Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Evangelho

Evangelium

A leitura do Evangelho é o ponto alto da Liturgia da Palavra. Todos se levantam, fazem três pequenos sinais da cruz e escutam o texto do dia.

Parte de
Missa dos Catecúmenos · Liturgia da Palavra
Origem
séc. I · Apostólico e primeiros séculosLeitura dos Evangelhos na assembleia, testemunhada por São Justino por volta de 155
Quem
O sacerdote (Missa rezada); o diácono (Missa solene) · Voz alta (vox clara)
Texto
Próprio: muda conforme o dia
Os fiéis
Missa rezada: De pé; fazem o sinal da cruz na fronte, nos lábios e no peito; por costume, inclinam a cabeça ao nome de Jesus.Missa cantada e solene: De pé, com a atenção voltada para o diácono; inclinam a cabeça ao nome de Jesus; ao fim responde-se *Laus tibi, Christe*.

O que é e de onde vem

O que é

O Evangelho é a leitura de um trecho de um dos quatro evangelistas. O sacerdote (ou o diácono) diz Dóminus vobíscum, anuncia Sequéntia sancti Evangélii secúndum N. e, com o polegar, faz um pequeno sinal da cruz sobre o começo do texto no livro e outros três sobre a própria testa, os lábios e o peito. O acólito responde Glória tibi, Dómine; os fiéis fazem o mesmo sinal triplo. Terminada a leitura, o acólito diz Laus tibi, Christe e o sacerdote beija o livro dizendo Per evangélica dicta deleántur nostra delícta (“Pelas palavras do Evangelho sejam apagados os nossos pecados”).

De onde vem

É a parte mais antiga e central da Liturgia da Palavra. São Justino (c. 155) descreve a leitura das “memórias dos apóstolos”, isto é, dos Evangelhos, nas reuniões do domingo. A tradição de honrar o livro com luzes e incenso é antiga no Oriente e se tornou comum em Roma por volta do séc. VII, como mostra o Ordo Romanus I. O beijo do livro e a fórmula Per evangélica dicta são medievais (sécs. XI–XII). O triplo sinal da cruz no início do Evangelho é um costume da Idade Média, que as rubricas do Missal de 1570 recolheram. O texto atual do Evangelho vem da Vulgata de São Jerônimo, e a ordem das leituras de cada dia é, em boa parte, herdada do antigo Comes.

O que significa

O povo se levanta como sinal de respeito a Cristo que vai falar. Os três sinais da cruz traduzem um pedido: que a palavra esteja na mente (testa), nos lábios (boca) e no coração (peito). A honra ao livro com velas e incenso expressa a fé de que, no Evangelho, é o próprio Cristo quem se dirige à Igreja. O beijo final é ato de amor à palavra recebida; e a oração Per evangélica dicta lembra a ligação entre a palavra e o perdão.

Um exemplo: Domingo da Páscoa (Mc 16,1-7)

S.

℣.Dóminus vobíscum.

O Senhor esteja convosco.

M.

℟.Et cum spíritu tuo.

E com o teu espírito.

S.

Sequéntia sancti Evangélii secúndum Marcum.

Continuação do santo Evangelho segundo Marcos.

M.

℟.Glória tibi, Dómine.

Glória a ti, Senhor.

S.

In illo témpore: María Magdaléne et María Jacóbi et Salóme emérunt arómata, ut veniéntes úngerent Jesum. Et valde mane una sabbatórum, véniunt ad monuméntum, orto jam sole. Et dicébant ad ínvicem: Quis revólvet nobis lápidem ab óstio monuménti? Et respiciéntes vidérunt revolútum lápidem. Erat quippe magnus valde. Et introëúntes in monuméntum vidérunt júvenem sedéntem in dextris, coopértum stola cándida, et obstupuérunt. Qui dicit illis: Nolíte expavéscere: Jesum quǽritis Nazarénum, crucifíxum: surréxit, non est hic, ecce locus, ubi posuérunt eum. Sed ite, dícite discípulis ejus et Petro, quia præcédit vos in Galilǽam: ibi eum vidébitis, sicut dixit vobis.

Naquele tempo, Maria Madalena, Maria de Tiago e Salomé compraram aromas para ir ungir Jesus. E, muito cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, vão ao sepulcro. E diziam umas às outras: Quem nos removerá a pedra da entrada do sepulcro? E, olhando, viram que a pedra tinha sido removida; era, de fato, muito grande. E, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram atônitas. Ele lhes disse: Não vos assusteis. Procurais Jesus de Nazaré, o crucificado; ressuscitou, não está aqui; eis o lugar onde o puseram. Mas ide, dizei aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia: ali o vereis, como vos disse.

M.

℟.Laus tibi, Christe.

Louvor a ti, Cristo.

S.

Per evangélica dicta deleántur nostra delícta.

Pelas palavras do Evangelho sejam apagados os nossos pecados.

Na Missa solene

O diácono, depois de pedir a bênção, vai em procissão ao lado do Evangelho, precedido do turiferário e de dois ceroferários com velas acesas e acompanhado do subdiácono, que segura o livro. O Evangelho é cantado no tom próprio, num lugar do lado do Evangelho. No início o diácono diz Dóminus vobíscum, anuncia a perícope e incensa o livro três vezes (ao meio, à direita e à esquerda) enquanto o coro responde Glória tibi, Dómine. Durante o canto, o celebrante fica no lado da Epístola, de mãos juntas, e faz o sinal da cruz quando o diácono anuncia o título. Terminado o canto, o subdiácono leva o livro ao celebrante, que o beija e diz Per evangélica dicta; em seguida o diácono o incensa três vezes.

Rubricas

  • Missa rezada: o sacerdote leva o missal ao lado do Evangelho, diz Dóminus vobíscum, anuncia Sequéntia (ou Inítium, quando o texto é o começo de um Evangelho), faz o sinal da cruz sobre o livro e sobre si, e lê com as mãos sobre o missal.
  • A forma Inítium sancti Evangélii usa-se quando a leitura abre o Evangelho (por exemplo, o Evangelho de João no Natal); nos demais casos diz-se Sequéntia.
  • Os fiéis permanecem de pé, fazem o triplo sinal da cruz e, por costume, inclinam a cabeça ao nome de Jesus. O sacerdote inclina a cabeça para o livro ao nome de Jesus e genuflecte para o livro onde o texto o pede (Ritus servandus, VI, 2).
  • Na Missa cantada com incenso, o celebrante põe e benze o incenso ao centro antes do Munda cor meum, incensa o missal três vezes depois de anunciar o título e não é incensado ao fim (VI, 8).
  • Nas Missas de Réquiem não se pede a bênção, não se levam luzes e o livro não é beijado.

Fontes

  1. São Justino Mártir, Primeira Apologia, 67 (c. 155)
  2. Ordo Romanus I (c. 700), ed. Andrieu
  3. Missale Romanum (1962), Ordo Missae e Ritus servandus, VI
  4. Código de Rubricas (1960), n. 471
  5. Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948): o Evangelho
  6. Divinum Officium: Missa do Domingo da Páscoa