Sinal da cruz e Salmo 42
Signum crucis et Psalmus 42 (Júdica me)
A Missa começa com o sinal da cruz e com um salmo de confiança, o Salmo 42, em que o sacerdote e o acólito dialogam ao pé do altar: “Subirei ao altar de Deus, a Deus que alegra a minha juventude”.
O texto
O sacerdote, ao pé do altar, faz a devida reverência e, voltado para a cruz, diz em voz clara, persignando-se:
In nómine Patris, et Fílii, et Spíritus Sancti. Amen.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Com as mãos juntas diante do peito, entoa a antífona; o acólito responde.
Introíbo ad altáre Dei.
Subirei ao altar de Deus.
Ad Deum, qui lætíficat juventútem meam.
A Deus, que alegra a minha juventude.
Salmo 42, dito em falas alternadas. (Omite-se nas Missas de Réquiem e nas Missas do Tempo, do Domingo da Paixão à Quinta-feira Santa.)
Júdica me, Deus, et discérne causam meam de gente non sancta: ab hómine iníquo et dolóso érue me.
Julga-me, ó Deus, e distingue a minha causa da de uma gente que não é santa; livra-me do homem iníquo e enganador.
Quia tu es, Deus, fortitúdo mea: quare me repulísti, et quare tristis incédo, dum afflígit me inimícus?
Pois tu és, ó Deus, a minha fortaleza: por que me repeliste, e por que ando eu triste, enquanto o inimigo me aflige?
Emítte lucem tuam et veritátem tuam: ipsa me deduxérunt, et adduxérunt in montem sanctum tuum et in tabernácula tua.
Envia a tua luz e a tua verdade: elas me conduziram e me levaram ao teu monte santo e às tuas tendas.
Et introíbo ad altáre Dei: ad Deum, qui lætíficat juventútem meam.
E subirei ao altar de Deus: a Deus, que alegra a minha juventude.
Confitébor tibi in cíthara, Deus, Deus meus: quare tristis es, ánima mea, et quare contúrbas me?
Louvar-te-ei na cítara, ó Deus, meu Deus: por que estás triste, minha alma, e por que me perturbas?
Spera in Deo, quóniam adhuc confitébor illi: salutáre vultus mei, et Deus meus.
Espera em Deus, pois ainda o louvarei: salvação da minha face e meu Deus.
Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto.
Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo.
Sicut erat in princípio, et nunc, et semper: et in sǽcula sæculórum. Amen.
Como era no princípio, agora e sempre: e pelos séculos dos séculos. Amém.
O sacerdote repete a antífona.
Introíbo ad altáre Dei.
Subirei ao altar de Deus.
Ad Deum, qui lætíficat juventútem meam.
A Deus, que alegra a minha juventude.
O sacerdote faz o sinal da cruz, dizendo:
℣.Adjutórium nostrum in nómine Dómini.
O nosso auxílio está no nome do Senhor.
℟.Qui fecit cælum et terram.
Que fez o céu e a terra.
Explicação

O que é
Chegado ao pé do altar, feita a reverência à cruz (ou a genuflexão, se o Santíssimo Sacramento está no sacrário), o sacerdote fica voltado para o altar e para a cruz, na posição chamada ad orientem, e faz o sinal da cruz em voz clara: “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém”. Depois, com as mãos juntas diante do peito, entoa a antífona Introíbo ad altáre Dei, e o acólito responde: Ad Deum, qui lætíficat juventútem meam. Seguem-se, em falas alternadas, o Salmo 42 (na numeração da Vulgata), o Iudica me, com o Glória ao Pai e a repetição da antífona. Este é o início das chamadas orações ao pé do altar, que preparam o sacerdote e os fiéis para subir ao altar.
O salmo é um clamor de quem se sente injustiçado e, ao mesmo tempo, confia em Deus: “Julga-me, ó Deus, e distingue a minha causa”. O refrão, que se repete, dá o sentido do rito: o sacerdote vai subir ao altar de Deus, e quem sobe é uma criatura pecadora que se alegra, não de si mesma, mas de Deus. A tradição espiritual viu nas palavras “a Deus que alegra a minha juventude” a promessa de uma vida nova, dada pela graça.
De onde vem
Na Missa romana antiga não havia orações ao pé do altar: o papa e seus ministros entravam em silêncio, prostravam-se um instante em oração e a cerimônia começava com o canto do Intróito. As orações da preparação surgiram como devoção privada dos sacerdotes, na Gália e nos mosteiros francos, entre os sécs. IX e XI, e foram crescendo de modo diverso em cada região. O Salmo 42 aparece como oração de entrada em vários livros dos sécs. XI e XII. O Ordo Missae de Johannes Burckardt, mestre de cerimônias pontifício (1502), e depois o Missal de São Pio V (1570) fixaram a forma que ainda se segue em 1962. Por isso o séc. XI é a data razoável para a entrada desta oração no uso comum; mas é preciso lembrar que não se trata de um elemento romano primitivo.
O que significa
Os intérpretes tradicionais leem aqui uma ascensão espiritual: o sacerdote sobe do pé à mesa do altar como o homem sobe do exílio ao monte santo. O diálogo com o acólito mostra que o povo participa: o ministro fala em nome dos fiéis. A inclinação diante do altar ensina a humildade. E o próprio salmo, com sua tristeza e sua esperança (“por que estás triste, minha alma?”), exprime o estado de quem se apresenta a Deus sem mérito próprio.
Rubricas
- O sacerdote faz o sinal da cruz em voz alta, com a mão esquerda sob o peito, e com as mãos juntas começa a antífona. As respostas do acólito são em voz clara. Na Missa solene, o diácono e o subdiácono, um de cada lado, respondem com o acólito (Ritus servandus, III).
- O salmo é dito em falas alternadas: o sacerdote diz a primeira, o acólito responde, e assim até o fim. No Glória ao Pai o sacerdote inclina a cabeça à cruz.
- Depois do salmo repete-se a antífona Introíbo. Em seguida o sacerdote faz de novo o sinal da cruz ao dizer Adjutórium nostrum in nómine Dómini.
- O salmo (com o Glória ao Pai e a repetição da antífona) é omitido nas Missas de Missa de Réquiem e nas Missas do Tempo (Tempo da Paixão), isto é, do domingo ou do dia da semana e não de um santo, do Domingo da Paixão até a Quinta-feira Santa (Código de Rubricas, n. 425). Nesses casos, depois do sinal da cruz e da antífona, passa-se logo ao Adjutórium e ao Confiteor.
- O salmo, o Confiteor e as orações que os seguem (Aufer a nobis e Orámus te) omitem-se também quando a Missa vem logo depois de uma bênção com procissão (Candelária, Quarta-feira de Cinzas, Domingo de Ramos, Rogações) e na Vigília Pascal (n. 424).
Fontes
- Missale Romanum (1962), Ordo Missae e Ritus servandus, III
- Código de Rubricas (Rubricarum instructum, 1960), AAS 52 (1960), nn. 424–425, 520
- Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948), vol. I: as orações ao pé do altar
- Adrian Fortescue, The Mass: a Study of the Roman Liturgy (1912)
- Divinum Officium: Ordo Missae