Missa Tridentinao rito romano antigo, explicado
Ordinário

Gradual, Aleluia, Trato e Sequência

Graduale, Allelúja, Tractus, Sequentia

Entre a Epístola e o Evangelho, a Igreja canta um salmo (o Gradual), seguido de Aleluia ou, da Septuagésima à Páscoa e nas Missas de Réquiem, de um Trato. Em certos dias há ainda uma Sequência, um hino medieval próprio.

Parte de
Missa dos Catecúmenos · Liturgia da Palavra
Origem
séc. V · Patrístico romanoSalmo responsorial entre as leituras (séc. IV–V); Aleluia, Trato e Sequências desenvolvem-se até o séc. XIII
Quem
O coro (ou o sacerdote, quando lê); o cantor solista · Cantado
Texto
Próprio: muda conforme o dia
Os fiéis
Missa rezada: Sentados ou de pé, conforme o costume, enquanto o sacerdote lê em voz baixa.Missa cantada e solene: Sentados para escutar o canto do Gradual, do Aleluia e da Sequência (o Código de Rubricas permite ao coro sentar-se, n. 524); levantam-se para o Evangelho.

O que é e de onde vem

Folha de antifonário medieval em pergaminho envelhecido, com notação quadrada em pautas de quatro linhas vermelhas, texto latino em letra gótica e iniciais ornadas em vermelho e preto.
Canto gregoriano em notação quadrada, em pauta de quatro linhas e clave de Fá: manuscrito do século XIV conservado no Arxiu Comarcal del Bages, em Manresa (Catalunha). Joan (fotografia); manuscrito do século XIV · CC BY-SA 3.0

O que é

Entre a Epístola e o Evangelho o Missal prevê um ou dois cantos, que variam com o tempo litúrgico. O Gradual é um responsório com versículo de salmo; costuma ser seguido do Aleluia com seu versículo. Do domingo da Septuagésima até a Páscoa, e nas Missas de Missa de Réquiem, o Aleluia é substituído pelo Trato, um canto sem resposta, formado em geral de vários versículos de um salmo. No Tempo Pascal o Gradual é cantado do Domingo da Páscoa à sexta-feira da oitava; a partir do Sábado in albis ele cede lugar a Aleluias com dois versículos. Em alguns poucos dias há ainda, depois do Aleluia (ou do Trato), uma Sequência, um hino rimado.

De onde vem

O canto de um salmo entre as leituras era conhecido já no séc. IV, como mostram os sermões de Santo Agostinho. O nome Gradual vem de gradus (“degrau”), porque era cantado nos degraus do ambão, a tribuna das leituras; os estudiosos discutem se o nome se refere ao degrau ou ao canto gradual. O Aleluia, palavra hebraica que significa “louvai o Senhor”, entrou na Missa romana a partir do Oriente; São Gregório Magno (carta a João de Siracusa, 598) afirma, segundo a tradição que recolhe, que o uso romano de cantar o Aleluia fora do tempo pascal vinha de Jerusalém, no tempo do papa Dâmaso e por influência de São Jerônimo, e não de Constantinopla. O Trato é o canto de um salmo sem refrão, que alguns estudiosos consideram a forma mais antiga. As Sequências são criação medieval: começaram como textos sobre as notas do Aleluia (Notker de São Galo, séc. IX) e proliferaram a ponto de o Missal de 1570 conservar apenas quatro; a quinta, Stabat Mater, foi acrescentada em 1727 pelo papa Bento XIII.

O que significa

Depois de escutar a palavra de Deus, o povo responde cantando: o Gradual medita a Epístola, o Aleluia aclama o Evangelho que vai ser lido, e o Trato é o canto de quem suplica, sem poder alegrar-se. A ausência do Aleluia na Quaresma é uma das marcas mais claras do tempo, e seu retorno na Vigília Pascal, uma das mais expressivas. O gregoriano destas peças é, para muitos, o ponto alto musical da Missa.

