Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Communicantes

Communicántes

A Igreja da terra se une à Igreja do céu: nomeia a Virgem Maria, São José, os Apóstolos e uma lista de mártires dos primeiros séculos.

Parte de
Cânon Romano · Cânon Romano
Origem
séc. V · Patrístico romanoLista de santos de Roma fixada entre os sécs. V e VI; a menção de São José é de 1962
Quem
O sacerdote, de mãos estendidas · Em silêncio (secreto)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: De joelhos, em silêncio.Missa cantada e solene: De joelhos. O celebrante reza em voz baixa; no Natal, na Epifania, na Quinta-feira Santa, na Páscoa, na Ascensão e em Pentecostes o início da oração traz uma fórmula própria da festa.

O texto

Com as mãos estendidas, diz; ao dizer Jesu Christi, inclina a cabeça para a cruz:

S.

Communicántes, et memóriam venerántes, in primis gloriósæ semper Vírginis Maríæ, Genetrícis Dei et Dómini nostri Jesu Christi: sed et beáti Joseph, ejúsdem Vírginis Sponsi,

Em comunhão, e venerando a memória, primeiramente, da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo; e também do bem-aventurado José, esposo da mesma Virgem,

S.

et beatórum Apostolórum ac Mártyrum tuórum, Petri et Pauli, Andréæ, Jacóbi, Joánnis, Thomæ, Jacóbi, Philíppi, Bartholomǽi, Matthǽi, Simónis et Thaddǽi: Lini, Cleti, Cleméntis, Xysti, Cornélii, Cypriáni, Lauréntii, Chrysógoni, Joánnis et Pauli, Cosmæ et Damiáni: et ómnium Sanctórum tuórum;

e dos vossos bem-aventurados Apóstolos e Mártires, Pedro e Paulo, André, Tiago, João, Tomé, Tiago, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Simão e Tadeu; Lino, Cleto, Clemente, Sisto, Cornélio, Cipriano, Lourenço, Crisógono, João e Paulo, Cosme e Damião; e de todos os vossos Santos;

S.

quorum méritis precibúsque concédas, ut in ómnibus protectiónis tuæ muniámur auxílio.

por cujos méritos e preces concedei que em tudo sejamos amparados pelo auxílio da vossa proteção.

Junta as mãos:

S.

Per eúndem Christum, Dóminum nostrum. Amen.

Pelo mesmo Cristo, nosso Senhor. Amém.

Explicação

O que é

Communicántes quer dizer “em comunhão com”. A oração coloca a assembleia da terra em comunhão com os santos do céu. Nomeia primeiro a gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus; depois, desde 1962, São José, esposo da Virgem; depois doze Apóstolos, cinco papas e sete outros mártires. Termina pedindo que, pelos méritos e preces desses santos, Deus nos conceda ser amparados em tudo pelo auxílio da sua proteção.

De onde vem

A lista é romana e muito antiga: nomeia mártires que a Igreja de Roma honrava com culto próprio na Antiguidade tardia. Não consta do trecho do De Sacramentis que citamos; entra no Cânon ao longo dos séculos V e VI e já estava como a temos no tempo de São Gregório Magno. Na Idade Média houve a tendência de ampliá-la com santos locais e com cláusulas próprias (como a que Gregório III, de 731 a 741, mandou acrescentar para a festa de Todos os Santos): missais de várias regiões acrescentaram nomes. O Missal de São Pio V (1570) suprimiu esses acréscimos e restaurou a lista antiga, e é ela que se mantém.

A menção de São José é a alteração mais notável do texto do Cânon em muitos séculos. Foi acrescentada pelo Papa João XXIII: o decreto da Sagrada Congregação dos Ritos é de 13 de novembro de 1962, e a mudança vigorou a partir de 8 de dezembro desse ano. A edição típica do Missal de 1962 saiu antes do decreto; os exemplares impressos depois incluem a frase no texto, logo depois da Virgem: sed et beáti Joseph, ejúsdem Vírginis Sponsi. O texto dado abaixo já a contém.

Quem são os santos nomeados

Os Apóstolos
Pedro e Paulo, André, Tiago (o Maior), João, Tomé, Tiago (o Menor), Filipe, Bartolomeu, Mateus, Simão e Tadeu: doze nomes, nos quais Paulo completa o número no lugar de Judas; Matias, que foi eleito para esse lugar, é nomeado no Nobis quoque.
Os papas
Lino, Cleto e Clemente, os três primeiros sucessores de Pedro na lista romana; Sisto (Xystus, provavelmente Sisto II, morto em 258, embora a identificação seja discutida) e Cornélio (251–253).
Os outros mártires
Cipriano, bispo de Cartago (258), lembrado em Roma como grande mártir do Ocidente apesar do antigo desentendimento com o Papa Estêvão; Lourenço, diácono de Roma (258); Crisógono, mártir venerado em Roma; João e Paulo, mártires venerados em Roma; e Cosme e Damião, irmãos médicos e mártires do Oriente, venerados em Roma desde a Antiguidade tardia.

