Munda cor meum
Munda cor meum / Jube, Dómine, benedícere
Antes de proclamar o Evangelho, o ministro pede a Deus que purifique o seu coração e os seus lábios, como o serafim purificou os lábios do profeta Isaías com uma brasa.
O texto
Missa rezada: o sacerdote, inclinado ao centro do altar, de mãos juntas, diz em silêncio:
Munda cor meum ac lábia mea, omnípotens Deus, qui lábia Isaíæ Prophétæ cálculo mundásti igníto: ita me tua grata miseratióne dignáre mundáre, ut sanctum Evangélium tuum digne váleam nuntiáre. Per Christum, Dóminum nostrum. Amen.
Purifica o meu coração e os meus lábios, ó Deus onipotente, que purificaste com uma brasa ardente os lábios do profeta Isaías; digna-te, por tua benigna misericórdia, purificar-me de modo que eu possa anunciar dignamente o teu santo Evangelho. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.
Jube, Dómine, benedícere. Dóminus sit in corde meo et in lábiis meis: ut digne et competénter annúntiem Evangélium suum. Amen.
Digna-te, Senhor, abençoar-me. O Senhor esteja no meu coração e nos meus lábios, para que eu anuncie digna e competentemente o seu Evangelho. Amém.
Missa solene: o diácono, de joelhos diante do altar, reza o Munda cor meum e, tomando o livro, pede a bênção ao celebrante:
Jube, domne, benedícere.
Digna-te, senhor, abençoar-me.
Dóminus sit in corde tuo et in lábiis tuis: ut digne et competénter annúnties Evangélium suum: In nómine Patris, et Fílii, et Spíritus Sancti. Amen.
O Senhor esteja no teu coração e nos teus lábios, para que anuncies digna e competentemente o seu Evangelho: em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Explicação
O que é
Terminado o Gradual (ou o Aleluia, Trato ou Sequência), o sacerdote leva o missal do lado da Epístola para o lado do Evangelho e, ao centro do altar, inclinado, reza em silêncio a oração Munda cor meum: “Purifica o meu coração e os meus lábios, ó Deus onipotente, que purificaste com uma brasa os lábios do profeta Isaías”. Em seguida pede a bênção de Deus para anunciar “digna e competentemente” o seu Evangelho. Na Missa solene é o diácono quem faz essa oração, de joelhos, diante do altar, e depois pede a bênção ao celebrante.
De onde vem
A oração faz parte do grupo das chamadas apologiæ, preces privadas de humildade que se difundiram nos livros francos e germânicos dos sécs. X e XI, quando o Evangelho foi cercado de maior pompa. O pedido de bênção ao celebrante pelo diácono é bem anterior: o diálogo Jube, domne, benedícere / Dóminus sit in corde tuo já aparece nos ordines romanos antigos. A referência bíblica da oração é a visão de Isaías (Is 6,6-7), em que o serafim toca os lábios do profeta com uma brasa tirada do altar. Como a oração Munda cor meum é uma dessas preces privadas medievais, o séc. XI é uma aproximação; o Missal de 1570 apenas fixou o texto.
O que significa
O Evangelho é a palavra de Cristo; quem o proclama deve ser purificado para não se tornar obstáculo à palavra. A imagem da brasa e do altar conecta a leitura ao Sacrifício que se seguirá. A bênção que o diácono recebe, Dóminus sit in corde tuo et in lábiis tuis, pede que Deus esteja “no coração” (compreensão) e “nos lábios” (anúncio) de quem lê.
Rubricas
- Missa rezada: o sacerdote, ao centro, de mãos juntas, ergue os olhos e logo os baixa e, profundamente inclinado, reza em silêncio Munda cor meum e Jube, Dómine, benedícere; depois vai ao livro, no lado do Evangelho (Ritus servandus, VI, 2).
- Missa solene: o diácono põe o livro dos Evangelhos no meio do altar; o celebrante põe incenso no turíbulo e o benze; o diácono, de joelhos no degrau mais alto, reza Munda cor meum, toma o livro e, de novo de joelhos, pede a bênção: Jube, domne, benedícere. O celebrante responde Dóminus sit in corde tuo…, fazendo sobre ele o sinal da cruz (VI, 5).
- Nas Missas de Réquiem diz-se Munda cor meum, mas não se pede a bênção, não se levam luzes e o livro não é beijado.
Fontes
- Missale Romanum (1962), Ordo Missae e Ritus servandus, VI, 2 e 5
- Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948): as apologiæ e a preparação do Evangelho
- Divinum Officium: Ordo Missae