Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Oferta da Hóstia

Súscipe, sancte Pater

O sacerdote oferece a Deus o pão que será consagrado, pedindo que o sacrifício aproveite aos vivos e aos defuntos.

Parte de
Ofertório · Ofertório
Origem
séc. XI · Síntese franco-romanaOração medieval de ofertório, do tipo das *apologiae* de origem franca, atestada em livros dos séc. IX–XI e fixada para a Igreja latina no Missal de São Pio V (1570)
Quem
O sacerdote, com a patena e a hóstia; na Missa solene, o diácono apresenta a patena ao celebrante. · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: Sem norma nas rubricas, que regulam só o celebrante, os ministros e o coro; costume local: sentados ou de joelhos, em silêncio, unindo-se interiormente à oferta.Missa cantada e solene: Costume local: sentados enquanto a schola canta; onde há incensação do povo, levantam-se quando são incensados.

O texto

O sacerdote toma a patena com a hóstia, eleva-a à altura do peito, ergue os olhos ao céu, abaixa-os e diz em voz baixa:

S.

Súscipe, sancte Pater, omnípotens ætérne Deus, hanc immaculátam hóstiam, quam ego indígnus fámulus tuus óffero tibi Deo meo vivo et vero, pro innumerabílibus peccátis, et offensiónibus, et neglegéntiis meis, et pro ómnibus circumstántibus, sed et pro ómnibus fidélibus christiánis vivis atque defúnctis: ut mihi, et illis profíciat ad salútem in vitam ætérnam. Amen.

Recebei, Pai santo, Deus onipotente e eterno, esta hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, ofereço a vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências, e por todos os circunstantes, e também por todos os fiéis cristãos, vivos e defuntos: para que a mim e a eles aproveite para a salvação na vida eterna. Amém.

Com a patena, o sacerdote traça o sinal da cruz sobre o corporal e deposita a hóstia sobre ele.

Explicação

Cálice dourado de nó lavrado e patena, sobre uma superfície espelhada contra fundo claro; a patena está apoiada atrás do cálice e os reflexos dos dois aparecem embaixo.
Cálice e patena do antigo leprosário de Seili (Finlândia), feitos em Turku entre 1443 e 1480. Turun museokeskus · CC BY-SA 4.0

O que é

É a primeira das orações com que o sacerdote oferece a Deus as dádivas que serão consagradas. Ele toma a patena com a hóstia, ergue os olhos ao céu, abaixa-os e diz em voz baixa o Súscipe, sancte Pater: “Recebei, Pai santo… esta hóstia imaculada”. (Em latim, hostia significa “vítima” oferecida em sacrifício; é daí que vem o nome “hóstia”.) Em seguida faz com a patena um sinal da cruz sobre o corporal e deposita a hóstia sobre ele. O pão ainda não é o Corpo de Cristo; mas a oração já fala dele em linguagem de sacrifício.

Quem assiste pela primeira vez pode estranhar que se fale em “hóstia imaculada” antes da Consagração. Os comentaristas explicam que as orações do Ofertório antecipam o que vai acontecer: oferece-se este pão em vista daquilo em que ele se tornará pelo poder de Cristo. É um modo de falar que olha para a frente, e não uma consagração antecipada (veja Teologia do rito).

De onde vem

O antigo Rito Romano, até o séc. VIII, não tinha neste ponto orações privadas do sacerdote: as oferendas eram postas no altar em silêncio, e passava-se diretamente à oração sobre as oferendas (a Secreta). As orações de ofertório que hoje conhecemos nasceram em regiões francas e germânicas, onde se multiplicaram as apologiae, orações pessoais de humildade em que o sacerdote se reconhece pecador diante de Deus. Elas entraram nos livros romanos de modo gradual, depois da época carolíngia, e variavam muito de lugar para lugar: os livros medievais diferem na redação e na ordem das orações. O Missal de São Pio V (1570) uniformizou o conjunto, e dele passou ao Missal de 1962.

Datar uma oração tão difundida e tão adaptada é difícil. Adotamos o séc. XI como o século em que o Súscipe, sancte Pater já aparece com forma estável; os estudiosos concordam em que o conjunto das orações de ofertório se formou no Ocidente franco, mas não sobre a data exata de cada fórmula.

O que significa

Cada elemento tem seu sentido. A invocação (“Pai santo, onipotente e eterno Deus”) dirige a oferta ao Pai. O sacerdote chama-se “vosso indigno servo”: reconhece que oferece também por si mesmo, pecador. Oferece “pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências” (a Missa é sacrifício de propiciação, como ensina o Concílio de Trento, sessão XXII, cân. 3), “por todos os circunstantes” (os presentes) e “por todos os fiéis cristãos, vivos e defuntos” (a Igreja inteira, que a Missa abraça). O fim é a salvação: “para que a mim e a eles aproveite para a salvação na vida eterna”.

Rubricas

Na Missa rezada, o sacerdote, depois de descobrir o cálice e tirar a pala que cobre a hóstia, toma a patena com as duas mãos e a eleva à altura do peito; ergue os olhos ao céu e logo os abaixa; diz a oração. Ao terminar, traça com a patena um sinal da cruz sobre o corporal e deposita a hóstia sobre ele, diante de si, perto do meio da borda anterior do corporal. A patena é colocada em parte sob o corporal, do lado direito, e coberta com o purificatório, até o Pater noster, quando será retomada (Ritus servandus VII, 2–3). Se houver outras hóstias sobre o corporal ou em outro vaso, para a comunhão dos fiéis, o sacerdote as descobre e diz o Súscipe também com a intenção de oferecê-las e consagrá-las.

Na Missa solene

Na Missa solene, depois do Orémus, o subdiácono traz o cálice com a patena e a hóstia, coberto com o véu umeral; o diácono o recebe, descobre o cálice e entrega ao celebrante a patena com a hóstia, beijando-lhe a mão (Ritus servandus VII, 9). O celebrante diz o Súscipe e faz o sinal da cruz; a hóstia é posta sobre o corporal. A patena é então entregue ao subdiácono, que a mantém coberta com as pontas do véu umeral, de pé diante do meio do altar, até depois do Pater noster; nas Missas de Defuntos, porém, o subdiácono não segura a patena (veja O altar, os paramentos e os ministros).

Fontes

  1. Missale Romanum, ed. typica 1962: Ordo Missae e Ritus servandus VII
  2. Divinum Officium: Ordo Missae, Offertorium (texto latino)
  3. Concílio de Trento, sessão XXII (1562), cânon 3
  4. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia, vol. II, parte sobre o Ofertório
  5. A. Fortescue, The Mass: A Study of the Roman Liturgy (1912), cap. sobre o Ofertório