A Consagração do Cálice
Consecratio Cálicis
O sacerdote repete as palavras de Cristo sobre o cálice: o vinho torna-se o Sangue do Senhor. Genuflexão, elevação do Cálice e nova genuflexão.
O texto
Descobre o cálice e diz:
Símili modo postquam cenátum est,
Do mesmo modo, depois de ter ceado,
Toma o cálice com ambas as mãos:
accípiens et hunc præclárum Cálicem in sanctas ac venerábiles manus suas:
tomando também este preclaro Cálice em suas santas e veneráveis mãos,
Inclina a cabeça:
item tibi grátias agens,
dando-vos igualmente graças,
Segurando o cálice com a esquerda, faz com a direita o sinal da cruz sobre ele:
bene✠díxit, dedítque discípulis suis, dicens: Accípite, et bíbite ex eo omnes.
abençoou ✠ e deu-o aos seus discípulos, dizendo: Tomai e bebei dele todos:
Profere as palavras da consagração sobre o cálice, com atenção, sem interrupção e em voz baixa, mantendo-o um pouco elevado:
HIC EST ENIM CALIX SÁNGUINIS MEI, NOVI ET ÆTÉRNI TESTAMÉNTI: MYSTÉRIUM FÍDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDÉTUR IN REMISSIÓNEM PECCATÓRUM.
PORQUE ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE, DO NOVO E ETERNO TESTAMENTO: MISTÉRIO DA FÉ: QUE POR VÓS E POR MUITOS SERÁ DERRAMADO PARA REMISSÃO DOS PECADOS.
Depõe o cálice sobre o corporal e diz em segredo:
Hæc quotiescúmque fecéritis, in mei memóriam faciétis.
Todas as vezes que isto fizerdes, fá-lo-eis em memória de mim.
Genuflexa e adora; levanta-se, eleva o cálice e o mostra ao povo; depõe-no, cobre-o com a pala e genuflexa de novo. O acólito toca a campainha; na Missa solene o turiferário incensa o Cálice.
Explicação

O que é
Depois da Hóstia, o sacerdote consagra o vinho. Retoma o relato — Símili modo postquam cenátum est… — e pronuncia sobre o cálice as palavras do Senhor: Hic est enim calix sánguinis mei, novi et ætérni testaménti: mystérium fídei: qui pro vobis et pro multis effundétur in remissiónem peccatórum. A fé católica é que o vinho se converte no Sangue de Cristo. Porque Corpo e Sangue são consagrados separadamente, a Missa representa de modo sacramental a morte de Cristo na Cruz, em que o sangue se separou do corpo; muitos teólogos veem nessa dupla consagração a imagem sacramental do sacrifício. A fé da Igreja, definida pelo Concílio de Trento (Sessão XXII), é que a Missa é verdadeiro sacrifício, e não apenas uma ceia.
A fórmula e suas fontes
A fórmula do cálice, transcrita no Ordinário, é composta, segundo a Enciclopédia Católica, de vários relatos do Novo Testamento: o essencial vem de Mateus 26; cálix sánguinis mei é adaptado de Lucas e de Paulo; pro vobis vem de Lucas; pro multis vem de Mateus; e a frase final, Hæc quotiescúmque fecéritis, in mei memóriam faciétis, é Paulo (1 Coríntios 11,25) levemente modificada. Duas expressões não estão no Novo Testamento: et ætérni (“e eterna”, que talvez ecoe Hebreus 13,20, “sangue da aliança eterna”) e Mysterium fidei.
Testaméntum traduz o grego diathḗkē, palavra que a Bíblia usa tanto para “aliança” quanto para “testamento”. A tradução abaixo conserva “testamento”, como o latim; o leitor deve ouvir nela também a ideia de aliança selada com o sangue do Senhor.
“Mysterium fidei”: o que se pode afirmar
A história desta expressão é cuidadosa de contar. O que consta com segurança: ela não está nos relatos bíblicos, e o texto do Cânon citado no De Sacramentis (c. 380–390) não a traz (a forma do cálice ali é mais curta). Aparece em sacramentários romanos medievais, já dentro da fórmula do cálice, e assim ficou no Missal de São Pio V e no de 1962. Quanto ao sentido original, discute-se. A hipótese que a Enciclopédia Católica refere é a de que fosse, na origem, uma advertência dirigida pelo diácono aos catecúmenos (despedidos antes do Ofertório): no momento da Consagração, lembrava-se que se tratava de um “mistério da fé”, reservado aos batizados. Outros leem-na como uma exclamação de admiração diante do mistério; nenhuma das hipóteses é conclusiva. No Missal de 1970 as palavras foram deslocadas, passando a servir de convite para a aclamação do povo depois da consagração.
“Pro multis”
A expressão pro multis (“por muitos”) traduz fielmente o texto de Mateus e de Marcos. O Catecismo Romano (1566), promulgado depois do Concílio de Trento, explica que Cristo morreu por todos, mas que o fruto da sua paixão só chega aos que a recebem; por isso se diz “por muitos”, e não “por todos”. Bento XVI, numa carta ao presidente da Conferência Episcopal Alemã (14 de abril de 2012), voltou ao tema: pediu que o pro multis fosse traduzido literalmente (em alemão, “für viele”, e não “für alle”), por fidelidade ao texto de Mateus e de Marcos e à tradição litúrgica, distinguindo a obra de Cristo, que alcança todos os homens, da comunidade histórica dos que a recebem. Veja também o Catecismo da Igreja Católica, n. 605: Cristo morreu por todos os homens, sem exceção.
A elevação do Cálice
A elevação do Cálice chegou mais devagar do que a da Hóstia. Como a Enciclopédia Católica explica, a controvérsia parisiense do século XII sobre o momento da transubstanciação dizia respeito ao pão, e não havia o mesmo motivo para elevar logo o cálice. A elevação do Cálice difundiu-se nos séculos XIII a XV; na abadia de Saint Albans só foi adotada em 1429, e Thurston notava, em 1909, que os cartuxos não a praticavam. O Missal de 1570 prescreve ambas.
Rubricas
- O sacerdote descobre o cálice (removendo a pala; na Missa solene, o diácono o faz), toma-o com ambas as mãos e, segurando-o com a esquerda, faz com a direita um sinal da cruz sobre ele em bene✠díxit.
- Profere as palavras da consagração sobre o cálice attente, continuate et secrete: com atenção, sem interrupção e em segredo, inclinado, com os cotovelos apoiados no altar, segurando o cálice com as duas mãos (a esquerda no pé, a direita no nó) e mantendo-o ligeiramente elevado.
- Depõe o cálice sobre o corporal e, em segredo, diz Hæc quotiescúmque fecéritis, in mei memóriam faciétis. Em seguida genuflexa, levanta-se, eleva o cálice mostrando-o ao povo, depõe-no, cobre-o com a pala e genuflexa de novo. (Na Idade Média as palavras Hæc quotiescúmque eram ditas depois da elevação.)
- O acólito toca a campainha como na elevação da Hóstia. Na Missa solene o turiferário incensa o Cálice três vezes e o diácono levanta a borda da casula.
Fontes
- Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
- Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
- Catholic Encyclopedia (1909), H. Thurston, “The Elevation”
- Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
- Concílio de Trento, Sessão XXII (17 de setembro de 1562), cap. 2
- Catecismo do Concílio de Trento (Catechismus Romanus, 1566), II, 4 (sobre “pro multis”)
- Bento XVI, Carta ao Presidente da Conferência Episcopal Alemã sobre a tradução de pro multis (14 de abril de 2012)
- Catecismo da Igreja Católica, n. 605