O que significa

A lista não é um catálogo exaustivo, mas um lembrete de que a Missa é celebrada em comunhão com a Igreja inteira, a peregrina e a gloriosa. Os Apóstolos e os primeiros mártires, que deram testemunho com o próprio sangue, são fiadores da continuidade: o sacrifício que eles celebraram, ou pelo qual morreram, é o que se oferece agora. Há também uma lição de confiança: a Igreja da terra não reza sozinha, e pede o amparo dos que já chegaram.

O Communicantes próprio das grandes festas

Em seis ocasiões do ano o início do Communicántes é substituído por uma fórmula própria, que menciona a festa: o Natal (e sua oitava), a Epifania, a Quinta-feira Santa, a Páscoa (do Sábado Santo ao sábado in Albis), a Ascensão e Pentecostes (da Vigília ao sábado seguinte). A Enciclopédia Católica (1908) fala em cinco festas, sem contar a Quinta-feira Santa, cuja fórmula própria também consta do Missal. Nas cinco primeiras, os textos aparecem no missal junto ao Prefácio da festa, sob o título Infra actionem, “dentro da ação”, isto é, dentro do Cânon. O exemplo abaixo é o do Natal; o resto da oração é idêntico ao ordinário.

S.

Communicántes, et diem sacratíssimum celebrántes, quo beátæ Maríæ intemeráta virgínitas huic mundo édidit Salvatórem: sed et memóriam venerántes, in primis ejúsdem gloriósæ semper Vírginis Maríæ, Genetrícis ejúsdem Dei et Dómini nostri Jesu Christi: sed et beáti Joseph, ejúsdem Vírginis Sponsi,

Em comunhão, e celebrando o dia santíssimo em que a imaculada virgindade de Maria deu ao mundo o Salvador, e venerando também a memória, primeiramente, da mesma gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe do mesmo Deus e Senhor nosso Jesus Cristo; e também do bem-aventurado José, esposo da mesma Virgem,

…e continua como no texto ordinário: et beatórum Apostolórum ac Mártyrum tuórum…

O início próprio do Communicantes em 1962
FestaQuandoPalavras características
Natal25 de dezembro e durante a oitava“…quo beátæ Maríæ intemeráta virgínitas huic mundo édidit Salvatórem…”
Epifania6 de janeiro“…quo Unigénitus tuus, in tua tecum glória coætérnus, in veritáte carnis nostræ visibíliter corporális appáruit…”
Quinta-feira SantaMissa da Ceia do Senhor“…diem sacratíssimum celebrántes, quo Dóminus noster Jesus Christus pro nobis est tráditus…”
PáscoaDo Sábado Santo ao sábado in albis“…diem sacratíssimum celebrántes Resurrectiónis Dómini nostri Jesu Christi secúndum carnem…”
AscensãoDia da Ascensão“…quo Dóminus noster, unigénitus Fílius tuus, unítam sibi fragilitátis nostræ substántiam in glóriæ tuæ déxtera collocávit…”
PentecostesDa Vigília ao sábado seguinte“…diem sacratíssimum Pentecóstes celebrántes, quo Spíritus Sanctus Apóstolis innúmeris linguis appáruit…”

Rubricas

O sacerdote mantém as mãos estendidas durante a oração e, ao dizer Jesu Christi, inclina a cabeça para a cruz. No final, em Per eúndem Christum, Dóminum nostrum, apenas junta as mãos (Ritus servandus VIII). O Amen que fecha o Communicántes encerra o primeiro bloco do Cânon, formado por Te igitur, Meménto e Communicántes: as três orações são, na prática, uma só, terminada pela fórmula conclusiva do último.

Fontes

  1. Divinum Officium, Ordo Missae (Missale Romanum 1962, rubricas de 1960)
  2. Ritus servandus in celebratione Missae (Missale Romanum 1962), tít. VIII–IX; tradução inglesa não oficial
  3. Catholic Encyclopedia (1908), “Canon of the Mass”
  4. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948; ed. inglesa The Mass of the Roman Rite, 1951–1955), vol. II
  5. A. Fortescue, The Mass: a Study of the Roman Liturgy (1912), cap. sobre o Cânon