Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Embolismo e fração da Hóstia

Líbera nos (embolismus) et fractio

O sacerdote desenvolve o último pedido do Pai-Nosso — “livrai-nos do mal” — numa súplica silenciosa e, em seguida, parte a Hóstia consagrada, repetindo o gesto de Cristo na Ceia.

Parte de
Comunhão · Rito da Comunhão
Origem
séc. VII · Patrístico romanoEmbolismo atestado nos sacramentários romanos (séc. VII–VIII); a fração é gesto do próprio Senhor na Ceia
Quem
O sacerdote, em silêncio · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos; o sacerdote age em silêncio e o povo adora.Missa cantada e solene: De joelhos ou em silêncio atento, conforme o costume local; o sacerdote reza e parte a Hóstia, enquanto o coro se prepara para o *Agnus Dei*.

O texto

O sacerdote toma a patena entre o indicador e o médio da mão direita e a mantém erguida sobre o altar; reza em silêncio:

S.

Líbera nos, quǽsumus, Dómine, ab ómnibus malis, prætéritis, præséntibus et futúris: et intercedénte beáta et gloriósa semper Vírgine Dei Genetríce María, cum beátis Apóstolis tuis Petro et Paulo, atque Andréa, et ómnibus Sanctis,

Livrai-nos, Senhor, vos suplicamos, de todos os males passados, presentes e futuros; e, pela intercessão da bem-aventurada e gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro, Paulo e André, e de todos os santos,

Faz com a patena o sinal da cruz, da fronte ao peito,

S.

da propítius pacem in diébus nostris:

concedei-nos propício a paz em nossos dias;

beija a patena,

S.

ut, ope misericórdiæ tuæ adjúti, et a peccáto simus semper líberi et ab omni perturbatióne secúri.

para que, socorridos pelo auxílio de vossa misericórdia, estejamos sempre livres do pecado e seguros de toda perturbação.

Coloca a patena sob a Hóstia, descobre o cálice, faz genuflexão, toma a Hóstia e, mantendo-a sobre o cálice com as duas mãos, parte-a pelo meio, dizendo:

S.

Per eúndem Dóminum nostrum Jesum Christum, Fílium tuum.

Pelo mesmo Senhor nosso Jesus Cristo, vosso Filho,

Põe a metade que tem na mão direita sobre a patena. Da parte que ficou na esquerda, parte uma pequena partícula, dizendo:

S.

Qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti Deus.

que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus,

Junta a outra metade à que está sobre a patena e, segurando a partícula com a direita sobre o cálice, que a esquerda toma pelo nó, diz em voz inteligível (ou canta):

S.

℣.Per ómnia sǽcula sæculórum.

por todos os séculos dos séculos.

M.

℟.Amen.

Amém.

Explicação

Afresco paleocristão de um banquete: convivas reclinados em torno de uma mesa em semicírculo, em tons de laranja e branco, com pratos sobre a mesa.
Fractio panis (a fração do pão): afresco da Capela Grega nas Catacumbas de Priscila, em Roma (séculos II a IV). Autor desconhecido (afresco paleocristão); fotografia de André Held / akg-images · Domínio público

O que é

Chama-se embolismo (do grego embolismós, “inserção”) o texto que o sacerdote “insere” depois do Pai-Nosso para desenvolver seu último pedido. A oração Líbera nos, quǽsumus, Dómine pede libertação de todos os males, “passados, presentes e futuros”, invoca a intercessão da Virgem Maria, dos Apóstolos Pedro, Paulo e André e de todos os santos, e conclui com a súplica de paz “em nossos dias”. É dita em silêncio, com a patena segura em pé sobre o altar; nas palavras “da propítius pacem”, o sacerdote faz com ela o sinal da cruz e depois a beija. Em seguida, a Hóstia é partida ao meio e de uma das metades se separa uma pequena partícula, em gestos que a rubrica descreve com precisão.

De onde vem

Todas as liturgias, do Oriente e do Ocidente, conhecem uma fração do pão consagrado: é o gesto que, nos Atos dos Apóstolos, deu nome a toda a celebração (“a fração do pão”, At 2, 42), e que na Ceia o Senhor praticou. O embolismo latino, por sua vez, aparece em formas semelhantes nos mais antigos sacramentários romanos (séc. VII–VIII), e é possível que seja mais antigo; os estudiosos discordam sobre a data de sua fixação, e a redação, em especial a lista de santos invocados, variou de um manuscrito a outro antes de se fixar. Na Antiguidade, a fração tinha também um motivo prático, o de repartir o pão para a distribuição; quando se passou às hóstias pequenas de pão ázimo, na Idade Média, ela se tornou sobretudo um gesto simbólico, e a forma descrita no Missal de 1962 (duas metades e uma partícula, esta destinada ao cálice) é medieval. Ela se liga ao que vem logo depois, a “comistão” (ver Paz e comistão).

O que significa

A fração é um gesto de sentido duplo. Antes de tudo, é imitação do que Cristo fez; depois, é um sinal de unidade: “Nós, que somos muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Cor 10, 17). Os liturgistas medievais viram nela também uma imagem da Paixão e da Ressurreição. Amalário de Metz (séc. IX), a quem se atribui a leitura mais citada, via nas três partes o corpo de Cristo ressuscitado (a partícula posta no cálice), o corpo ainda a caminhar na terra (a parte que se comunga) e o corpo no sepulcro (a parte que fica sobre o altar); leituras posteriores viram nelas a Igreja triunfante, a militante e a padecente. São alegorias tradicionais, não doutrina da Igreja. Convém ensinar aqui que Cristo está inteiro em cada parte, sob cada espécie: partir o pão não divide o Senhor.

Rubricas

Para a formação, a sequência é esta. O sacerdote toma a patena com a mão direita, entre o indicador e o médio, e a mantém erguida sobre o altar enquanto reza “Líbera nos”. Nas palavras “da propítius pacem in diébus nostris”, faz com a patena o sinal da cruz, da fronte ao peito, e a beija. Coloca-a sob a Hóstia, descobre o cálice, faz genuflexão, toma a Hóstia e, mantendo-a sobre o cálice com as duas mãos, parte-a pelo meio ao dizer “Per eúndem Dóminum nostrum Jesum Christum, Fílium tuum”. Põe a metade da direita sobre a patena e, da metade da esquerda, separa uma pequena partícula, dizendo “Qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti Deus”. A metade restante é colocada junto da outra na patena, e a pequena partícula, mantida sobre o cálice, será usada na rubrica seguinte.

Na Missa solene

Na Missa solene, o diácono descobre e cobre o cálice nos momentos devidos e adora o Sacramento com o celebrante; as ações do celebrante são as mesmas da Missa rezada. Só o último trecho (“Per ómnia sǽcula sæculórum”) é cantado, de modo a ligar a fração à saudação da paz (Código de Rubricas, n. 513). Para o contexto geral, veja a página O rito, parte a parte.

Fontes

  1. Divinum Officium — Ordo Missae do Missale Romanum, texto latino (as rubricas aqui seguem o Ritus servandus de 1962 e o Código de Rubricas de 1960)
  2. Missale Romanum 1962, Ritus servandus in celebratione Missae, tit. X–XII (Pai-Nosso, Comunhão, fim da Missa)
  3. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: eine genetische Erklärung der römischen Messe, 1948 (5.ª ed. 1962); trad. ing. The Mass of the Roman Rite, 1951–1955
  4. A. Fortescue, The Mass: A Study of the Roman Liturgy, 1912