Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Pai-Nosso

Pater noster

Depois do Cânon, o sacerdote canta ou diz em voz alta a oração que o próprio Senhor nos ensinou, como preparação imediata para a Comunhão. Só o último pedido é respondido por outro: “Mas livrai-nos do mal”.

Parte de
Comunhão · Rito da Comunhão
Origem
séc. VI · Patrístico romanoPosto logo depois do Cânon em Roma; São Gregório Magno defende esse lugar numa carta de c. 598–599
Quem
O sacerdote; o ministro (e, conforme o caso, os fiéis) responde “Sed líbera nos a malo” · Voz alta (vox clara)
Texto
Ordinário: o mesmo em toda Missa
Os fiéis
Missa rezada: Por costume, de joelhos, como no Cânon: o Código de Rubricas de 1960 não fixa postura para os fiéis na Missa rezada, e vale o costume do lugar. Na Missa dialogada, a Instrução de 1958 (n. 32) permite que todos rezem o Pai-Nosso em latim com o sacerdote, e o Amém final é de todos.Missa cantada e solene: De joelhos ou em pé, segundo o costume do lugar. O coro (ou, pela Instrução de 1958, n. 25, os próprios fiéis) responde “Sed líbera nos a malo”. Siga o que o mestre de cerimônias ou a comunidade indicar.

O texto

De mãos juntas diante do peito, o sacerdote diz com voz inteligível (ou canta):

S.

Orémus: Præcéptis salutáribus móniti, et divína institutióne formáti audémus dícere:

Oremos. Advertidos por preceitos salutares e formados por ensinamento divino, ousamos dizer:

Estende as mãos e prossegue:

S.

Pater noster, qui es in cælis.

Pai nosso, que estais nos céus.

S.

Sanctificétur nomen tuum.

Santificado seja o vosso nome.

S.

Advéniat regnum tuum.

Venha a nós o vosso reino.

S.

Fiat volúntas tua, sicut in cælo et in terra.

Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.

S.

Panem nostrum quotidiánum da nobis hódie.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

S.

Et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris.

E perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.

S.

℣.Et ne nos indúcas in tentatiónem:

E não nos deixeis cair em tentação;

M.

℟.Sed líbera nos a malo.

mas livrai-nos do mal.

O sacerdote diz em silêncio:

S.

Amen.

Amém.

Explicação

Missal Romano de 1904 aberto no Cânon da Missa: à esquerda, a gravura da Crucificação com Nossa Senhora e São João; à direita, o título Canon Missae, o início do Te igitur com a inicial ilustrada e as rubricas impressas em vermelho.
Missal Romano datado de 1904, muito usado, aberto no Cânon da Missa, com texto em preto e rubricas em vermelho. Paróquia de Santa Catarina de Alexandria, Natércia (MG). Juliédson Artur Malaquias Reis · CC BY-SA 4.0

O que é

Terminado o Cânon com o “Per ipsum”, o sacerdote junta as mãos e introduz o Pai-Nosso com uma fórmula solene: “Orémus. Præcéptis salutáribus móniti, et divína institutióne formáti, audémus dícere” — “Oremos. Advertidos por preceitos salutares e formados por ensinamento divino, ousamos dizer”. A palavra audémus, “ousamos”, diz tudo: é com atrevimento filial que criaturas pecadoras chamam Deus de Pai, e o fazem porque o próprio Cristo lhes ordenou. O texto é o do Pai-Nosso de São Mateus (6, 9-13), mas com uma particularidade: o pedido do pão diz quotidiánum (“de cada dia”), como no Pai-Nosso de São Lucas (11, 3), e não supersubstantiálem, que é o que a Vulgata traz em Mateus. A doxologia “porque vosso é o reino…” não se recita na Missa romana: o embolismo que se segue ocupa o seu lugar.

Na Missa rezada, o sacerdote diz o Orémus e o Pai-Nosso em voz clara, com as mãos estendidas (Código de Rubricas de 1960, n. 511); na Missa cantada ou solene, canta-os no tom solene (domingos, festas e dias de oitava) ou no tom ferial (dias comuns e Missas de defuntos), ambos impressos no Missal (nn. 515–516). A resposta “Sed líbera nos a malo” cabe ao ministro (ou ao coro), e o sacerdote diz em silêncio “Amém”. Este diálogo curto, em que a resposta se limita ao último pedido, é uma marca antiga do uso romano.

