Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Hanc igitur

Hanc ígitur

O sacerdote estende as mãos sobre as oferendas e pede a Deus que as aceite, que dê paz aos nossos dias, nos livre da condenação e nos conte entre os eleitos.

Parte de
Cânon Romano · Cânon Romano
Origem
séc. VI · Patrístico romanoA primeira parte é anterior; a cláusula final (“diesque nostros in tua pace…”) é atribuída a São Gregório Magno (590–604)
Quem
O sacerdote, com as mãos estendidas sobre as oferendas · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos, em silêncio. O acólito costuma tocar a campainha neste ponto, para avisar que a Consagração se aproxima: o *Ritus servandus* de 1962 (VIII, 6) manda-o advertir os fiéis “um pouco antes da Consagração”, sem dizer em que palavra (a Enciclopédia Católica, em 1908, notava que o toque no *Hanc igitur* não tinha apoio nas rubricas então vigentes).Missa cantada e solene: De joelhos. O celebrante mantém as mãos estendidas sobre o cálice e a Hóstia.

O texto

Com as mãos estendidas sobre as oferendas, diz:

S.

Hanc ígitur oblatiónem servitútis nostræ, sed et cunctæ famíliæ tuæ,

Esta oferta da nossa servidão, e também de toda a vossa família,

S.

quǽsumus, Dómine, ut placátus accípias: diésque nostros in tua pace dispónas, atque ab ætérna damnatióne nos éripi, et in electórum tuórum júbeas grege numerári.

rogamos-vos, Senhor, que a aceiteis benigno, disponhais em vossa paz os nossos dias, e mandeis que sejamos livrados da condenação eterna e contados entre o rebanho dos vossos eleitos.

Junta as mãos:

S.

Per Christum, Dóminum nostrum. Amen.

Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Explicação

Pintura flamenga da Missa de São Gregório: o papa celebra diante do altar, assistido por ministros em casulas e dalmáticas douradas, enquanto Cristo, Homem das Dores, aparece sobre o altar com os instrumentos da Paixão ao fundo.
A Missa de São Gregório Magno, de Adriaen Isenbrandt (c. 1510–1550), no J. Paul Getty Museum. Adriaen Isenbrandt, c. 1510–1550 · Domínio público

O que é

O Hanc igitur é a oração em que o sacerdote, pela primeira vez no Cânon, estende as mãos sobre as oferendas (a Hóstia e o Cálice) e as apresenta a Deus em nome de toda a “família” reunida. Pede que Deus as receba com benevolência (placátus accípias) e acrescenta três súplicas pelos que oferecem: que os seus dias transcorram em paz, que sejam livrados da condenação eterna e que sejam contados entre o rebanho dos eleitos. É uma oração curta, mas carregada: nela o sacrifício e a salvação pessoal se encontram.

De onde vem

A Enciclopédia Católica nota que a primeira metade (Hanc oblatiónem… placátus accípias) é ecoada pelo Quam oblatiónem, que se segue: em ambas, pede-se que Deus aceite a oferta. A segunda metade, a cláusula diésque nostros in tua pace dispónas, atque ab ætérna damnatióne nos éripi, et in electórum tuórum júbeas grege numerári, é atribuída a São Gregório Magno: o Liber Pontificalis, o diácono João (autor da Vida de Gregório, séc. IX) e o historiador Beda (História Eclesiástica II, 1) concordam em dizer que ele a introduziu no Cânon; o pedido de “paz nos nossos dias” costuma ser lido à luz das turbulências do seu tempo, mas o texto não o diz. A Enciclopédia Católica, seguindo a hipótese de Drews, observa que essa segunda parte lembra o Nobis quoque e certas liturgias orientais, em que pertence ao pedido pelos defuntos; nesse caso, o “acréscimo” de Gregório seria uma transferência de lugar, e não uma composição nova. É hipótese discutida.

O que significa

A palavra servitus (“serviço”, “servidão”) lembra que o sacerdote, e com ele os fiéis, não oferecem como senhores, mas como servos; é uma oferta de serviço. A expressão cuncta família tua (“toda a vossa família”) diz que a Igreja é a casa de Deus. A cláusula de Gregório é como um resumo de toda a vida cristã: viver em paz, evitar a perdição, chegar à companhia dos eleitos.

O Hanc igitur próprio

O Hanc igitur recebe um acréscimo em poucas ocasiões (a Enciclopédia Católica conta quatro): na Quinta-feira Santa (em que se faz alusão ao dia em que o Senhor entregou aos discípulos os mistérios do seu Corpo e Sangue, para serem celebrados), do Sábado Santo ao sábado in Albis, da Vigília de Pentecostes ao sábado seguinte, e na Missa de consagração episcopal (no Pontifical). Na Páscoa e em Pentecostes a fórmula é a mesma e lembra os recém-batizados; diz assim, depois de cunctæ famíliæ tuæ:

S.

quam tibi offérimus pro his quoque, quos regeneráre dignátus es ex aqua et Spíritu Sancto, tribuens eis remissiónem omnium peccatórum,

que vos oferecemos também por aqueles que vos dignastes regenerar da água e do Espírito Santo, concedendo-lhes a remissão de todos os pecados,

…e continua: quǽsumus, Dómine, ut placátus accípias…

Na Quinta-feira Santa, a cláusula própria é esta:

S.

quam tibi offérimus ob diem, in qua Dóminus noster Jesus Christus trádidit discípulis suis Córporis et Sánguinis sui mystéria celebránda:

que vos oferecemos pelo dia em que nosso Senhor Jesus Cristo entregou aos seus discípulos os mistérios do seu Corpo e Sangue, para serem celebrados:

…e continua: quǽsumus, Dómine, ut placátus accípias… e conclui: Per eúndem Christum, Dóminum nostrum. Amen.

Rubricas

O sacerdote mantém as mãos estendidas sobre as oferendas, com as palmas voltadas para baixo, para a Hóstia e o Cálice, desde as primeiras palavras até Per Christum, Dóminum nostrum, quando as junta. O gesto é relativamente tardio: aparece no século XV; antes, o celebrante erguia as mãos como de costume e fazia uma inclinação profunda, rito que, em 1908, ainda se conservava entre dominicanos e carmelitas (Enciclopédia Católica). A Enciclopédia Católica o explica como um modo de “tocar” a oferta no momento em que a oração a nomeia; a tradição espiritual o aproxima da imposição das mãos sobre a vítima nos sacrifícios do Antigo Testamento (Levítico 1,4). O sacerdote não faz sinais da cruz nesta oração. O Amen encerra o Hanc igitur e prepara o Quam oblationem. A Enciclopédia Católica considera que o Hanc igitur, com as duas orações seguintes, forma um segundo grupo de três, como o primeiro (Te igitur, Meménto, Communicántes).

Fontes

  1. Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
  2. Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
  3. Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
  4. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948; ed. inglesa The Mass of the Roman Rite, 1951–1955), vol. II
  5. João Diácono, Vida de São Gregório Magno II, 17
  6. Beda, História Eclesiástica do Povo Inglês II, 1 (sobre a adição de Gregório)