Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Mistura da Água e do Vinho

Deus, qui humánæ substántiæ

O sacerdote põe no cálice vinho e uma gota de água, que abençoa, e pede que nos tornemos participantes da divindade daquele que partilhou a nossa humanidade.

Parte de
Ofertório · Ofertório
Origem
séc. IX · Síntese franco-romanaColeta de Natal já presente no Sacramentário Veronense (chamado Leonino), adotada na Idade Média como oração da mistura (data exata discutida); o gesto em si é muito mais antigo
Quem
O sacerdote (na Missa solene, o diácono verte o vinho e o subdiácono a água). · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: Costume local: sentados ou de joelhos, em silêncio.Missa cantada e solene: Costume local: sentados enquanto a schola canta.

O texto

Vertido o vinho no cálice, o sacerdote abençoa a água com um sinal da cruz, ao dizer as primeiras palavras da oração; algumas gotas são vertidas no cálice e ele prossegue (nas Missas de Defuntos a oração é dita, mas sem o sinal da cruz sobre a água):

S.

Deus, + qui humánæ substántiæ dignitátem mirabíliter condidísti, et mirabílius reformásti: da nobis per hujus aquæ et vini mystérium, ejus divinitátis esse consórtes, qui humanitátis nostræ fíeri dignátus est párticeps, Jesus Christus, Fílius tuus, Dóminus noster: Qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti Deus: per ómnia sǽcula sæculórum. Amen.

Ó Deus, que de modo admirável criastes a dignidade da natureza humana e de modo ainda mais admirável a restaurastes: dai-nos, pelo mistério desta água e deste vinho, tornar-nos participantes da divindade daquele que se dignou tornar-se participante da nossa humanidade, Jesus Cristo, vosso Filho, nosso Senhor: que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Explicação

O que é

Depois de depor a hóstia sobre o corporal, o sacerdote prepara o cálice: nele verte vinho e, em seguida, algumas gotas de água. Antes de misturar, abençoa a água com um sinal da cruz, dizendo a primeira parte da oração Deus, qui humánæ substántiæ; ao verter as gotas, prossegue com a segunda parte (da nobis…). A oração é dita em silêncio, e a Missa prossegue com a oferta do cálice.

O gesto parece simples, e é muito antigo. Já São Justino fala de “uma taça de água e de vinho misturado” (Primeira Apologia, 65), e São Cipriano de Cartago, em meados do séc. III, escreve uma carta inteira (Epístola 63) contra os que ofereciam só água no cálice: segundo ele, o povo cristão (a água) deve estar unido a Cristo (o vinho) no cálice, e essa união não se desfaz. O Concílio de Trento lembra que a Igreja manda misturar a água ao vinho (sessão XXII, cap. 7), por ser o que o Senhor, segundo a tradição, fez, e por lembrar a água e o sangue que saíram do seu lado; a mistura é, portanto, prescrita, embora, segundo a doutrina comum dos teólogos (Santo Tomás, Suma Teológica III, q. 74), o que é necessário à validade seja o vinho de uva, e não a água.

De onde vem

A mistura de água e vinho vem do costume da mesa antiga, em que o vinho se bebia diluído, e foi interpretada desde cedo em sentido simbólico. A oração que a acompanha, porém, é bem mais tardia. O texto Deus, qui humánæ substántiæ já aparece no Sacramentário Veronense (o chamado Leonino) como coleta do Natal, e continua sendo a coleta do dia de Natal no Missal de 1970; foi depois adotado como oração do gesto da mistura. Os estudiosos concordam sobre o caminho geral (Natal → mistura), mas não sobre as datas exatas de cada passo; adotamos, por convenção, o séc. IX como ponto em que a oração é atestada neste lugar, e o Missal de 1570 fixou-a como a conhecemos.

O que significa

A oração tem duas metades. Na primeira, agradece-se: Deus criou a dignidade da natureza humana de modo admirável e a restaurou de modo ainda mais admirável (pela Redenção). Na segunda, pede-se: “dai-nos, pelo mistério desta água e deste vinho, tornar-nos participantes da divindade daquele que se dignou tornar-se participante da nossa humanidade”. O vinho figura o Senhor divino; a água, a humanidade que se une a Ele. É um dos textos mais densos de todo o Ofertório: nele ressoa o antigo ensinamento dos Padres sobre a “admirável troca” — Deus se fez homem para que o homem participasse da vida divina.

Rubricas

Na Missa rezada o sacerdote toma o cálice, leva-o para o lado da Epístola e o enxuga com o purificatório. Segurando-o pelo nó com a mão esquerda, recebe do acólito (que antes beija a galheta, mas não a mão do sacerdote) a galheta do vinho e o verte no cálice. Em seguida, segurando de novo o cálice, traça um sinal da cruz sobre a galheta da água, ao dizer “Deus, + qui…”, e algumas gotas são vertidas no cálice; o sacerdote prossegue: da nobis… (Ritus servandus VII, 4). A bênção é dada sobre a água antes de ser derramada.

Na Missa solene

Na Missa solene o subdiácono enxuga o cálice com o purificatório; o diácono verte o vinho. O subdiácono mostra então ao celebrante a galheta da água, dizendo Benedícite, Pater reverénde; o celebrante a abençoa com o sinal da cruz ao dizer Deus, qui humánæ…, e a água é vertida no cálice. Em seguida o diácono entrega o cálice ao celebrante para a oferta (Ritus servandus VII, 9).

Fontes

  1. Missale Romanum, ed. typica 1962: Ordo Missae e Ritus servandus VII
  2. Divinum Officium: Ordo Missae, Offertorium (texto latino)
  3. São Cipriano de Cartago, Epístola 63
  4. São Justino, Primeira Apologia, 65
  5. Concílio de Trento, sessão XXII, cap. 7
  6. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica III, q. 74
  7. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia, vol. II, parte sobre o Ofertório