De onde vem

O lugar do Pai-Nosso na Missa romana é uma das poucas coisas que se pode situar com alguma precisão. Numa carta a João, bispo de Siracusa (c. 598–599; Registrum IX, 12 na numeração maurina), São Gregório Magno defende o costume romano de recitá-lo logo depois da prece do Cânon, contra quem o acusava de imitar Constantinopla, e observa que em Roma ele é dito só pelo sacerdote, ao passo que entre os gregos é dito por todo o povo. Muitos estudiosos entendem que Roma o antecipou então, tirando-o do lugar que ocupava depois da fração; o ponto, porém, é debatido. Antes disso, os Padres já viam na oração uma preparação para a Comunhão: São Cipriano (séc. III) e Santo Agostinho (séc. IV–V) leem o pedido do “pão de cada dia” também em chave eucarística, e o “perdoai-nos as nossas dívidas” como purificação necessária para comungar.

O que significa

Cada pedido encontra eco no momento da Missa. “Venha a nós o vosso reino” e “seja feita a vossa vontade” colocam o fiel na disposição do próprio Cristo no Getsêmani. “O pão nosso de cada dia” é lido, desde os Padres, também como o pão eucarístico. “Perdoai-nos... como nós perdoamos” lembra que a Comunhão exige reconciliação. E o último pedido, “não nos deixeis cair em tentação”, respondido com “mas livrai-nos do mal”, abre diretamente a oração seguinte, o embolismo Líbera nos, que desenvolve esse “mal” em uma longa súplica.

Rubricas

Para a formação: a rubrica manda o sacerdote ter as mãos estendidas durante o Pai-Nosso e dizer em silêncio o “Amém” final. A Instrução De musica sacra et sacra liturgia (Sagrada Congregação dos Ritos, 3 de setembro de 1958) trouxe duas determinações importantes. Primeiro, no n. 31, incluiu “Sed líbera nos a malo” entre as respostas mais fáceis que o povo pode dar ao sacerdote (primeiro grau de participação na Missa rezada; no n. 25, o mesmo vale para a Missa cantada). Segundo, no n. 32, afirmou que, sendo o Pai-Nosso uma oração “conveniente e antiga” de preparação para a Comunhão, toda a assembleia pode recitá-lo em uníssono com o sacerdote nas Missas rezadas, e o Amém final é então dito por todos — mas só em latim, nunca em língua vulgar. É o que se pratica hoje na Missa dialogada. (Os números citados são os da tradução inglesa corrente da Instrução; confira-os no texto latino oficial.)

Na Missa solene

Na Missa solene, o celebrante canta o Orémus e o Pai-Nosso, e o coro responde “Sed líbera nos a malo”. Quando o Pai-Nosso começa, o diácono passa para trás do celebrante, onde fica de pé até o fim; o subdiácono, que guardava a patena sob o véu de ombros, entrega-a ao diácono por volta do fim da oração, e este a passa ao celebrante (Ritus servandus, tit. X). Em seguida, o sacerdote reza em silêncio o embolismo, enquanto o povo permanece em adoração. Veja a parte seguinte: embolismo e fração da Hóstia.

Fontes

  1. Divinum Officium — Ordo Missae do Missale Romanum, texto latino (as rubricas aqui seguem o Ritus servandus de 1962 e o Código de Rubricas de 1960)
  2. Missale Romanum 1962, Ritus servandus in celebratione Missae, tit. X–XII (Pai-Nosso, Comunhão, fim da Missa)
  3. João XXIII, motu proprio Rubricarum instructum, 25 de julho de 1960, com o Código de Rubricas (AAS 52, 1960, pp. 593–740; nn. 502–511 e 517–522 para a Comunhão e o fim da Missa)
  4. Sagrada Congregação dos Ritos, Instrução De musica sacra et sacra liturgia, 3 de setembro de 1958 (AAS 50, 1958, pp. 630–663), nn. 25, 27, 31 e 32
  5. J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: eine genetische Erklärung der römischen Messe, 1948 (5.ª ed. 1962); trad. ing. The Mass of the Roman Rite, 1951–1955
  6. São Gregório Magno, Registrum epistolarum IX, 12, carta a João de Siracusa (c. 598–599)