Último Evangelho
Ultimum Evangelium (Jo 1, 1-14)
O prólogo do Evangelho de São João, lido ao fim da Missa. Ao dizer “E o Verbo se fez carne”, o sacerdote faz genuflexão, e com ele os ministros e o clero no coro; os fiéis o acompanham, para adorar o mistério da Encarnação.
O texto
O sacerdote vai ao lado do Evangelho e, de mãos juntas, diz:
℣.Dóminus vobíscum.
O Senhor esteja convosco.
℟.Et cum spíritu tuo.
E com o teu espírito.
Faz com o polegar o sinal da cruz sobre o altar (ou o livro) e depois sobre si mesmo, na fronte, nos lábios e no peito, dizendo:
Inítium ✠ sancti Evangélii secúndum Joánnem.
Início do santo Evangelho segundo João.
℟.Glória tibi, Dómine.
Glória a vós, Senhor.
Jo 1, 1-14. De mãos juntas, prossegue:
In princípio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Hoc erat in princípio apud Deum.
Ele estava no princípio com Deus.
Omnia per ipsum facta sunt: et sine ipso factum est nihil, quod factum est:
Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito do que foi feito;
in ipso vita erat, et vita erat lux hóminum:
nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;
et lux in ténebris lucet, et ténebræ eam non comprehendérunt.
e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
Fuit homo missus a Deo, cui nomen erat Joánnes.
Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João.
Hic venit in testimónium, ut testimónium perhibéret de lúmine, ut omnes créderent per illum.
Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
Non erat ille lux, sed ut testimónium perhibéret de lúmine.
Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
Erat lux vera, quæ illúminat omnem hóminem veniéntem in hunc mundum.
Era a luz verdadeira, que ilumina todo homem que vem a este mundo.
In mundo erat, et mundus per ipsum factus est, et mundus eum non cognóvit.
Estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dele, e o mundo não o conheceu.
In própria venit, et sui eum non recepérunt.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Quotquot autem recepérunt eum, dedit eis potestátem fílios Dei fíeri, his, qui credunt in nómine ejus:
Mas a todos os que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem em seu nome;
qui non ex sanguínibus, neque ex voluntáte carnis, neque ex voluntáte viri, sed ex Deo nati sunt.
os quais não nasceram de sangues, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
Aqui o sacerdote faz genuflexão (como os ministros e o clero no coro; os fiéis, conforme o costume):
Et Verbum caro factum est,
E o Verbo se fez carne,
Levanta-se e prossegue:
et habitávit in nobis: et vídimus glóriam ejus, glóriam quasi Unigéniti a Patre, plenum grátiæ et veritátis.
e habitou entre nós; e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
℟.Deo grátias.
Demos graças a Deus.
Explicação
O que é
O Último Evangelho é, em regra, o prólogo do Evangelho de São João (1, 1-14), lido pelo sacerdote no lado do Evangelho do altar, depois da bênção. Os fiéis costumam escutá-lo em pé. Começa com a saudação “Dóminus vobíscum”; o sacerdote diz “Inítium sancti Evangélii secúndum Joánnem”, e o ministro responde “Glória tibi, Dómine”. Ao dizê-lo, o sacerdote traça o sinal da cruz com o polegar sobre o altar (ou o livro) e depois sobre a fronte, os lábios e o peito, como antes do Evangelho do dia. Quando chega a “Et Verbum caro factum est”, faz genuflexão: é o ponto de maior solenidade deste texto. No fim, o ministro responde “Deo grátias”.
De onde vem
A leitura do prólogo de João no fim da Missa começou como devoção privada. Fortescue, na Catholic Encyclopedia (verbete “Gospel in the Liturgy”, 1909), observa que a Missa terminava originalmente, até por volta do século XII, com o “Ite, missa est”, e que o Pláceat, a bênção e o Último Evangelho são devoções privadas aos poucos absorvidas pela liturgia. O início do Evangelho de João era muito usado na Idade Média em devoções populares, por sua dignidade, e passou a ser recitado pelos sacerdotes como parte das orações depois da Missa. No século XIII já se dizia por vezes ao altar, mas o liturgista Durando (Rationale, séc. XIII) ainda considera a Missa terminada no “Ite, missa est”. O Missal de Pio V (1570) tornou o costume universal no rito romano. Os historiadores discutem as etapas dessa difusão, e é prudente dizer apenas “a partir do século XIII”.
O que significa
O prólogo de João é uma síntese da fé cristã: o Verbo eterno, Deus junto de Deus, criador de tudo, luz que as trevas não compreenderam, fez-se carne e habitou entre nós. A leitura, ao final da Missa, reconduz o fiel à fonte: o Sacrifício que acabou de acompanhar é o do Verbo encarnado. A genuflexão em “Et Verbum caro factum est” é uma adoração da Encarnação. Por isso, alguns autores espirituais veem no Último Evangelho uma “Missa em miniatura”: do eterno ao histórico, da luz ao dom, da encarnação à glória. Para a teologia do rito, veja Teologia do rito.
Rubricas e a mudança de 1960
Para a formação: o sacerdote vai ao lado do Evangelho, diz “Dóminus vobíscum” (o ministro responde) e, de mãos juntas, traça o sinal da cruz com o polegar sobre o altar (ou o livro) e depois sobre a fronte, os lábios e o peito, dizendo “Inítium ✠ sancti Evangélii secúndum Joánnem”. Prossegue de mãos juntas. Em “Et Verbum caro factum est” faz genuflexão e depois se levanta e continua. Terminado o texto, o ministro responde “Deo grátias”. Antes de 1960, quando em uma festa se fazia a comemoração de um domingo, de uma féria ou de uma vigília cujo Evangelho se começava na nona lição de Matinas, lia-se no fim da Missa o Evangelho desse dia; na terceira Missa do Natal, em que o prólogo de João já é o Evangelho do dia, lia-se no fim o da Epifania, e na Missa rezada do Domingo de Ramos, o da bênção dos ramos, segundo Fortescue.
Na Missa solene
Na Missa solene, o celebrante lê o Último Evangelho no lado do Evangelho, com o diácono e o subdiácono a seu lado, que também fazem genuflexão e respondem; o diácono não o canta, pois o Último Evangelho não é o Evangelho essencial da liturgia (Fortescue). Terminado o texto, o sacerdote desce do altar, faz a reverência e, com os ministros, retorna à sacristia, dizendo a antífona Trium puerórum, que abre o Cântico dos Três Jovens (Dn 3) e a ação de graças depois da Missa (Ritus servandus, tit. XII). Nas Missas rezadas, o sacerdote reza ainda as orações leoninas, onde o costume as mantém. Para o contexto histórico do Missal de 1570, veja A história, das origens a São Pio V.
Fontes
- Divinum Officium — Ordo Missae do Missale Romanum, texto latino (as rubricas aqui seguem o Ritus servandus de 1962 e o Código de Rubricas de 1960)
- Missale Romanum 1962, Ritus servandus in celebratione Missae, tit. X–XII (Pai-Nosso, Comunhão, fim da Missa)
- A. Fortescue, The Mass: A Study of the Roman Liturgy, 1912
- J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: eine genetische Erklärung der römischen Messe, 1948 (5.ª ed. 1962); trad. ing. The Mass of the Roman Rite, 1951–1955
- João XXIII, motu proprio Rubricarum instructum, 25 de julho de 1960, com o Código de Rubricas (AAS 52, 1960, pp. 593–740; nn. 502–511 e 517–522 para a Comunhão e o fim da Missa)
- Fortescue, “Gospel in the Liturgy”, Catholic Encyclopedia, vol. 6 (1909)