Prefácio
Præfátio
O sacerdote convida os fiéis a erguer o coração e dá graças a Deus em nome de todos; é a grande ação de graças que prepara o Cânon.
O texto
O sacerdote conclui a Secreta, dizendo em voz alta:
Per ómnia sǽcula sæculórum.
Por todos os séculos dos séculos.
℟.Amen.
Amém.
Com as mãos sobre o altar, a cada lado do corporal:
℣.Dóminus vobíscum.
O Senhor esteja convosco.
℟.Et cum spíritu tuo.
E com o teu espírito.
Eleva as mãos até a altura do peito:
℣.Sursum corda.
Corações ao alto.
℟.Habémus ad Dóminum.
Temo-los no Senhor.
Junta as mãos; ao dizer Deo nostro, ergue os olhos e inclina a cabeça à cruz:
℣.Grátias agámus Dómino, Deo nostro.
Demos graças ao Senhor, nosso Deus.
℟.Dignum et justum est.
É digno e justo.
Estende as mãos e as mantém assim até o fim do Prefácio. Prefácio comum:
Vere dignum et justum est, æquum et salutáre, nos tibi semper et ubíque grátias ágere: Dómine sancte, Pater omnípotens, ætérne Deus: per Christum, Dóminum nostrum. Per quem majestátem tuam laudant Angeli, adórant Dominatiónes, tremunt Potestátes. Cæli cælorúmque Virtútes ac beáta Séraphim sócia exsultatióne concélebrant. Cum quibus et nostras voces ut admítti jubeas, deprecámur, súpplici confessióne dicéntes:
É verdadeiramente digno e justo, conveniente e salutar, que nós vos demos graças sempre e em todo lugar, Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno, por Cristo, nosso Senhor. Por ele os Anjos louvam a vossa majestade, as Dominações a adoram, as Potestades a temem. Os Céus, as Virtudes celestes e os bem-aventurados Serafins a celebram juntos, com igual exultação. Pedimos-vos que mandeis admitir com eles também as nossas vozes, dizendo em humilde confissão:
Explicação

O que é
O prefácio abre a parte central da Missa. Começa com um diálogo de três perguntas e respostas: Dóminus vobíscum, Sursum corda (“corações ao alto”), Grátias agámus Dómino Deo nostro (“demos graças ao Senhor nosso Deus”); e continua com a ação de graças propriamente dita, que começa com Vere dignum et justum est, “é verdadeiramente digno e justo”. O prefácio termina convidando os Anjos e os homens a cantar juntos o Sanctus, e logo passa ao Cânon.
A palavra “prefácio” (præfátio) não significa “introdução” no sentido moderno: vem de præ-fari, “dizer diante”, isto é, “proclamar em voz alta”, diante de Deus e dos homens. O prefácio é, com efeito, uma proclamação solene em voz alta, em contraste com o silêncio que a envolve.
De onde vem
O diálogo é um dos trechos mais antigos da Missa romana. Hipólito de Roma (Tradição Apostólica, por volta de 215, datação debatida) já o apresenta; São Cipriano de Cartago o cita no De dominica oratione (c. 252) com a expressão Sursum corda; e as Catequeses Mistagógicas (V), atribuídas a São Cirilo de Jerusalém, o comentam (c. 350, ou fim do séc. IV, se forem de seu sucessor João). O texto dos prefácios foi muito variável nos primeiros séculos: o Sacramentário Leonino (ou Veronense) traz mais de 240 prefácios distintos (até uns 268, conforme se contem as variantes), quase um para cada Missa; o Gelasiano antigo, 53; o Hadriano, o sacramentário que o Papa Adriano I enviou a Carlos Magno (772–795), só 14. A partir do séc. XI fixou-se no Ocidente uma lista curta, provavelmente sob a influência de um falso decreto atribuído ao Papa Pelágio II, que autorizava nove prefácios, além do comum; com o de Nossa Senhora, acrescentado no fim do séc. XI, chegou-se aos onze do Missal de São Pio V (1570), na contagem usual (havia ainda um prefácio próprio da bênção dos ramos, suprimido em 1955). No séc. XX foram acrescentados mais quatro, chegando aos quinze do Missal de 1962: São José e Defuntos (1919; este vem do Missal neogalicano de Paris, de 1738), Cristo Rei (1925) e Sagrado Coração (1928).
Os prefácios do Missal de 1962
| Prefácio | Uso, em linhas gerais |
|---|---|
| Comum (Communis) | Missas sem prefácio próprio: a maior parte dos dias de semana e das festas de santos |
| Natal (de Nativitate) | Natal e sua oitava |
| Epifania (de Epiphania) | Epifania |
| Quaresma (de Quadragesima) | Quaresma, até o sábado antes do Domingo da Paixão |
| Santa Cruz (de Sancta Cruce) | Tempo da Paixão e festas da Santa Cruz |
| Páscoa (Paschalis) | Tempo pascal |
| Ascensão (de Ascensione) | Ascensão do Senhor |
| Pentecostes (de Spiritu Sancto) | Da Vigília de Pentecostes ao sábado seguinte |
| Santíssima Trindade (de sanctissima Trinitate) | Festa da Santíssima Trindade e, em geral, os domingos “do ano” (depois da Epifania e depois de Pentecostes) que não têm prefácio próprio |
| Apóstolos (de Apostolis) | Festas dos Apóstolos |
| Nossa Senhora (de Beata Maria Virgine) | Festas de Nossa Senhora (com uma frase variável conforme a festa) |
| São José (de S. Joseph) | Festas e Missas votivas de São José |
| Sagrado Coração (de sacratissimo Corde) | Festa do Sagrado Coração |
| Cristo Rei (de D. N. Jesu Christo Rege) | Festa de Cristo Rei |
| Defuntos (Defunctorum) | Missas de Defuntos |
O prefácio da Santíssima Trindade é o que mais se ouve na Missa dominical: nos domingos depois da Epifania e depois de Pentecostes, que somam a maior parte dos domingos do calendário, é ele que se canta (veja O ano litúrgico). Antes de um decreto de 1759, que prescreveu o prefácio da Trindade para esses domingos, parece ter havido variação de costume entre ele e o Comum. O texto resume a fé trinitária da Igreja em poucas linhas e é um bom exemplo da densidade doutrinal dos prefácios.