As cinco Sequências

Sequências do Missal Romano de 1962
SequênciaQuandoAutor (tradição)Primeiras palavras
Víctimae pascháli laudesDomingo da Páscoa até o sábado seguinteWipo de Borgonha (séc. XI)Víctimæ pascháli laudes ímmolent Christiáni
Veni, Sancte SpíritusPentecostes e a sua oitavaAutoria disputada (atribuída a Estêvão Langton, ao papa Inocêncio III e a outros; séc. XII–XIII)Veni, Sancte Spíritus, et emítte cælitus lucis tuæ rádium
Lauda SionCorpus ChristiSão Tomás de Aquino (c. 1264)Lauda Sion Salvatórem, lauda ducem et pastórem
Dies iræMissas de Réquiem (obrigatória só nas de 1ª classe)Tomás de Celano (séc. XIII), segundo a tradiçãoDies iræ, dies illa, solvet sæclum in favílla
Stabat MaterSete Dores de Nossa Senhora (15 de setembro)Atribuída a Jacopone da Todi (séc. XIII–XIV), mas a autoria é discutida; acrescentada ao Missal em 1727Stabat Mater dolorósa juxta crucem lacrimósa

Um exemplo: Domingo da Páscoa

Gradual (Sl 117,24.1) e Aleluia (1Cor 5,7):

C.

Hæc dies, quam fecit Dóminus: exsultémus et lætémur in ea.

Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e alegremo-nos nele.

C.

℣.Confitémini Dómino, quóniam bonus: quóniam in sǽculum misericórdia ejus. Allelúja, allelúja.

Louvai o Senhor, porque é bom, porque a sua misericórdia é para sempre. Aleluia, aleluia.

C.

℣.Pascha nostrum immolátus est Christus.

Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.

Sequência Víctimae pascháli:

C.

Víctimæ pascháli laudes ímmolent Christiáni.

À vítima pascal ofereçam os cristãos louvores.

C.

Agnus rédemit oves: Christus ínnocens Patri reconciliávit peccatóres.

O Cordeiro redimiu as ovelhas: Cristo inocente reconciliou os pecadores com o Pai.

C.

Mors et vita duéllo conflixére mirándo: dux vitæ mórtuus regnat vivus.

A morte e a vida travaram um duelo admirável: o chefe da vida, morto, reina vivo.

C.

Dic nobis, María, quid vidísti in via?

Diz-nos, Maria, o que viste no caminho?

C.

Sepúlcrum Christi vivéntis et glóriam vidi resurgéntis.

Vi o sepulcro de Cristo, que vive, e a glória do Ressuscitado.

C.

Angélicos testes, sudárium et vestes.

Vi as testemunhas angélicas, o sudário e as vestes.

C.

Surréxit Christus, spes mea: præcédet vos in Galilǽam.

Ressuscitou Cristo, minha esperança: precede-vos na Galileia.

C.

Scimus Christum surrexísse a mórtuis vere: tu nobis, victor Rex, miserére. Amen. Allelúja.

Sabemos que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos: tu, ó Rei vencedor, tem piedade de nós. Amém. Aleluia.

Rubricas

  • Na Missa rezada, o sacerdote lê em voz clara a Epístola, o Gradual, o Aleluia (ou o Trato) e a Sequência, no lado da Epístola, e depois leva o missal para o lado do Evangelho (Código de Rubricas, n. 511 e; Ritus servandus, VI, 1).
  • Na Missa cantada ou solene, o coro canta; o celebrante os lê em voz baixa no missal.
  • Gradual e Aleluia: a maior parte dos domingos e festas, inclusive no Advento. Gradual e Trato: nas Missas do Tempo, da Septuagésima ao Sábado Santo, e nas Missas de Réquiem. Só Aleluias, com dois versículos: do Sábado in albis a Pentecostes. Do Domingo da Páscoa à sexta-feira da oitava, Gradual (Hæc dies) e Aleluia.
  • Quando há Sequência, ela vem depois do Aleluia (ou do Trato) e antes do Evangelho. Omite-se nas Missas votivas, e a Dies iræ é obrigatória apenas nas Missas de Réquiem de 1ª classe (Código de Rubricas, nn. 470 e 399).

Fontes

  1. Missale Romanum (1962), Proprium de Tempore; Graduale Romanum (1908; ed. 1961)
  2. Código de Rubricas (1960), nn. 399, 469–470 e 524
  3. Gregório Magno, carta a João de Siracusa (598)
  4. Josef A. Jungmann, Missarum Sollemnia (1948): Gradual, Aleluia, Trato e Sequências
  5. Divinum Officium: Missa do Domingo da Páscoa