Pai-Nosso
Pater noster
Depois do Cânon, o sacerdote canta ou diz em voz alta a oração que o próprio Senhor nos ensinou, como preparação imediata para a Comunhão. Só o último pedido é respondido por outro: “Mas livrai-nos do mal”.
O texto
De mãos juntas diante do peito, o sacerdote diz com voz inteligível (ou canta):
Orémus: Præcéptis salutáribus móniti, et divína institutióne formáti audémus dícere:
Oremos. Advertidos por preceitos salutares e formados por ensinamento divino, ousamos dizer:
Estende as mãos e prossegue:
Pater noster, qui es in cælis.
Pai nosso, que estais nos céus.
Sanctificétur nomen tuum.
Santificado seja o vosso nome.
Advéniat regnum tuum.
Venha a nós o vosso reino.
Fiat volúntas tua, sicut in cælo et in terra.
Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.
Panem nostrum quotidiánum da nobis hódie.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris.
E perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.
℣.Et ne nos indúcas in tentatiónem:
E não nos deixeis cair em tentação;
℟.Sed líbera nos a malo.
mas livrai-nos do mal.
O sacerdote diz em silêncio:
Amen.
Amém.
Explicação

O que é
Terminado o Cânon com o “Per ipsum”, o sacerdote junta as mãos e introduz o Pai-Nosso com uma fórmula solene: “Orémus. Præcéptis salutáribus móniti, et divína institutióne formáti, audémus dícere” — “Oremos. Advertidos por preceitos salutares e formados por ensinamento divino, ousamos dizer”. A palavra audémus, “ousamos”, diz tudo: é com atrevimento filial que criaturas pecadoras chamam Deus de Pai, e o fazem porque o próprio Cristo lhes ordenou. O texto é o do Pai-Nosso de São Mateus (6, 9-13), mas com uma particularidade: o pedido do pão diz quotidiánum (“de cada dia”), como no Pai-Nosso de São Lucas (11, 3), e não supersubstantiálem, que é o que a Vulgata traz em Mateus. A doxologia “porque vosso é o reino…” não se recita na Missa romana: o embolismo que se segue ocupa o seu lugar.
Na Missa rezada, o sacerdote diz o Orémus e o Pai-Nosso em voz clara, com as mãos estendidas (Código de Rubricas de 1960, n. 511); na Missa cantada ou solene, canta-os no tom solene (domingos, festas e dias de oitava) ou no tom ferial (dias comuns e Missas de defuntos), ambos impressos no Missal (nn. 515–516). A resposta “Sed líbera nos a malo” cabe ao ministro (ou ao coro), e o sacerdote diz em silêncio “Amém”. Este diálogo curto, em que a resposta se limita ao último pedido, é uma marca antiga do uso romano.
De onde vem
O lugar do Pai-Nosso na Missa romana é uma das poucas coisas que se pode situar com alguma precisão. Numa carta a João, bispo de Siracusa (c. 598–599; Registrum IX, 12 na numeração maurina), São Gregório Magno defende o costume romano de recitá-lo logo depois da prece do Cânon, contra quem o acusava de imitar Constantinopla, e observa que em Roma ele é dito só pelo sacerdote, ao passo que entre os gregos é dito por todo o povo. Muitos estudiosos entendem que Roma o antecipou então, tirando-o do lugar que ocupava depois da fração; o ponto, porém, é debatido. Antes disso, os Padres já viam na oração uma preparação para a Comunhão: São Cipriano (séc. III) e Santo Agostinho (séc. IV–V) leem o pedido do “pão de cada dia” também em chave eucarística, e o “perdoai-nos as nossas dívidas” como purificação necessária para comungar.
O que significa
Cada pedido encontra eco no momento da Missa. “Venha a nós o vosso reino” e “seja feita a vossa vontade” colocam o fiel na disposição do próprio Cristo no Getsêmani. “O pão nosso de cada dia” é lido, desde os Padres, também como o pão eucarístico. “Perdoai-nos... como nós perdoamos” lembra que a Comunhão exige reconciliação. E o último pedido, “não nos deixeis cair em tentação”, respondido com “mas livrai-nos do mal”, abre diretamente a oração seguinte, o embolismo Líbera nos, que desenvolve esse “mal” em uma longa súplica.
Rubricas
Para a formação: a rubrica manda o sacerdote ter as mãos estendidas durante o Pai-Nosso e dizer em silêncio o “Amém” final. A Instrução De musica sacra et sacra liturgia (Sagrada Congregação dos Ritos, 3 de setembro de 1958) trouxe duas determinações importantes. Primeiro, no n. 31, incluiu “Sed líbera nos a malo” entre as respostas mais fáceis que o povo pode dar ao sacerdote (primeiro grau de participação na Missa rezada; no n. 25, o mesmo vale para a Missa cantada). Segundo, no n. 32, afirmou que, sendo o Pai-Nosso uma oração “conveniente e antiga” de preparação para a Comunhão, toda a assembleia pode recitá-lo em uníssono com o sacerdote nas Missas rezadas, e o Amém final é então dito por todos — mas só em latim, nunca em língua vulgar. É o que se pratica hoje na Missa dialogada. (Os números citados são os da tradução inglesa corrente da Instrução; confira-os no texto latino oficial.)
Na Missa solene
Na Missa solene, o celebrante canta o Orémus e o Pai-Nosso, e o coro responde “Sed líbera nos a malo”. Quando o Pai-Nosso começa, o diácono passa para trás do celebrante, onde fica de pé até o fim; o subdiácono, que guardava a patena sob o véu de ombros, entrega-a ao diácono por volta do fim da oração, e este a passa ao celebrante (Ritus servandus, tit. X). Em seguida, o sacerdote reza em silêncio o embolismo, enquanto o povo permanece em adoração. Veja a parte seguinte: embolismo e fração da Hóstia.
Fontes
- Divinum Officium — Ordo Missae do Missale Romanum, texto latino (as rubricas aqui seguem o Ritus servandus de 1962 e o Código de Rubricas de 1960)
- Missale Romanum 1962, Ritus servandus in celebratione Missae, tit. X–XII (Pai-Nosso, Comunhão, fim da Missa)
- João XXIII, motu proprio Rubricarum instructum, 25 de julho de 1960, com o Código de Rubricas (AAS 52, 1960, pp. 593–740; nn. 502–511 e 517–522 para a Comunhão e o fim da Missa)
- Sagrada Congregação dos Ritos, Instrução De musica sacra et sacra liturgia, 3 de setembro de 1958 (AAS 50, 1958, pp. 630–663), nn. 25, 27, 31 e 32
- J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: eine genetische Erklärung der römischen Messe, 1948 (5.ª ed. 1962); trad. ing. The Mass of the Roman Rite, 1951–1955
- São Gregório Magno, Registrum epistolarum IX, 12, carta a João de Siracusa (c. 598–599)