásio I (492–496). O testemunho seguro mais antigo no Ocidente é o Concílio de Vaison (529), cujo cânon 3 manda usar o Kyrie também nas igrejas da Gália, porque era costume da Sé Apostólica e das províncias do Oriente e da Itália. Com o tempo, as intenções do diácono desapareceram e ficou apenas a resposta, reduzida às nove aclamações. Uma carta de São Gregório Magno (598, a João de Siracusa) explica que em Roma o clero entoava o Kyrie e o povo respondia, e que também se dizia o Christe eléison, que entre os gregos não se usava. A data do séc. V é, pois, aproximada; o Missal de 1962 reproduz a forma medieval.

O que significa

A tradição medieval viu nas nove aclamações uma imagem trinitária: as três primeiras dirigem-se ao Pai, as três do meio a Cristo e as três últimas ao Espírito Santo. Esta é uma interpretação piedosa, não a origem histórica. Teologicamente, o Kyrie é a súplica de quem se apresenta ao Senhor com humildade e, ao mesmo tempo, o reconhece como Kýrios, “Senhor”, título que o Novo Testamento dá a Cristo ressuscitado.

Rubricas

  • Repetida a antífona do Intróito, o sacerdote vai ao meio do altar e, de mãos juntas, alterna o Kyrie com o acólito: ele diz a primeira, o acólito a segunda, e assim por diante, nove vezes. Se ninguém responde, diz as nove vezes sozinho (Ritus servandus, IV, 2; Código de Rubricas, n. 430).
  • Na Missa solene o coro canta o Kyrie, e o celebrante o lê em voz baixa no lado da Epístola, ao lado do diácono e do subdiácono (IV, 7); só depois vai ao meio do altar para entoar o Glória, se houver de ser dito.
  • Nas Missas de Réquiem e nos tempos penitenciais o Kyrie mantém-se; o que muda é o Glória (omitido).

Fontes

  1. Gregório Magno, carta ao bispo João de Siracusa (598): o Kyrie em Roma e em Constantinopla
  2. Concílio de Vaison II (529), cân. 3: o Kyrie na Gália
  3. Missale Romanum (1962), Ritus servandus, IV; Código de Rubricas (1960), n. 430
  4. Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948): a ladainha e o Kyrie
  5. Adrian Fortescue, The Mass (1912)
  6. Divinum Officium: Ordo Missae