Prefácio da Santíssima Trindade (depois do diálogo comum):
Vere dignum et justum est, æquum et salutáre, nos tibi semper et ubíque grátias ágere: Dómine sancte, Pater omnípotens, ætérne Deus: Qui cum unigénito Fílio tuo et Spíritu Sancto unus es Deus, unus es Dóminus: non in uníus singularitáte persónæ, sed in uníus Trinitáte substántiæ. Quod enim de tua glória, revelánte te, crédimus, hoc de Fílio tuo, hoc de Spíritu Sancto sine differéntia discretiónis sentímus. Ut in confessióne veræ sempiternǽque Deitátis, et in persónis propríetas, et in esséntia únitas, et in majestáte adorétur æquálitas. Quam laudant Angeli atque Archángeli, Chérubim quoque ac Séraphim: qui non cessant clamáre cotídie, una voce dicéntes:
É verdadeiramente digno e justo, conveniente e salutar, que nós vos demos graças sempre e em todo lugar, Senhor santo, Pai onipotente, Deus eterno: vós que, com o vosso Filho unigênito e o Espírito Santo, sois um só Deus, um só Senhor: não na singularidade de uma só pessoa, mas na Trindade de uma só substância. Pois o que, por vossa revelação, cremos da vossa glória, isso mesmo, sem diferença nem distinção, sentimos do vosso Filho e do Espírito Santo. Assim, na confissão da verdadeira e eterna Divindade, adorem-se a propriedade nas pessoas, a unidade na essência e a igualdade na majestade. Esta majestade louvam os Anjos e os Arcanjos, e também os Querubins e os Serafins, que não cessam de clamar todos os dias, a uma só voz, dizendo:
Os prefácios acrescentados em 2020
Pelo decreto Quo magis, de 22 de fevereiro de 2020 e divulgado em 25 de março do mesmo ano, a Congregação para a Doutrina da Fé (que desde janeiro de 2019 cuida das matérias antes confiadas à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei) aprovou sete prefácios adicionais, de uso facultativo, para o Missal de 1962: dos Anjos, de São João Batista, dos Mártires, da Missa nupcial, de Todos os Santos e Padroeiros, do Santíssimo Sacramento e da Dedicação de uma igreja. Os quatro primeiros são tirados do Missal de 1970, cujos textos, no trecho central, têm origem em fontes antigas, e foram adaptados nas conclusões ao padrão dos prefácios de 1962; os três últimos já eram usados, desde antes da reforma, em dioceses da França e da Bélgica (de origem neogalicana, do séc. XVIII) e passaram a valer em toda parte. O decreto não revoga os prefácios próprios já permitidos a lugares e ordens. Um segundo decreto, Cum sanctissima, da mesma data, trata da celebração facultativa de santos cujas memórias foram estabelecidas depois do Missal de 1962.
O que significa
O Sursum corda convida ao movimento espiritual central da Missa: erguer o coração. A resposta, Habémus ad Dóminum, “temo-los no Senhor”, é uma pequena profissão de fé. O Dignum et justum est afirma que dar graças é o que deve ser feito. E a palavra “eucaristia” (do grego eucharistía, “ação de graças”) nomeia o que se vai fazer: toda a Missa é uma grande ação de graças, da qual o prefácio é o pórtico.
Rubricas
Terminada a Secreta, o sacerdote diz em voz alta Per ómnia sǽcula sæculórum (resposta Amen). Coloca as mãos sobre o altar, a cada lado do corporal, e diz Dóminus vobíscum; ao Sursum corda, eleva as mãos até a altura do peito; ao Grátias agámus Dómino, junta as mãos e, ao dizer Deo nostro, ergue os olhos e inclina a cabeça à cruz (Ritus servandus VII, 8). Em seguida estende as mãos e as mantém assim até o fim do prefácio, que diz em voz clara e inteligível; a Instrução de 1958 (n. 34) pede que, onde as rubricas mandam falar em voz clara, o celebrante o faça de modo que os fiéis possam acompanhar. No fim junta as mãos, inclina-se e passa ao Sanctus. Na Missa solene o prefácio é cantado em tom próprio, solene ou ferial; o texto e o canto dos prefácios formam um capítulo à parte da tradição gregoriana (veja O latim e o canto). Na Missa rezada, a Instrução de 1958 (n. 29) não admite música instrumental contínua desde os primeiros versículos do prefácio até o Sanctus inclusive.
Fontes
- Missale Romanum, ed. typica 1962: Ordo Missae e Præfationes
- Divinum Officium: Ordo Missae e Præfationes (texto latino)
- Hipólito de Roma, Tradição Apostólica; São Cipriano, De dominica oratione 31; Catequeses Mistagógicas V (atribuídas a São Cirilo de Jerusalém)
- Congregação para a Doutrina da Fé, decreto Quo magis (22 de fevereiro de 2020) e nota explicativa
- Federação Internacional Una Voce, Positio n. 8: Prefaces (junho de 2012; texto de posição, consultado aqui pelos dados históricos)
- J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia, vol. II, parte sobre o Prefácio