Per quem haec omnia
Per quem hæc ómnia
Breve oração, com três sinais da cruz sobre as oferendas, que prepara a doxologia final. Segundo a explicação mais aceita, foi, na origem, a bênção de frutos da terra.
O texto
Continua em voz baixa:
Per quem hæc ómnia, Dómine, semper bona creas,
Por quem, Senhor, sempre criais todos estes bens,
Faz três sinais da cruz sobre a Hóstia e o Cálice ao mesmo tempo:
sanctí✠ficas, viví✠ficas, bene✠dícis et præstas nobis.
santificais ✠, vivificais ✠, abençoais ✠ e nos concedeis.
Explicação
O que é
Per quem hæc ómnia, Dómine, semper bona creas, sanctíficas, vivíficas, benedícis et præstas nobis: “Por quem, Senhor, sempre criais todos estes bens, os santificais, os vivificais, os abençoais e no-los concedeis”. A frase liga a oração anterior (Per Christum, Dóminum nostrum) à doxologia seguinte. O sacerdote faz três sinais da cruz sobre a Hóstia e o Cálice, um a cada verbo: sanctí✠ficas, viví✠ficas, bene✠dícis.
O enigma e a explicação histórica
A oração é difícil de entender no lugar em que está. “Estes bens” (hæc ómnia bona) são o quê? Antes dela, tudo já é o Corpo e o Sangue de Cristo; não faz sentido pedir a Deus que os “crie” e “santifique”. A explicação mais aceita, proposta por Mons. Louis Duchesne e recolhida pela Enciclopédia Católica (1908), é que ela era, na origem, uma bênção dos frutos da terra, que os fiéis traziam ao altar e que o celebrante bendizia neste ponto do Cânon: o leite e o mel dados aos recém-batizados na Páscoa e em Pentecostes, as favas no dia da Ascensão, as uvas na festa de São Sisto (6 de agosto). Segundo a Enciclopédia Católica, na Missa do bispo da Quinta-feira Santa o óleo dos enfermos ainda é bento neste ponto do Cânon (Pontifical). A Tradição Apostólica, atribuída a Hipólito de Roma (c. 215), já prevê a bênção do queijo e das azeitonas.
Quando esses costumes desapareceram, a fórmula ficou: hæc ómnia bona passou a ser entendida como uma referência, em sentido amplo, aos dons de Deus e, em sentido sacramental, à própria Eucaristia. A Enciclopédia Católica prefere ver nela, como nos sinais da cruz depois da consagração, uma “representação dramática”, na qual a Igreja continua a pedir o que já foi concedido. Os estudiosos não estão de acordo sobre todos os detalhes, mas a ideia da bênção dos frutos tem boa base nas fontes.
O que significa
Mesmo sem o contexto original, a oração faz sentido para quem a reza hoje. Os quatro verbos — criar, santificar, vivificar, abençoar — descrevem a obra de Deus: tudo o que existe vem dele (criação), é santificado por ele (santificação), tem vida por ele (vivificação) e é dom dele (bênção e concessão). Por isso o Cânon, que começou pedindo a Deus que aceite as nossas ofertas, termina agradecendo-lhe por tudo o que ele nos dá.
Rubricas
O sacerdote faz três sinais da cruz sobre a Hóstia e o Cálice em sanctíficas, vivíficas, benedícis. Não há Amen no fim: o texto continua. Em seguida descobre o cálice e genuflexa, e passa ao Per ipsum. Na Missa solene, o diácono genuflexa, vai ao lado do celebrante, descobre o Cálice na hora devida, adora com ele, cobre-o e genuflexa de novo (Ritus servandus IX, 4).
Fontes
- Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
- Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
- Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
- J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948; ed. inglesa The Mass of the Roman Rite, 1951–1955), vol. II
- L. Duchesne, Origines du culte chrétien, 2ª ed. (1898), pp. 174–175 (citado pela Enciclopédia Católica)