Saudação da paz e comistão
Pax Dómini et commíxtio
O sacerdote deseja a paz de Cristo a todos, traça três cruzes sobre o cálice com uma partícula da Hóstia e a deixa cair no Sangue do Senhor, em sinal da unidade do Corpo e do Sangue de Cristo ressuscitado.
O texto
Com a partícula na mão direita sobre o cálice (que a esquerda segura pelo nó), faz com ela três cruzes, de uma borda a outra do cálice, dizendo em voz inteligível (ou cantando):
℣.Pax ✠ Dómini sit ✠ semper vobís ✠ cum.
A paz do Senhor esteja sempre convosco.
℟.Et cum spíritu tuo.
E com o teu espírito.
Deixa cair a partícula no cálice, dizendo em silêncio:
Hæc commíxtio, et consecrátio Córporis et Sánguinis Dómini nostri Jesu Christi, fiat accipiéntibus nobis in vitam ætérnam. Amen.
Que esta mistura e consagração do Corpo e do Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo seja, para nós que o recebemos, vida eterna. Amém.
Cobre o cálice, faz genuflexão, levanta-se e, inclinado diante do Sacramento, de mãos juntas, prepara-se para o Agnus Dei.
Explicação
O que é
São dois gestos ligados. O primeiro é a saudação: em voz alta, o sacerdote diz “Pax Dómini sit semper vobíscum”, “A paz do Senhor esteja sempre convosco”, e o ministro responde em nome do povo “Et cum spíritu tuo”. O segundo é a comistão (ou commíxtio): o sacerdote deixa cair no cálice a partícula que reservou na fração, dizendo em silêncio “Hæc commíxtio, et consecrátio Córporis et Sánguinis Dómini nostri Jesu Christi, fiat accipiéntibus nobis in vitam ætérnam. Amen”. O gesto significa que o Corpo e o Sangue, apresentados separadamente na consagração como sinal da morte do Senhor, são agora reunidos como sinal do Cristo vivo.
De onde vem
A saudação “Pax Dómini sit semper vobíscum” é antiquíssima e aparece no Ordo Romanus I (c. 700), que descreve a Missa papal de Roma. Já a comistão tem uma história peculiar. Em Roma, no século V ao menos, o Papa enviava aos presbíteros das igrejas titulares um pouco do pão consagrado em sua Missa (o fermentum), que eles deixavam cair no cálice para manifestar a comunhão com o bispo de Roma; Inocêncio I o atesta numa carta a Decêncio, bispo de Gúbio, em 416. Havia também o costume das sancta: o pão consagrado em Missa anterior, que se juntava ao cálice. A explicação mais comum é que a comistão atual descende dessas práticas, ressignificadas. Os estudiosos, porém, discutem os detalhes e, sobretudo, a época em que surgiu a fórmula latina “Hæc commíxtio”; por isso, convém ensiná-la como medieval, sem data exata.
O que significa
A paz de Cristo é o fruto da Páscoa: no Cenáculo, o Ressuscitado saudou os Apóstolos com “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19). Por isso a Missa pede essa paz antes de comungar. A comistão, por sua vez, manifesta que o Cristo que recebemos é o Cristo vivo, em quem Corpo e Sangue já não se separam: na consagração, as duas espécies representaram misticamente a morte; agora, reunidas, proclamam a Ressurreição. Alguns autores medievais viram aqui o retorno da alma ao corpo na manhã de Páscoa.
Rubricas
Segundo o Missal de 1962, o sacerdote segura a partícula com a mão direita sobre o cálice, que sustenta com a esquerda pelo nó, e traça com ela três cruzes de uma borda a outra do cálice enquanto diz “Pax Dómini sit semper vobíscum” (o Missal imprime as cruzes depois de Pax, de sit e de vobís). O ministro responde. Em silêncio, o sacerdote solta a partícula no cálice e diz “Hæc commíxtio”. Depois cobre o cálice, faz genuflexão e, de pé, ligeiramente inclinado diante do Sacramento, de mãos juntas, começa o Agnus Dei. O Missal imprime “Pax Dómini” como versículo (℣) com resposta (℟).
Na Missa solene
Na Missa solene, o celebrante canta o “Pax Dómini” e o coro responde. A comistão é feita em silêncio, como na Missa rezada. Para entender o lugar desses gestos na estrutura da Missa, veja O rito, parte a parte e a página sobre a teologia do rito.
Fontes
- Divinum Officium — Ordo Missae do Missale Romanum, texto latino (as rubricas aqui seguem o Ritus servandus de 1962 e o Código de Rubricas de 1960)
- Missale Romanum 1962, Ritus servandus in celebratione Missae, tit. X–XII (Pai-Nosso, Comunhão, fim da Missa)
- J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: eine genetische Erklärung der römischen Messe, 1948 (5.ª ed. 1962); trad. ing. The Mass of the Roman Rite, 1951–1955
- Inocêncio I, carta a Decêncio de Gúbio (416): o fermentum
- Ordo Romanus I (c. 700), ed. M. Andrieu, Les Ordines Romani du haut Moyen Âge, t. II